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Portugal meu amor

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Um céu azul. No poente, farrapos leves e rubros. Uma brisa e uma ferida. Limpa a varanda. A avenida, está em obras. Os homens batem na pedra que aos poucos se transforma num mosaico tão característico nas ruas de Portugal. O apartamento fechado por vários meses torna-se hòstil à sua chegada. Durante horas limpa-o. Vai até ao kiosque da avenida comprar cartões para o telefone. Nele uma mulher angustiada, prepara-se para dizer adeus aos donos, que lhe explicam:
- Coitada desta senhora! Veio do Porto de propósito para se encontrar com uns primos e desencontraram-se. Está tão cansada de esperar que resolveu retornar...
- Posso fazer uma proposta? Avança-se Anaid prestável. Moro mesmo aqui na avenida. Porque é que não vamos deixar um bilhete na casa dos seus familiares, e a senhora vem comigo para a minha casa? Quando eles chegarem, ficam ao corrente da sua situação e encontram-se consigo na minha casa...
Ela aceitou o convite e horas depois um senhor veio efectivamente procurá-la. Conversa para aqui, conversa para ali, fica a saber que o dito sr. veio do Congo, e  conheceu muito bem o pai ... A partir daí era mais conhecida pela sua boa acção do que a princesa Diana. Um pequeno nada e tornaram-na o anjo que leva desconhecidos para casa. Ela sentiu uma grande ternura pela amizade que eles lhe dedicaram... Todas as manhas uma pequena delícia feita na cozinha da Betinha, a esperava coberta por um naperon de linho vindo do passado. Com eles sentia-se em perfeita harmonia. Passeios, picniques e uma estreita amizade seguiram-se no futuro. Foi um gesto sem custo, para receber o que não tem preço.

É meia-noite. Agora. Na avenida, que podia ser um lindo passeio para namorados, uma lua espantada observa Quarteira. As luzes no mar alto dizem-lhe que há barcos. Os homes pescam. Retorcem-se os músculos prateados no grito mudo dos peixes. Revolvem-se as brasas mais tarde, em gargalhadas loucas, quando as gorduras, depois, choram sobre elas. A seguir o festim. Os dentes gulosos rasgam-lhe as carnes. Vinho verde perfumam-nas. Vingam-se as sardinhas, no abrutalhado arrotar deles. Um palco tosco vibra... com o bambolear duma cantadeira e do dedilhar numa guitarra. Sons sintéticos emaranham-se à voz desafinada dela, de vermelho vestida. As pessoas parecem ter prazer em atordoar os sentidos e frenéticos acompanham o ondular desse corpo moreno... Anaid tenta evadir-se dos ruídos do Homen e concentrar-se. Quer substituir o som das gargalhadas estrondosas pelo respirar das ondas... Imagina grilos e cigarras. Vence o Homem. Retorna para dentro e fecha janelas e varandas enquanto que se rodeia dos seus barulhos. Uma harpa irlandesa acompanha a voz cristalina. E lendas da ilha das feiticeiras escorregam no seu pensamento. Florestas verdes beijadas docemente por um assoprar húmido, fresco do vento. No espaço transparente, e azulado, ele segreda-lhe:
Estou aqui...Procura-me.

A campaínha toca. Para a trazer a Portugal. Pergunta-se quem seria. Ninguém sabe que ela estava de novo em Portugal. Pensa que talvez a tia Lurdes que também tem um apartamento na Quarteira, ao ver luzes no apartamento deduziu que ela se encontrava por entre eles. Abre a porta e é com espanto que o recebe.
- António. Mas que surpresa. Como é que soubeste?
Dão-se um beijo acanhado, enquanto que entram.
- Estou a passar uns dias em Vila-moura, e gosto de passear à frente da tua casa, esperando que um milagre aconteça... E pelos vistos a esperança é recompensada!
- Mesmo que queira oferecer-te alguma coisa, não posso. Não tenho nada no frigorifico, nem na despensa...
- Tenho convites para uma recepção no hotel Albatroz. Gostava que me acompanhasses.
- Ela não quer abordar a sua vida pessoal. Mas com coragem enfrenta-o. A Laura...
- Estamos separados há uns meses. Olha-a e nota-a exausta.
- Deves estar com sono. A diferença horária... A que horas te venho buscar amanhã?
- Às dez horas.
Com cerimónia forçada, ele depõe um beijinho na testa dela.
- Dorme bem.
Ela teve um dormir irrequieto, e inquieta pergunta-se se devia ir ou não à recepção. Sabe que ao aceitar o convite do António, está a abrir caminho para um romance. Que quer evitar. Ele não consegue dormir. Tem vontade de a ir arrancar à fadiga. Mas controla-se. A voz dela nunca o abandonou desde a eterna infância. Sente ainda o sussurar infantil dela nas suas orelhas, a seda dos seus dedos na sua pele. E espera pacientemente que o sol desponte.
As mulheres começam a varrer as ruas. São sete horas da manhã. Na avenida, os restaurantes ainda estão fechados. A lua diáfana confude-se com o trémulo dia. Ela ri-se quando ele pede desculpa, por ser tão matinal.
- Estou feliz por me teres tirado três longas horas de espera. Aonde vamos tomar o pequeno almoço?
- No hotel da marina. Único sítio decente, que estará aberto a esta hora... Responde ele enquanto a abraça. Durante todo o percurso, falam de tudo e nada. Mais tarde, o pôr-do-sol nas doces colinas do Alentejo, acena alaranjado.
- E se parássemos em Evora? Para tirarmos uma fotografia...
- No templo de Diana, termina ele a rir.
- Oh, oh, temos que meter gasolina, grita ela quando se apercebe, do ponteiro no declínio. Alegres cantam eu não sei o que tenho em Évora, que de Évora me estou lembrando... E riem-se á gargalhada, por constatarem o desafinar...
- Ainda não entendo porque é que te escondias para me ouvires cantar! Ri-se Anaid.
- A voz que me enfeitiçou para sempre. Beija-a ele terno na testa.
- Por este andar não vamos chegar a tempo para a recepção...
O templo contempla-os.
- Quero-te tirar uma fotografia assim. Inspira-se ele nos cabelos dela que o vento desalinha. Os seus dedos compõem os caracois negros. Um flash back.
- Toninho, grita a menina, assustaste-me. Ele aparece na esquina, máquina preparada. E seguem juntos para o colégio.
Ele trá-la a ele. Tenho-as todas. As fotografias que te tirava. As escondidas, quando ias para a escola...
Ela abraça-o terna, sentindo que esse bem estar, lhe é proíbido. E pede-lhe mimada:
- Deixa-me tirar-te uma. Quer retê-lo numa pelicula. Como se pressentisse que será o último encontro. Sente-se triste. Passam quinze dias de sonho. Mergulham no passado, como duas crianças felizes e redescobrem-se no presente. Os dias sucedem-se. Na praia do guincho, os seus passos não deixam marca. No cabo da roca, respiram o ar frio. Através da neblima avistam a serra de Sintra.
- Dizem que o mundo termina aqui.
- Eu diria que começa...Suspira Anaid.
Passeiam nas ruas pequeninas de Sintra, e o António com um canivete deixa os seus nomes marcados numa árvore centenária. E respeita o desejo dela. Deixar a infância pura no pensamento dela. Ela volta para o Canadá. Com a certeza que não o vai voltar a ver. Na companhia da tap, os portugueses falam de comida, como se o universo girasse á volta dela. Vinho caseiro, chouriço, cozido à portuguesa, camarões, feijoada... Por muitos anos que viva, sabe que será sempre esse o famoso tema a ser discutido durante, antes e após a viagem... Chega a Halifax. Num dos voos internos deve ser a única portuguesa a viajar, para esse cul de sac, como diziam os seus amigos em Montréal, que tentavam tudo por tudo, dissuadi-la, na reviravolta que ela queria dar à sua vida. Apanha um taxi. Oliver o filho está na escola, e é uma casa solitária que ela sabe encontrar.
Quando abre a porta, por instinto abre a caixa do correio também. Um aviso de encomenda. Telefona. Puralator chega meia hora depois. Curiosa, pergunta-se o que seria. O coração bate-lhe mais rápido, quando lê António L. Abre o pacotinho pequeno: uma caixinha de caramelos exactamente iguais aos que ele lhe oferecia quando era o seu cavaleiro em Oliveira de Frades. Um cartãozinho simples acompanhava a ternura dele:
Este pensamento dedico-o a ti porque é teu
Gostava de continuar o caminho contigo....
Sorri. O encanto, já não a hipnotiza. Agora o António faz parte do mundo do sonho. O seu amigo de infância... "Perdi as ilusões quando te casaste... Mas encontrei-as quando pronunciei o teu divórcio...". Dirá ele mais tarde. Suspira quando relembra o encontro com o advogado português que a olhava curioso. Ele com a vantagem de poder fazer perguntas. Tenta completar o quebra cabeças. O mesmo nome... Mas ignorava o local de nascimento. Ela nem por um segundo imaginou ter a frente o amigo de infância que desapareceu por entre o tempo e espaços. Tropeça na bagagem espalhada pelo hall de entrada, e volta a realidade. Os filhos mais tarde abrem as prendas, e pela primeira vez, o desejo de saber sobre o Lit, é amortizado por outros interesses. Ele soube, que ela tinha chegado, e chega quase que, pensaria ela, angustiado, por ver tanta apatia nela.
Voltam a ver-se. Será que ela ainda ressente por ele algo, digno ou indigno, nem que seja uma simples chama que mantenha um elo? Desiste de procurar, uma lógica razoável para a sua complicada alma, camaleão, em movimento. Mas à sua volta o parque, os esquilos os pássaros e os veleiros na baía dão-lhe as boas vindas e com entusiasmo na alma ela pensa que tudo entra na sua ordem perfeita.

Diana de Moura - Halifax, Canadá
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