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Open house

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O jovem casal pára e lê a pancarta: "Open House".
Uma casa estilo victoriano, como todas as outras, da rua Querbes. Sobem os degraus exteriores e tocam à porta. O ar exageradamente acolhedor e teatral fá-los adivinhar: é o vendedor.
- Entrem, entrem, diz ele. Está-se bem melhor aqui do que lá fora!
Anaid acena mecanicamente com a cabeça, e pergunta se pode visitar. O olhar precede a resposta, ao englobar quase por completo o rés-do- chão. A imensidão dos espaços pouco preenchidos por mobílias agrada-lhe. Sente-se o amor pelo antigo, pelo calor primitivo das madeiras. A simplicidade do tosco combinado por uma ou outra peça de estilo. Anaid pensou a uma galeria... Os quadros, as flores, invadiam a luz difusa por vitrais antigos, que outrora abençoaram uma catedral, algures no tempo.
- Esta casa está á minha espera, pensa Anaid, enquanto mordisca, pensativa, o lábio inferior.
A devanear, desce os degraus que a conduzem à cave. Não se admirou com a sensação de conforto. Dir-se-ia que as paredes, absorviam os barulhos, pois a voz enervante do agente imobiliário deixou de lhe fazer efeito. O crepitar da lareira, tentou-a a sentar-se no chão de pedra. Resistiu, passou rapidamente os olhos pela casa de banho, sala das máquinas, cozinha (havia uma cozinha) e subiu de novo, agora, para o primeiro andar. Recebe-a um hall enorme... O banho "turbillon" que o ocupava quase por completo, fá-la parar. Pensa no borbolhar da água, a cantar aos repuchos. No chão, um cesto. Um cesto com toalhas floridas, recebia o facho de raios que rebentava como num hino, através do poço de luz, rasgado no alto tecto.
Esta casa agrada-me, pensa Anaid. Olha a cama, colocada de esquina, num dos quartos. Peca pela curiosidade e já não é a casa que ela olha. O homem da fotografia que lhe sorri, fá-la empalidecer. Estática, olha-o. Sente mais do que nunca, a presença de um destino, que incansável vigoroso, não descansa. Parece sentir ainda o assoprar morno, quando lhe sussurra atrás da orelha:
- Porque é que gostas de mim? Pergunta ele, na sua voz doce.
" Agora sabes... Num gesto aonde a ternura comove, gesto aonde a dor jorra, chorando no orvalho da manhã fria, ela fez escorregar o seu lenço ao longo do pescoço. Num ritual quase sagrado, Anaid, depõe-o, esvoaçante, sobre o homem, escondendo-lhe assim a nudez, que se adivinha portanto, através da diáfana seda. Ele continua a sorrir. Finalmente, a mão amada lhe cobre intimidade desnudada, por lençol mortuário.
"Outro lenço? Vai-se rindo ele... Gosto de o sentir, porque te sinto a ti".
A voz do vendedor, trá-la bruscamente á realidade:
- Ela vende porque enviuvou...

Diana de Moura - Halifax, Canadá
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