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“Com 16 anos ele já era um jogador filha da puta...” Carlos Alberto, lateral-direito do Carioca, aquele a quem chamaram “Mini” por defeito de carinho, di-lo assim porque é assim que deve dizê-lo.

 

No fundo, sabe o que eu estou a fazer com ele. Não sabe se escrevo, se sou jornalista ou autor de roteiros turísticos, mas sabe que vivo em Lisboa e que há muito não lhe falava – e sabe sobretudo que, quando os tipos de Lisboa se põem a observar os pobres com quem há muito não falam, alguma coisa lhes pende do bico. Por isso pede frango frito com arroz de tomate, e quando a Elisabete lhe põe o prato à frente, vertendo óleo e fumos diversos, ele mergulha fundo sobre o tampo de fórmica e cerra os ombros à sua volta, como se assim pudesse negar a minha presença.

Eu estou na venda do Francisco porque sei que o Mini almoça na venda do Francisco, e, se escolho um ajudante de pedreiro de calças rotas como colega de tasca para ver o Portugal-Coreia, é porque vou à procura da velha história da encruzilhada, da história do sucesso e do insucesso vistos por quem se postou diante deles, a ruminar, e depois tomou o caminho do Inferno. Mini e Pauleta foram adversários, amigos, colegas, inimigos – no Santa Clara e nas selecções de ilha, nos campos pelados dos Açores e nos balneários de cal virgem do arquipélago –, e depois dos três golos de Pauleta à Polónia, depois de um açor ter aberto os braços e esvoaçado três vezes pelos céus de Jeonju, no olhar de Mini haveria de esconder-se toda a expectativa e toda a angústia do Mundo, todo o desespero e todo o ressentimento e toda a dor de quem percebera tarde de mais que os braços também podem voar.

Na verdade, eu levava o texto escrito. Tenho dois temores na vida: que me chamem corno e que me chamem chato, e a Mini bastava-lhe representar o papel de talento por descobrir para ver-me dar meia volta, com o caderninho preto em riste e o sorriso triunfante de quem encontrara a notícia. Bastavam-lhe mesmo duas palavras: “sorte” e “padrinhos” – a falta de ambos, isto é –, e então eu acabaria a Super Bock, acenaria em volta a cumprimentar e despedir-me-ia até ao Verão seguinte, sorrindo da pedra de dominó que se estatelava na mesa ao fundo. São esses os papéis que Hollywood premeia, as caricaturas, e também no jornalismo, como nos filmes, são os pobres quem mostra aos ricos as rotas do espírito e os ricos quem deixa aos pobres o manual de instruções para viajar. Um dia, quando me lesse, Mini saberia o que havia sentido naquele dia de desespero – na verdade, cada homem já experimentou todos os sentimentos do Mundo, e cabe-nos a nós, os ricos e os escritores, explicar-lhos um a um por palavras.

Mas eu sempre fui mais ambicioso do que a dimensão da minha inteligência aconselharia, e quando Mini olha pela segunda vez para o televisor nenhum despeito brota do seu olhar – nenhum ressentimento e nenhum triunfo brotam do seu olhar quando Pauleta perde o segundo golo em poucos minutos e Oliveira manda erguer a placa para entrar o Jorge Andrade. Mesmo quando Portugal perde por causa dos falhanços de Pauleta – nenhum triunfo escapa do olhar de Mini e nenhuma palavra brota da sua boca quando um coreano faz o 1-0 e Portugal é, enfim, afastado da Copa. Então, ele cruza o talher sobre os restos do frango, ergue o braço a chamar Elisabete e finaliza com uma sopa de couve.

 

Joel Neto 

 
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