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Fernão Mendes Pinto no Sião

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Foi Fernão Mendes Pinto que descreveu o Reino do Sião,em meados do sec. XVI, durante a sua permanência, em Ayuthaya, como soldado ao serviço da corte, envolvido em lutas acérrimas contra os exércitos do Reino do Pegu, cujo estas voltaram num feudo.

Não vou agora tratar da trágica história da Rainha Suryothay de Ayuthaya, esposa real do Rei Mahachakrabhad,que numa das invasões, em 1548, levada acabo pelos birmaneses, Suryothay monta um elefante e morre na peleja quando procura salvar o seu esposo real.
Foi graças à narração de Pinto na sua Peregrinação que a história foi aproveitada e realizado o filme sobre a tragédia da sua vida. A exibição irá acontecer por ocasião do aniversário de S.M o Rei da Thailândia, em 5 de Dezembro próximo. Suryotahy tornou-se um, recente, mito em toda a Tailândia e venerada como uma raínha santa dentro dos preconceitos da religião budista.
Ao Pinto chamaram-lhe mentiroso, depois de ter deixado o número dos vivos, quando a sua obra, a "Peregrinação" foi publicada, em 1614. Está traduzida, em francês e nos escaparates, em 1628, das livrarias de Paris e em 1671, imprimida em Amestardão na língua alemã. O mesmo aconteceu na língua inglesa. A obra e um "best seller" e motivo de controvérsia a narração das coisas do oriente. Partiu duma Lisboa, pobre e fedorenta, à procura da aventura e da fortuna no Oriente, no ano de 1537 com a idade de 26 anos. Regressou pobre - igual como tinha partido em 1558 - e no quase fim da sua vida, pelos bons serviços prestados à Pátria, Filipe II de Espanha e Rei de Portugal, na altura, atende o pedido dos padres italianos João Pedro da Maffei e Gaspar da Cruz, Reitor do Colégio de Santo Antão, para que lhe seja concedida uma tença anual. Chegou-lhe, finalmente, a esmola, ao fim de 25 anos a ter solicitado! Dois moios de trigo, por ano, enquanto fosse vivo. Nesse ano a 8 de Julho morre Pinto.
Pinto viaja pela Costa Oriental de África, Índia, Pegu, Samatra, Sião, Cambodja, China e o Japão. Nesta peregrinação, transbordante de aventuras o caminhante foi: cronista, soldado da fortuna, pirata, jesuita e o primeiro Embaixador de Portugal no Japão. Hoje era rico no outro dia um pobre Jó.
Por onde vai passando encerra na sua memória, privilegiada o que observa: a fauna, usos e costumes dos povos, tormentas dos oceanos a que esteve sujeito, naufragando várias vezes.
João de Barros, o cronista que escreveu as Décadas da Ásia, serviu-se de informações de Pinto sobre o Japão, assim como: confessou claramente, o italiano Giovani Botero no seu livro "Relações Universais", publicado em Roma em 1592.
Já velho, cansado e desiludido do mundo, Fernão Mendes Pinto, sentado junto a margem do Tejo "roidinho de saudades" aguarda a chegada das caravelas, vindas do Oriente. Deseja saber aquilo que por lá se ia passando. Era o feitiço da nostalgia oriental a atormentar-lhe a mente no fim de sua vida.
Pinto quando começa a escrever a "Peregrinação", não teve qualquer ambição de os seus relatos serem publicados. Podemos, no entanto, chegar à conclusão, que o escritor escreve os seus relatos com o "credo no pensamento" e o terror de ser levado ao Tribunal do Santo Ofício da Inquisição que imperou, como repressão, nas gerações portuguesas, muito além da jurisdição do el-Rei de Portugal, por séculos. Pode não corresponder à realidade, quando iniciou o seu relato das aventuras, que a obra era dedicada a seus filhos.

«... pois me quiz (Deus) conservar a vida para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura, que por herança deixo aos meus filhos (porque só para eles e a minha tentaçao escrevê-la) para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos da vida que passei no decurso de 21 anos ...»

Terminou o testamento de família e morre cinco anos depois. Passados trinta anos a Peregrinação é publicada e, quantos cortes teriam sido feitos, pela foice severa de gume afiado do inquisidor-mor, antes de ser conhecida do público. Assassinado um relato impressionante, daquilo que Pinto viu nunca escrito pelos cronistas seiscentistas portugueses ou europeus.
Conheceu no Oriente Francisco Xavier. Foram amigos e emprestou-lhe dinheiro para que o "Apóstolo das Índias" construisse a primeira igreja no Japão. Pinto foi irmão jesuíta, foi expulso da congregação fundada por Inácio de Loiola e nunca aclarada a razão do afastamento. Aventaram a hipótese que Pinto seria "marrano" (1), ou pelos "prazeres carnais", que certamente teve durante as suas aventuras orientais. Pinto é prudente ao escrever não designando aventuras de amor. Entende-se que o cronista foi ferido pela seta do "Cupido" na Ilha da Espingarda, Tenagashima, no Japão. A lenda ficou. Todos os anos, nos festejos anuais, realizados nesta ilha em honra da espigarda, introduzida por Pinto logo que chegou ali, com credenciais de Embaixador de Portugal em 1543.
Os festejos são totalmente dedicados a Portugal. Há disparos da espingardaria lusa do seculo XVI, quando ainda a projecção da bala não era accionada pela pressão do gatilho, mas incendiada a polvora com o murrão da mecha. Pelas ruas de Tanegashima, uma caravela com as velas de Cristo percorre as principais ruas. Uma multidão entusiasmada, apinha-se nas bermas. No convés, marinheiros portugueses e o Fernão Mendes Pinto, todo garboso, na proa. Na ré a sua amada nipónica, de longos cabelos pretos esvoaçando ao vento.
Pinto partiu em busca de outras terras e novas aventuras e prometeu ao seu amor (reza a lenda), ja com um filho seu, que voltaria... nunca mais regressaria a Tanagashima e foi então que surge ("o poema da verdadeira paixão que fascinou as duas culturas, (2) a japonezinha de cabelos compridos, olhos negros e amendoados, todos os dias, em cima das rochas, olha o orizonte do mar para o ocidente, na esperança do regresso do seu amor português ao aconchego do seu seio).
Francisco Xavier morreu na Ilha de Saochuao, na China, a cinquenta milhas de Macau. O apóstolo tomou de base esta ilha, local de marginais e piratas, na esperança de poder entrar na China e propagar o cristianismo. Não consegue e morre em 1552. O corpo do santo é levado para Malaca, depois para Goa, onde repousam as suas relíquias.
Pinto, depois de tantas tormentosas aventuras no Oriente, estava em Goa com o propósito de regressar a Portugal. Relata assim a chegada dos restos mortais a esta terra:

«Em este tempo o padre Mestre Belchior determinou de ir numa fusta que o senhor viso-rey lhe deu, a buscar o corpo do Padre Mestre Francisco, que trazia hum irmão de Malaca, numa nao, e pola amizade passada com elle tive offerecy-me ao padre para ir com ele, como fui, e assi levou consigo três irmãos e 4 míninos da doutrina e a mim só, em ouvyr de fora. Andamos polo mar 4 dias com suas noutes, em busca e achamos a nao junto de Baticala, 20 legoas de Goa...» (3).

A fortuna não bafejou Pinto na terra do sol nascente e escreveu:

«... nas partes da China e Japão e sempre me ocupei em ajuntar bens da terra que erao os que eu pretendia; somente em Japão, todalas vezes que la fui ou mandey, acertei sempre perder; estando sempre penando nisto, queixando-me quam pouco ditoso fora em aquella terra, determinei de nunca tornar a ella, pois que tudo me sucedia tao mal, e estando nisto comecei a cuidar que se tornasse que me podia restaurar; acordando-me para confirmacão do que me podia Deus ajudar, pois com ho dinheiro que eu tinha em Japão emprestado ao Padre Mestre Francisco, se ouve feito a primeira igreja e casa da Companhia...» (3).

Pinto em 1555 parte de Malaca para Goa com "pé de meia" e pretende voltar a Portugal. Não tem conhecimento que Xavier já tinha morrido. O seu propósito seria o de recuperar o empréstimo que lhe tinha feito no Japão.
Em Goa tem conhecimento que os seus restos mortais vinham de Malaca e na mesma carta mais adiante diz:

«E com esta determinacão, cheguei a Goa, esperando as naos do reino para me partir logo, parecendo-me que minha glória e felicidade estava entrar em Momtemor com nove ou dez mil cruzados, e que com hum homem não roubasse o calis ou custódia da igreja, ou fosse mouro, que nenhua outra via se podia temer o inferno, e que bastava ser christão e que a misiricórdia de Deos era grande.»

As cerimónias fúnebres, em Goa, em honra de Xavier sao imponentes e com elas se aproveitam os jesuítas da propagação da fé.
É então que Pinto influenciado pelo grande cerimonial e aliciado pelos missionários se consagrou à ordem como irmão.
Não descuram os seguidores de Inácio Loiola que Pinto é uma figura com enormes conhecimentos da Ásia e, além de se aproveitarem da sua generosidade, ele e necessário para os jesuitas o enviarem como mensageiro a terras onde eles ainda não tinham chegado com a cruz. Com isto, também, o ser despojado das suas economias - grangeadas sabe Deus como. José Feliciano de Castilho diz-nos:

«Acharam na Índia um homem aproveitável, por seu talento, sua influência, suas relações e suas riquezas; lancaram-lhe o arpão. Chamaram-no ao confessionário, entregaram-no à direcção do mais hábil, preparam cenas de efeito, surpreenderam-lhe os votos, apoderaram-se-lhe da riqueza, negociaram com as suas virtudes e, seu exemplo, levantaram-no ao sétimo céu.
Amaldicioado pela sua saída, conjuram esforços contra o desgracado (...); já o perseguem em Goa, a ponto de o constranger e fugir dali; já o enredam com o Governo de Portugal de modo que não receba renumerações os seus serviços; já impõem aos seus escritores sepulcral silêncio acerca de tão notável homem; já fazem espalhar as vozes mais desfavoráveis para o seu crédito; jé, enfim, cometem, para prejudicá-lo, as mais vergonhosas falsificações».

No século XVI, pouco depois de a sua obra ter sido publicada, o povo português habituado a ver para crer, não aceita ou dá crédito as narrações daquilo que Pinto tinha visto na Ásia e desde logo inventam:

"Fernão Mendes? Minto". Tem sido esta ligação entre Pinto e a sua obra a "Peregrinação", ainda muito pouco conhecida a grandeza deste livro pelos portugueses, que infelizmente:

« e o escritor é posto assim no rol dos aldrabões, que falam muito mas não dizem nada, uma espécie de vendilhão a tentar vender a sua "banha da cobra" que ninguém está interessado em comprar» (4).

Sobre a vida e obra do Fernão Mendes Pinto poder-se-iam, na sua análise, escrever milhares de páginas de tanto que viu e passou no Oriente.

Continuarei com Pinto na Varanda do Oriente e narrando a sua passagem no Sião ou Reino de Ayuthaya.

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(1) - Descendente de família judia ou Cristão novo
(2) - Avelino Rodrigues "Japão Mendes e Macau"
(3) - Carta do irmão Fernão Mendes Pinto para os padres e irmãos de Portugal, Malaca 5 de Dezembro de 1554. Documento existente na Biblioteca da Ajuda de Lisboa, 49-IV-49,fls. 186v-190 r (1) publicada no volume 5 "Documentação para a História das Missões do Padroado Português do Oriente", por António da Silva Rego,1951.
(4) - Fernão Mendes Pinto - "O outro lado do Mito"- de Maria Teresa Vale, em 1985.
 
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