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A tempestade abate-se sobre Halifax. Sem se decidir, a ser chuva, granizo ou neve. À noite finalmente a chuva tomou forma e penetra através do telhado inclinado. As telhas seguiram o vento. Acordei por sentir lágrimas frias, nos meus pés. De um salto levanto-me:
- Que diabo... acendo a luz, para a fechar novamente quando reparo, que é mesmo no sítio do candeeiro, pendente do tecto, que a chuva resolveu abrir porta. Penso que vou ser uma das vítimas da tempestade, e espero... Estou só. E sinto-me insegura.
O seguro, depois de contactado, põe à minha disposição um quarto no "westin hotel" que fica mesmo ao fundo da minha rua. A Kelly que se introduziu na minha vida através do namorado que acontece ser o meu filho, tal bola de neve que rebola alegre numa colina branca, propõe suavemente e com um sorriso malicioso:
- Diana podes dormir no quarto do Kicas se quiseres...
- E tu no hotel, termino eu. Pequeno almoço no quarto, jantar no quarto, videos no quarto... No smoking room! Mas o seu sorriso de menina-mulher, convenceu-me.
- Deal feito, e ela toca a palma da sua mão contra a minha, em sinal de assinatura. Descemos a rua, de novo coberta de neve. Uma autêntica carta postal. Penso que devia tirar uma fotografia, mas como o vento chicoteia as nossas caras, servindo-se dos lindos flocos brancos, desisto. Amanhã. Penso. A rua fica numa colina, e brincamos a descê-la fingindo que temos skates. Chek-in feito, e vamos tomar um café no meu canto preferido do hotel. Como estamos escondidas atrás duma coluna, ninguém se ocupa de nós. A Kelly dirige-se ao balcão e vejo-a a gesticular, com um senhor. Quando volta muito vermelha, diz-me: - Pensei que fosse o empregado e perguntei-lhe se servia bebidas. Ele respondeu-me que não mas que tem passado a noite a recebê-las...
A Kelly, quando se decide a conversar, não pára. De computadores para belly dance, de rap para handel, de amigos para família de patrão para colegas de problemas para alegrias a Kelly confessa-se. Até me sinto um padre.
- "O meu pai telefonou do cruzeiro, imagina. Ainda não acabou com as férias e já está a falar nas próximas que vão ser em Cuba. Não gosto nada da ideia. Ouço dizer tantas coisas sobre Cuba...
- Comem meninos rio com prazer, quando vejo os olhos já grandes da Kelly tornarem-se enormes, indicando-me que não conhece o mito. Com remorsos sossego-a:
- Kelly, eles são simpáticos com os canadianos. Não te lembras que o Mr. Trudeau, fez zangar os americanos, por estabelecer amizade com o Fidel?
A Kelly que detesta jornais, e que possivelmente nem sabe quem é o primeiro ministro da Nova Scotia, olha-me mais descansada.
- Ah o meu pai. Adora-me mas ele nem imagina o medo que tenho dele. Mesmo agora com 22 anos. Quando eu tinha 18, eu e a minha melhor amiga resolvemos entrar na pílula. Porque era cool. Tenta desculpar-se. Resolvemos ter o acordo das nossas mães, utilisando a seguinte estratégica: A minha amiga diria à sua mãe, que eu já tinha começado o apeticível comprimido, e eu contaria a mesma história à minha. Claro que elas responderam exactamente da mesma maneira:
- Achas que tu também devias? O pior foi que o meu pai, e tu já sabes que ele sofre de "compulsive obssession" ou qualquer coisa assim, com as suas manias de limpezas, foi aspirar o meu quarto e viu-se com uma caixinha por entre os seus dedos. Quando telefonei da universidade, para lhe dar um beijinho, ele perguntou-me que queria saber sobre uns comprimidos. Só não deixei cair o telefone, porque fiquei tao rígida que parecia uma estátua...
- Deve haver um engano, respondo. Eu não ando a tomar nenhuns comprimidos.
Imaginando pelo que o pai dela estava a passar, pergunto...E?
- Como ele não se sente à vontade com este tipo de situações nunca mais se atreveu a tocar o assunto. É tão diferente com a minha mãe. Com ela posso falar sobre tudo. Olha o relógio e ups:
- We have to go pick up my bag...
- O teu make up, rio eu, que a gozo sempre que a vejo abrir a bolsinha com milhares de pózinhos e cremes para cobrir tudo o que seja pele.
Foi a Kelly entregar a factura e de novo a vejo a gesticular com o empregado, enquanto que um homem sentado no balcão, de olhos arregalados a olha. Volta de novo muito corada, com duas batatas fritas entre os dedos e segreda-me:
- Ai, nem sabes o que acaba de acontecer.
- Estava tão distraída à espera que nem reparei que me puz a comer as batatas do prato daquele senhor...
Não consegui reter uma gargalhada.
Ah Kelly, Kelly, que me faz pensar que a juventude é maravilhosa. Na sua alegria de viver, ainda pensa que me há-de pôr a fazer snow-board.
Diana de Moura - Halifax, Canadá
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