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SEXO E REALEZA

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Obviamente os livros em que na escola estudámos a história de Portugal só indiquem o que os nossos reis e rainhas fizeram no trono, não nos seus reais leitos. Embora a História (mesmo com H maiúsculo) seja basicamente uma bisbilhotice académica, há certos aspectos delicados, como por exemplo actividades nocturnas, que muitos historiadores preferem deixar numa cautelosa escuridão - aspectos que podem ser interessantes e reveladores das régias personagens. Para os explorar não nos podemos na maioria dos casos basear em documentos oficiais, visto o Diário do Governo jamais publicar a notícia de que Sua Majestade, o Rei, passara enlevadamente a noite anterior com uma cantora italiana de ópera, por muito que o monarca amasse a música. Existem contudo pistas e indícios que nos levam a elaborar conclusões ou pelo menos especulações sobre os passatempos românticos dos nossos augustos soberanos.

A parca historiografia medieval não nos permite aprofundar muito o tema das inclinações afectivas reais. Sabemos contudo, para começar, que D. Teresa, viuva do Conde D. Henrique, a quem chamavam rainha embora não houvesse ainda monarquia em Portugal, se prendeu de muito íntimos amores com o Conde de Trava, a quem doou castelos e senhorios como recompensa pelos seus serviços.

Sabemos também que quase todos os reis da primeira dinastia tiveram o seu bastardozito. D. Dinis, por exemplo, além de poetar sobre as flores do verde pino, de criar os Estudos Gerais e de pensar a sério no problema agrícola nacional, que já  então existia, ainda encontrou tempo para dotar o país com uma mão-cheia de filhos ilegítimos.

O monarca medieval que mais publicidade obteve para os seus devaneios foi naturalmente D. Pedro I, que neste aspecto mereceu a atenção literária de Fernão Lopes, Luís de Camões, Garcia de Resende, Vélez de Guevara e Henri de Montherland. O seu interesse por Inês de Castro teve início ainda no tempo de D. Constança, sua muito legítima esposa. Então ou depois os cinco anos em que D. Pedro amorosamente dialogou com D. Inês deram lugar à vinda ao mundo de quatro descendentes. E noutras deambulações o rei ainda teve oportunidade de presentear o país com um bastardo que seria depois o Mestre de Avis, aquele que as cortes de Coimbra escolheram para rei, com o nome de D. João I. Apesar destas liberalidades o soberano era implacável com pecadilhos alheios e mandou privar da sua virilidade um escudeiro que tinha conseguido favores de uma dama casada e queimar outra adúltera.

O filho legítimo de D. Pedro, o rei D. Fernando, cognominado o Formoso, embora noivo de uma princesa castelhana, teve artes para ornamentar a testa de um dos seus súbditos. Deve-se-lhe contudo a elegância de obter do Papa a anulação do casamento da sua bem-querida, D. Leonor Teles, e acabar por dar o nó com ela. D. Leonor, ao enviuvar, não se conservou contudo muito grata memória do formoso defunto e iniciou logo a seguir uma "meaningful relationship" com um nobre galego, o Conde Andeiro.

D. João I teve um filho de uma ligação com a filha de um sapateiro judeu, a que chamavam o Barbadão. Este filho, feito Conde de Barcelos, casou com a filha de D. Nuno Álvares Pereira e deu origem à casa de Bragança.

D. João II fez o que pôde para, à morte do seu filho legítimo, o Infante D. Afonso, impor como herdeiro do trono um filho bastardo, D. Jorge. Parece que a ideia não encantou propriamente a rainha e o sucessor acabou por ser D. Manuel, cunhado e primo do rei. Aliás D. Manuel, além do trono, herdou também a viúva de D. Afonso, a primeira das suas várias esposas.

Consta que D. Sebastião nunca fez nada na cama senão dormir. (Na sua curta vida de adulto, entenda-se, pois quando bebé, devia por certo tê-la humedecido como compete a qualquer pimpolho que se preze). Diz-se que o jovem rei sofria de um corrimento crónico que o impediria de assegurar a continuação da dinastia.

O Cardeal-Rei D. Henrique devia ter ideias algo estranhas sobre processos biológicos. Instado pelos seus cortesões para assegurar uma descendência que neutralizasse as pretensões ao trono português de Filipe II de Espanha, pensou pedir ao Papa dispensa dos seus votos sacerdotais e contrair matrimónio com a rainha-mãe de França. Um ligeiro problema era que a boa senhora contava já 59 anos, uma etapa da vida portanto não muito propícia à fertilidade. E por outro lado o geriátrico soberano não faria tão pouco um ardente e prolífico amante.

De limitações análogas às de D. Sebastião padecia também D. Afonso VI, pois era voz corrente que o único trato com a sua rainha tinha lugar quando a saudava em actos públicos. D. Maria Francisca registou aliás o facto numa carta que dirigiu ao soberano, em que escrevia "Não se agradou V. Majestade de mim, não, meu marido, como V. Majestade bem sabe". Esta incompatibilidade foi fraternalmente resolvida pelo irmão do rei, o futuro D. Pedro II, quem depois de fazer anular o casamento de D. Afonso e de o encerrar no Castelo de Angra e no Paço de Sintra, casou ele mesmo com D. Maria Francisca, matrimónio esse que desta vez resultou frutífero com o nascimento de uma princesinha.

Já entrado o século XVIII, foi notório o interesse de D. João V pela Madre Paula, que frequentemente visitava no convento de Odivelas. Dessas devotas visitas nasceram os chamados "meninos da Palhavã", para quem mandou construir o palacete de Lisboa onde hoje está instalada a Embaixada de Espanha. Aliás dizia-se de D. João V que era tão religioso que todas as suas amantes eram freiras.

D. José, sofreu um atentado que o deixou ferido num braço quando regressava ao palácio depois de um ameno colóquio nocturno. O seu neto, D. João VI, não se podia orgulhar de uma impecável fidelidade de sua esposa, D. Carlota Joaquina. A rainha teve vários filhos. Segundo todas as probabilidades o mais velho, o que viria a ser D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal, era mesmo do seu legítimo esposo. Quanto aos outros, quase certo que um deles devia a sua paternidade aos prestáveis serviços do almoxarife do paço. Dos restantes, diz-se que apresentavam notórias semelhanças fisionómicas com vários oficiais da guarda. E isto apesar de a soberana ser mais feia que uma noite de trovões. Eram tais as suas apetências que quando o seu coche se aproximava do coche do seu paciente marido nas estradas de Queluz o rei gritava indignado ao cocheiro: "Volta para trás! Vem aí a puta!". Desnecessário quase ser  explicar que o brado terminava com um dissílabo bem pouco digno de régios lábios.

Depois de ter feito das suas no Brasil com a Marquesa de Santos, que o presenteou com vários nenés, sabe-se que durante a sua estadia na Terceira D. Pedro I se penitenciava dos seus desvarios por meio de prolongadas visitas a conventos. Mas só de freiras, entenda-se. Por outro lado o seu neto, D. Pedro V, tal como outros antecessores seus, parecia ser avesso a intimidades matrimoniais. A esposa, D. Estefânia queixava-se numa carta da "extrema frialdade" do seu Pedro. E quando a rainha morreu, o médico que fez a autópsia, segundo consta, opinou que a rainha fosse enterrada num caixão branco e com uma coroa de flores de laranjeira.

Entretanto o pai de D. Pedro V, D. Fernando de Coburgo, ao enviuvar de D. Maria II legalizou uma antiga relação que mantinha com a cantora Elisa Hensler, fazendo-a Condessa de Edla.
O antepenúltimo e o penúltimo dos reis de Portugal fizeram o que puderam pela vida, nem sempre muito discretamente. D. Luís, por exemplo, teve um notório caso com a actriz Rosa Damasceno e, voz pública, que D. Carlos não foi um absoluto exemplo de fidelidade conjugal.

E para rematar a crónica há que assinalar que o actual representante da monarquia portuguesa, D. Duarte Pio, casou há pouco, quando já rondava os cinquenta anos. O seu anterior celibato afligia os monárquicos, muitos dos quais lamentavam a alegada total ignorância do Duque de Bragança em questões de biologia aplicada. Mas enfim, as aparências indicam que cumpriu as suas obrigações sucessórias e a duquesa entrou no seu estado interessante. Dizem contudo as más línguas (mesmo algumas indefectivelmente monárquicas) que quando perguntavam ao duque como se chamaria a filha que esperava, ele respondia "Noeminha".


Eduardo Mayone Dias
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