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ESPÍRITO SANTO E ALENQUER

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No Congresso promovido em Setembro de 1996 pelo Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (Brasil), foi apresentado um magnífico trabalho por João Lupi àcerca de "As Festas do Divino Espírito Santo", cuja cópia tenho o privilégio de possuir, numa gentil oferta do seu autor.

Após a transcrição de vários documentos, publicados entre 1642 a 1690, referentes à primeira FESTA que teve lugar em Alenquer, durante o reinado de D. Dinis e Rainha Santa Isabel, João Lupi oferece as seguintes observações:

Sendo a festa, como dizem todos, tão importante em tantos lugares em Portugal, é de estranhar que se tenham passado mais de três séculos desde a sua criação até que algum historiador, cronista ou frade, em sua relação, se tenha lembrado de consignar, por escrito, a memória da origem das festas, uma vez que, nem da época da instituição, nem dos três séculos seguintes, se conserva documento que ateste o que aconteceu.

E foi, precisamente, quando as festas estavam entrando em decadência, no século dezassete, que quatro escritores documentaram a sua criação.
Uns mais, outros menos, mas todos quatro documentos concordam em que, na origem da festa, se encontram o Rei D. Dinis e a Rainha Santa Isabel, (tendo esta o papel mais destacado), a Vila de Alenquer, a figura do imperador, a celebração do Espírito Santo, a caridade nas esmolas de comida aos pobres, e a grande difusão da festa.

Entre os vários castelos e terras que, por contrato antenupcial, foram entregues à Rainha Santa Isabel, encontrava-se a Vila de Alenquer e seu castelo, mantendo assim um costume originalmente introduzido por D. Sancho I, e que viria a ser tradicionalmente conhecido por CASA da RAINHA. Com a entrega de castelos e terras à rainha-consorte, ficavam assim constituído um "património" de onde a rainha tinha a oportunidade em auferir rendas, que lhe dariam uma certa "independência económica". Por norma, tais propriedades voltavam à posse da Coroa após a morte da Rainha.

Curioso o facto de ter sido a Vila de Alenquer aquela que D. Sancho I oferecera à esposa, e mais curioso ainda de Alenquer ter pertencido, anos depois à sogra da Rainha Santa. Consequentemente, Alenquer revela-se-nos como o lugar onde a rainha era mais rainha, e onde ela agia como senhora independente. Escolhê-la para alguma acção era sinal de total soberania da sua parte; ali, mais do que noutro lugar, ela era a Rainha!

Vem tudo isto a propósito do eventual motivo que teria levado a Rainha Santa a escolher Alenquer, e não outra cidade maior, p'rà celebração da mui importante e nova festa do Espírito Santo.

Além disso, ao receber, como parte tradicional da "Casa da Rainha", a vila e castelo de Alenquer, Santa Isabel acolheu, igualmente, um convento de franciscanos, o primeiro a ser construído em Portugal em 1222. Esta herança franciscana, que lhe foi transmitida, tornou-se fundamental p'rà instituição das Festas do Divino Espírito Santo, tanto mais que foi o franciscano Joaquim de Fiore, entre outros, quem "profetizou" uma nova vinda do Espírito Santo e uma era de paz e liberdade, em que os cristãos receberiam inspiração directa de Deus, e não teriam de obedecer mais a leis nem hierarquias.

A expansão do cristianismo faz parte, também, do espírito franciscano.
O próprio fundador, S. Francisco de Assis, viajou neste sentido até ao Oriente; anos depois, este ideal assume características verdadeiramente universalistas, quando os franciscanos partem p'rà China, multiplicando-se outras missões em terras de muçulmanos.

No testemunho de João Lupi, "cabe lembrar que as assembleias gerais dos franciscanos realizavam-se, todos os anos, na Festa de Pentecostes. Daqui, animados pelo Espírito Santo, como os Apóstolos, os franciscanos irradiavam p'ra pregar a todo o mundo. Portanto, desde os primeiros tempos, o IMPÉRIO UNIVERSAL de Cristo está adentro da espiritualidade franciscana, como algo intrínseco à sua doutrina".

De novo em Alenquer... Convém inserir aqui a informação de que foi a sogra da Rainha Santa Isabel quem, em 1290, mandou iniciar as obras da construção da Igreja do Espírito Santo, anexa ao convento franciscano.
As obras ficaram concluídas em 1305, sendo portanto provável que, só após esta data, a Rainha Santa tenha instituído a Festa relatada pelos cronistas.

Por outro lado, observa João Lupi, quando a mesma Rainha criou, ou autorizou, em 1296, a criação duma confraria do Espírito Santo na sua vila de Alenquer, pode ser que a igreja, incompleta, já estivesse aberta ao culto. No entretanto, não foi esta a primeira confraria do Espírito Santo em Portugal, pois há notícias de uma já existente em Benavente (1237), e de uma outra em Lisboa, em meados do século.

Os testemunhos, de cronistas antigos, citados por João Lupi, apontam claramente os responsáveis na promoção original das Festas do Espírito Santo em Portugal. Aqui ficam uns ligeiros extractos:

"A Rainha Santa Isabel e el-rei D. Dinis seu marido foram os autores da festa que se chama do Espírito Santo, cuja solenidade foi tão célebre por todo o reino (...) Aqui em Alenquer se celebra ainda esta acção, que chamam do império, com grande aparato: levam três coroas, e uma delas que foi da Rainha Santa Isabel (...) Muitas coisas notáveis, em que teve boa parte a Rainha Santa Isabel, uma é a solenidade do império, do qual ela e seu marido, para celebrar a festa do Espírito Santo, foram os inventores primeiros (...) E entre outras devoções, a Rainha Santa introduziu um modo, que chamam impérios, e na festa de Pentecostes instituiu um bodo com abundância de pão, bolos, carne e outras coisas comestíveis".

Julgo desnecessário acrescentar que a FESTA incluía assistência à missa, cortejo processional e coroação do "imperador ou imperatriz". A trilogia simbólica que, ainda hoje, continua sendo o padrão das Festas do Divino nos Açores, é constituída pela oferta e distribuição de Pão, Carne e Vinho!


Pe. José A. Ferreira
San Leandro, Califórnia
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