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AMÉRICA E EUROPA: DUAS MANEIRAS DE ESTAR NA EMIGRAÇÃO

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Já por várias vezes se tem apontado o facto de a emigração portuguesa para a América do Norte e para a Europa se revestir de facetas consideravelmente diferenciativas, ainda que os contrastes se venham nos últimos anos atenuando com o envelhecimento da segunda. Para começar é necessário atender à maturidade das duas correntes. A emigração para o que é hoje os Estados Unidos remonta teoricamente ao século XVII (1), embora a chegada maciça de emigrantes só se comece a registar a partir dos meados do século passado. (Quanto ao Canadá, o primeiro movimento significativo teve lugar na década de 1950.) O grande surto migratório para a Europa só arranca contudo, como é de conhecimento geral, a partir da década de 1960 (2). Este hiato entre os inícios da emigração transatlântica e da transcontinental implica, como é óbvio, um muito superior carácter de permanência da primeira, com o resultado de que na América o emigrante encontra já mais eficazes padrões de fixação que o auxiliam a aculturar-se à chegada e o incentivam a estabelecer-se em moldes definitivos.
Para além disto, a atitude ante a radicação torna-se em ambos os casos também significativa. O emigrante que opta pela América vem geralmente com a intenção de ficar ou se não adquire-a nos primeiros dois ou três anos da sua estadia. Este facto implica que os seus esforços quase sempre se orientam logo de início para a busca de uma forma de vida que assegure estabilidade: a compra e apetrechamento de uma casa, a aquisição de um ou mais carros, a acumulação de bens de consumo, o aforro em bancos americanos e o eventual investimento no país com fins lucrativos.

O emigrante da Europa, por oposição, mantém em geral os olhos postos na pátria: regressa lá uma ou duas vezes por ano, ocasionalmente por períodos prolongados, e a sua maior preocupação consiste na compra de uma ou mais casas na sua terra natal. A intenção predominante é amealhar meios de vida para poder passar o resto dos seus dias em Portugal. Para isso vive muitas vezes a níveis deficitários no estrangeiro, embora normalmente não limite a sua alimentação. Ocupa contudo com frequência uma casa alugada num bairro pobre, por vezes em situações quase sub-humanas. As condições de habitação têm no entanto melhorado muito desde os primeiros tempos da emigração para a França, quando os portugueses se amontoavam nos bidonvilles, por vezes quatro ou cinco trabalhadores no mesmo quarto (3), privados das mais elementares condições de higiene ou de conforto. Têm subsistido todavia ainda casos esporádicos como o dos portugueses de Gijón, aliás quase todos ciganos, ocupando ainda há pouco barracas nos arredores da cidade, o que levou a uma séria confrontação com as autoridades espanholas. No Luxemburgo muitos portugueses que emigraram sem a família vivem em lares (foyers) onde dispõem de razoáveis condições habitacionais mas onde não existe qualquer privacidade. Por outro lado o emigrante radicado na Europa não investe grandemente em bens de consumo ou diversões e normalmente só adquire carro quando sente a necessidade de vir de férias à sua terra e impressionar com ele parentes e vizinhos. (Quanto à imagem projectada ante os seus conterrâneos, o emigrante da América actua geralmente de modo algo diferente: o patenteamento da sua nova prosperidade revela-se através de presentes, convites e realização de festas, muitas vezes associadas ao cumprimento de uma promessa religiosa).
O panorama ocupacional do emigrante nos dois continentes pode ilustrar, ainda que nem sempre de um modo conclusivo, estas diferenças de atitude. Na América, mesmo que o emigrante se insira no nível do assalariado, parece existir uma maior apetência (e, como é lógico, uma maior possibilidade) de ascensão na hierarquia profissional ou até no sentido de uma passagem à qualidade de empregador. Veja-se por exemplo como no Silicon Valley da Califórnia se pode atingir uma categoria de semi-especializado nas fábricas de electrónica ou como em anos passados o ordenhador alcançou o nível de produtor ou o pescador de atum o de capitão-armador. (Há contudo que admitir que esta ascensão parece ter sido mais fácil na Califórnia -- e em tempos idos no Havai -- do que nas zonas urbanizadas e altamente industrializadas da Costa Leste, embora aí também se tenham constituído unidades empresariais de certa importância, tanto no sector comercial como no fabril).
Na Europa o português tem se ficado com maior frequência ao nível de operário não especializado da construção civil (França, Bélgica, Luxemburgo, Espanha), de empregado de limpeza (França, Holanda, Luxemburgo), de mineiro (Espanha, Bélgica), de trabalhador rural (Espanha, Luxemburgo, Suíça), de operário fabril (um pouco por toda a parte) ou de empregado de hotelaria (Inglaterra, Suíça). As mulheres ocupam-se quase sempre em serviços domésticos (França, Luxemburgo, Espanha) ou nos escales mais baixos da hotelaria (França, Inglaterra, Suíça). Na Espanha a emigração tem acusado por vezes níveis lamentáveis, dada a existência de mendigos e prostitutas de origem portuguesa (4). A empresa comercial de propriedade portuguesa constitui na maioria dos países da Europa pouco mais que uma modesta resposta às necessidades de compra dos compatriotas: a mercearia que proporciona os artigos tradicionais, a agência de viagens e o café ou restaurante, este aliás muitíssimo mais visível na Europa, no Canadá e na Costa Leste dos Estados Unidos do que na Califórnia. (5).
Obviamente que também nos Estados Unidos (e no Canadá) se encontra um vasto número de portugueses dedicados a trabalhos fabris, de limpeza ou de construção civil e que também se desenvolveu um sector comercial étnico. A par destas ocupações observa-se contudo uma mais alta diversificação profissional e uma maior capacidade de adaptação a actividades económicas alheias à procura comunitária, implicando em numerosos casos a criação de empresas de muito considerável envergadura (6).

A atitude que o português assume no que diz respeito à integração nos padrões vivenciais do país adoptivo não depende contudo exclusivamente de uma escolha própria ou de condicionalismos anteriores. Ainda que oriundo de regiões diferentes -- predominantemente o centro-norte no caso da Europa e os Açores no da América -- o perfil do emigrante transcontinental ou transatlântico oferece enormes semelhanças.
Em ambos os casos o emigrado arquetípico provém de uma zona rural, traz na sua bagagem experiência como pequeno agricultor, chega dotado de uma escolaridade que até há pouco raramente ultrapassava os quatro anos e revela um profundo apego à sua forma tradicional de vida. A legislação vigente em cada um dos países de acolhimento é que representa o factor da maior relevância quanto à natureza do processo de assimilação. Como regra geral, os países europeus consideram o emigrante apenas como Gastarbeiter, trabalhador descartável sempre que as circunstâncias o exijam. Embora lhe facilitem os direitos de emprego e assistência social de que beneficiam os naturais (neste aspecto aliás a situação apresenta-se muito mais vantajosa em países como a Alemanha ou a França do que na América), a sua radicação e a sua eventual naturalização são extremamente obstaculizadas. Nos últimos anos a situação tem-se polarizado ao ponto de a emigração consistir virtualmente apenas no reagrupamento familiar ou nas idas de sazonais (7). Por outro lado os Estados Unidos e o Canadá, ainda que limitem severamente as entradas, patenteiam um certo desejo de assimilação dos seus emigrantes e por consequência oferecem-lhes mais viáveis condições de estabilização do que os países europeus, sempre muito sensíveis a flutuações do mercado de trabalho e a perturbações sociais resultantes de uma eventual vaga de desemprego (8). O emigrante da América sente-se pois mais benvindo e automaticamente aceita o ideário político e social do país de acolhimento (embora sobre ele possa apenas possuir ideias muito rudimentares), desejando até a naturalização como uma prova de ascensão social. Pelo contrário, o emigrante da Europa manifesta com frequência um alheamento ante as estruturas do seu novo país e até mesmo um ressentimento contra elas. Reconhece que tem agora melhores condições existenciais do que antes mas contudo sente-se apenas tolerado. Esta mentalidade observa-se com muito maior nitidez entre os emigrantes de mais alta escolaridade, muitos deles chegados por motivações políticas (9).

As situações de clandestinidade são bastante mais comuns na Europa do que na América. Nos primeiros anos da emigração para França calculava-se que 80% dos portugueses tinham chegado lá "a salto" (10) ou com "passaporte de coelho", como então se dizia (11). A procura de mão-de-obra era todavia intensa nessa época e os portugueses, uma vez cruzada a fronteira francesa, obtinham com relativa facilidade o seu permis de séjour, algo parecido com o green card americano. Hoje em dia avolumam-se os problemas de desemprego nos países industrializados e já se torna menos viável do que na América legalizar uma situação migratória irregular (12). Como consequência estima-se que cerca de metade dos emigrantes portugueses na Holanda e na Suíça sejam clandestinos. Na Espanha a proporção parece ser de um autorizado para dois clandestinos. O trabalho ilegal também se pratica obviamente por parte dos portugueses nos Estados Unidos e no Canadá mas em proporções muito mais reduzidas. Avalia-se, por exemplo, que dos Açores só cerca de 70 pessoas saem por ano para o estrangeiro com passaporte turístico mas com intenções de fixação permanente.
Para além destas diferenças existe naturalmente um denominador comum de natureza emocional e cultural. Em qualquer parte a nostalgia pela pátria é uma constante. Ante condições materiais discriminatórias ou ante a incapacidade de inserção nos novos circuitos esquecem-se com frequência as carências do passado e idealiza-se o que se deixou para trás. O interesse pelas formas de vida tradicionais intensifica-se. O indivíduo que no seu país jamais entrara numa casa de fados sente agora a necessidade de a frequentar, na medida em que esse tipo de música vai de encontro ao seu desejo de preservação de certos valores. O mesmo se poderia dizer das danças regionais: existem mais ranchos folclóricos portugueses na França do que em Portugal (13). A timidez e submissão lusitanas, a relutância perante enfrentamentos reivindicativos, são também factores que se podem verificar dos dois lados do Atlântico e que aliás tornam desejável o trabalhador português às entidades patronais. A honestidade, o apego ao trabalho, o acatamento da lei são tão patentes na América como na Europa.
Nos dois casos criou-se uma cultura própria, inevitavelmente híbrida, de que a língua é um dos índices mais significativos. Um novo dialecto do português apareceu no estrangeiro, o chamado "emigrês". Na realidade o "emigrês" é apenas uma abstracção, na melhor das hipóteses um processo. O que efectivamente existe, ainda que com um certo cunho comum, são tantas variantes "emigresas" quantas as línguas com que o emigrante tem de interactuar.
Com o amadurecimento da emigração europeia (sobretudo através da formação de uma segunda geração consideravelmente aculturada) começam a esbater-se algumas das diferenças entre os dois fluxos migratórios. O português da Europa já não aceita com tanta prontidão o retorno definitivo quando sabe que não será acompanhado pelos filhos ou netos, já irremediavelmente integrados no país de acolhimento (14). Começa pois a avolumar-se uma situação de bipolaridade, com os emigrantes mais idosos passando metade do ano na casa que mandaram construir em Portugal e a outra metade com a família que preferiu não regressar. Não é ainda um processo completo de radicação (aliás menos factível na Europa do que na América pelas causas atrás apontadas) mas uma situação intermédia com fortes probabilidades de se acentuar entre os mais jovens.

O que poderá reservar o futuro aos membros da diáspora portuguesa? Tudo depende dos rumos que a emigração daqui por diante tomar. De momento é nítido um estrangulamento das correntes migratórias, tanto para a América como para os países europeus. No segundo caso a situação não se deve alterar substancialmente pelos anos mais próximos, mesmo com a entrada de Portugal para a União Europeia, já que persistem tanto uma retracção económica como muitas das antigas restrições ao livre movimento de trabalhadores. Por outro lado é concebível que a nova situação crie em Portugal postos de trabalho que tornem a emigração uma necessidade menos premente. No que diz respeito aos já radicados, a progressiva assimilação das camadas mais jovens aos padrões dos países onde habitam afigura-se inescapável, sobretudo através de um maior acesso à educação. Quanto à América parece estarmos presenciando um declínio migratório, causado não só por dificuldades burocráticas levantadas pelas autoridades norte-americanas e canadianas, como pelo desenvolvimento económico nos últimos anos registado nos Açores, fonte principal das saídas para a América do Norte, como atrás se mencionou. Tudo parece pois apontar para um considerável esbatimento da presença portuguesa para além-fronteiras (15), ainda que de certo modo compensada pela inevitável herança que ela deixará aos seus descendentes.

NOTAS

(1) O primeiro grupo português a estabelecer-se na América do Norte, em 1654, era constituído por judeus chegados do Brasil a Nova Amesterdão (depois Nova Iorque).

(2) Em 1960 os portugueses eram em França cerca de 54 000. Em anos posteriores, como se sabe, quase atingiram o milhão.

(3) Também no início da emigração para o Canadá se compartilhavam não só quartos mas até camas. Em vários casos o emigrante alugava uma cama, a que só tinha direito oito horas por dia, de modo a deixá-la livre para outros dois homens.

(4) Uma relativamente recente sondagem indicava que cerca de 73% dos mendigos de Madrid eram portugueses, sobretudo de etnia cigana. No Norte de Portugal desenvolveu-se uma activa rede de engajamento de raparigas para trabalharem em bares em Espanha. Uma vez chegadas eram por vezes forçadas a entregar-se à prostituição.

(5) O café-restaurante português na Europa, no Canadá e na Costa Leste dos Estados Unidos assume uma função de centro de convívio, semelhante à dos salões das associações portuguesas na Califórnia.

(6) Existe, por exemplo, na Califórnia uma empresa de distribuição de leite, fundada por um emigrante açoriano, que dispõe de cerca de 400 veículos e que conta com uma folha anual de pagamento de salários da ordem dos cinco milhões de dólares.

(7) Em 1985 saíram nestas condições cerca de 25 000 portugueses com destino à Suíça e 11 000 com destino à França.

(8) Entre outras condições, a competição no mercado laboral leva a frequentes atitudes de xenofobia, embora menos patentes contra os portugueses do que contra outros estrangeiros, um fenómeno hoje em dia já quase inexistente nos Estados Unidos e no Canadá. Em 1971, por exemplo, via-se na porta de um restaurante no Luxemburgo o seguinte letreiro: "Proibida a entrada a portugueses e espanhóis".

(9) Dos jovens que na época salazarista, sobretudo durante os anos das guerras de África, se fixaram no estrangeiro por razões políticas, escolhendo de preferência a França, a Inglaterra, a Suécia, a Bélgica e a Holanda, uma boa parte nunca regressou a Portugal.

(10) A expressão "a salto" parece ter raiz açoriana. De facto, nos primeiros anos deste século muitos ilhéus emigraram clandestinamente, saltando de uma rocha para o mar e nadando, com uma trouxa à cabeça, para navios estrangeiros que os esperavam a certa distância da costa.

(11) A odisseia da emigração clandestina nos princípios da década de 1960 é bem conhecida. Muitos relatos se têm de facto publicado sobre passagens dos Pirinéus a pé, no meio de tempestades de neve, transportes em camiões de gado com fundos falsos e explorações, roubos e até assassinatos por parte dos passadores, assim como suicídios de emigrantes desorientados por terem sido abandonados à sua sorte num meio desconhecido.

(12) Torna-se curioso anotar como o trabalho clandestino gerou inclusivamente nas zonas de língua francesa uma expressão para o descrever: "trabalhar ao negro" ( de travailler au noir).

(13) Em 1983 existiam em França 133 ranchos folclóricos portugueses. Estes ranchos são também numerosíssimos nos Estados Unidos e no Canadá.

(14) Em 1985 retornaram a Portugal cerca de 25 000 emigrantes, uma cifra não muito significativa em face aos números globais.

(15) Mesmo levando em linha de conta a falibilidade das estatísticas, é impressionante notar como na actualidade de cada quatro ou cinco portugueses, um vive no estrangeiro.


Eduardo Mayone Dias
University of California (Los Angeles)
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