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Cristina

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...nasceu à luz da alegria e do amor, fruto de uma relação que bem cedo ficou marcada pela tragédia, a perda do pai devido a um brutal acidente, daqueles que todos os dias acontecem pelas estradas fora deste mundo.
Foram duros os primeiros tempos depois da desgraça para a jovem mãe da Cristina com os seus sonhos e ambições destroçados, com o coração manchado pela dor, teve que lutar contra tudo e todos, mas via-se sozinha, e com o desejo de voltar a ser mulher para formar de novo família, para poder dar uma tranquilidade emocional a ela mesma como à própria filha.
Quis o destino que a mãe casasse de novo com um indivíduo mais velho uns bons anos. Nos primeiros precoces anos de Cristina via no padrasto o seu próprio pai, até que este, a começou acariciar de um modo estranho e intencional, a natural inocência desta pouco se apercebia até que se chegou a vias de facto, foram anos de constrangimento de horror no desenvolvimento físico e psíquico da Cristina, com o medo de ser descoberta da vergonha que não era a sua. Tez formosa com pele de veludo com olhos de um verde pálido, cabelos pretos, sempre soltos ao vento, um corpo de menina pura, mas com chagas de amargura, rostos de maça cheios de um sorriso que nunca se fazia conhecer, o terror de dizer não, bem cedo perdeu respeito pelo o seu próprio corpo, que era um instrumento de prazer pérfido nas mãos violentas e usurpadoras do padrasto, para um mundo de sonhos de cor da vida que nunca chegou a ter.
Tinha doze anos, quando sua mãe faleceu de desgosto daquilo que descobriu e não queria acreditar, da bebida que bebia sem regra e sem fronteiras, dos maus tratos que em troca ainda recebia, um choque tremendo que fez tremer ainda mais a pobre Cristina. Na escola fizeram com que ela experimentasse as suas primeiras drogas ligeiras, teve uma sensação de liberdade que não entendia, nem queria, sentiu-se num mundo que girava ao seu redor, e ela a protagonista. Era a primeira vez que isso acontecia, como a sua mente se libertou no pensamento do infinito onde via luzes aconchegantes e brilhantes de muitas cores, era a mente de Cristina que voava para o precipício.
Cristina fugiu de casa do padrasto e começou a vender o seu corpo que já não era seu, pois deixou de o sentir como tal, a necessidade de se libertar com a droga a isso a obrigava, mas para que interessava, era mais um que a possuía, este corpo tão atraente, de onde desbotavam seios fiéis e duros de uma adolescente, pernas bem feitas com o píncaro da perfeição, que enchia todos de uma emoção e atracção carnal animal a troco de dinheiro fácil, que para Cristina era a fuga para o irreal que lhe era o mais real. Começou Cristina a alternar em bares do mundo, dos que vivem a noite até à exaustão, em que a hipocrisia do negócio fácil do sistema puseram uns anos mais no bilhete de identidade de quem era ainda menina, começou Cristina a vender corpo e champanhe, pois o tipo de drogas tinham também mudado, para mais fortes e com viagens à alucinação. Ainda criança, mas com corpo e vida de mulher, que se entregava com desdém a quem nele se desbravava, com olhar fixo no nada pois nada a emocionava, homens barrigudos, lambezudos, magros, que grunhiam enquanto nela entranhavam com suores ufanos, e sempre a mesma postura de quem esperava o momento de fazer a sua própria viagem.

A Primavera tinha chegado, as flores começavam a desbotar nos jardins da cidade, onde arranha céus se mantinham impávidos ao ruído do vento que corria pela madrugada fora, Cristina tinha apenas concluídos dezoito anos quando fez a sua última viagem.
Cristina foi encontrada com os olhos virados para o céu, com um olhar doce, tímido e frio, tinha um sorriso nos lábios gelados ao vento e as mãos agarradas a uma seringa. Nunca soube brincar com a meninice dos sonhos de quem é criança, Cristina pertenceu e pertence a um mundo que é também nosso e dos nossos, sociedade amável do interesse material de onde se perdeu o respeito pelo valor moral.
Cristina do mundo e da sociedade moderna que censura e desmente e que nunca ...consente.

Adelino Sá - Lucern, Suiça
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