Todos os países da lusofonia

Galeria Lusófona

Arte Lusófona
Literatura Lusófona
Sabores Lusófonos
Advertisement

Blogs Recomendados

Alto Hama
Pululu
Malambas

Legado Português

Portugal no Mundo
Brasil 500 anos

Empresas Destaque

Horas Lusófonas

Carta a Diego Maradona

PDF Imprimir e-mail

As idades literárias têm uma vantagem sobre as idades futebolísticas: em nenhum momento nos aparece um adutor emboscado, pronto a acabar com tudo. Para mais, a nós não nos despistam as drogas

 

Reli hoje algumas páginas de um diário antigo. Tu nunca tiveste um diário – a tua vida foi sempre tão profícua, as tuas memórias tão frescas e sucessivas, que tiveste o bom senso de não as fixar em papel cedo de mais, de as deixar viver enquanto cada ciclo conservasse uma ponta solta por onde desenhar a manta ou para sempre desfazer o nó. Eu tive um diário – mesmo que quisesse (e às vezes quero) não conseguiria encontrar as pontas soltas aos ciclos da minha vida. Gosto de acreditar que é um diário antigo. Não o é tanto como isso. Chamo-lhe “escrito da juventude” como o faço com todos os textos de que me envergonho. As idades literárias têm uma vantagem sobre as idades futebolísticas: podem ser reordenadas, viradas do avesso e de pernas para o ar, contadas de baixo para cima e da direita para a esquerda, que em nenhum momento nos aparece um adutor emboscado, pronto a acabar com tudo. Para mais, a nós não nos despistam as drogas.

No meu diário da juventude, os homens têm nomes de homens e as máquinas nomes de máquinas, e à gravilha que se abandona à curva da estrada tento não chamar pedrinhas da calçada. Tive os meus devaneios: sonhei ser um sniper e um corredor dos cem metros, quis ser um pária como Jack London e um escritor como o Graham Greene, tive o nome no Passeio da Fama e fui um pobre adolescente deambulando entre a ilha ausente e a Lisboa distante. A 3 de Março de 1994, no entanto, limitei-me a pegar num volume de Vergílio e a sublinhar o que ele escrevera vinte anos antes – precisamente vinte anos antes, no dia em que eu nascera do ventre de minha mãe, como se diz nuns poemas que agora não vêm ao caso. Fi-lo com a sagacidade do atirador furtivo e a acutilância do velocista – e, se outra prova não houvesse, tanto bastava como aquele gesto para que eu continuasse a ser um pobre adolescente deambulando entre a ilha ausente e a Lisboa distante.

“Gostaria de falar no caos por que passamos”, escreve Vergílio. “Anteontem, um amigo meu dizia-me que a mulher lhe deu uma ‘facada’ matrimonial por desforço. Ele achou justo. Tentação de um camarada para ‘bacanais’ em grupo. Não quis. Ainda? Uma jovem: ‘Estudo, vou para a cama com uns amigos, vou muito bem.’ Uma antiga aluna minha: ‘Não casei, foi bom, vou para a cama com quem me apetece.’ Na-tu-ral-men-te. Livros de Bréchon com cartas dele para a mulher e vice-versa, contando as suas aventuras extramatromoniais. Como se dissessem: ‘Está chuva, está calor’. O que está em causa não é tanto um acerto ‘racional’ mas ‘emotivo’. É esse o problema de quem se escolheu emocionado de outra maneira.”

Hoje sei o que valho: já quis ser um pária como London e um escritor como o Greene, quis ter o nome no Passeio da Fama e correr os cem metros ao lado do Carl Lewis – agora basta-me uma página em branco e um nome que me emocione a quem dedicar a mentira. Escolhi o teu – escolhi esta carta. Mas nunca deixaram de me preocupar a mesquinhez e a pobreza e a cobardia, e houve um dia em que precisei de acreditar que as palavras de Vergílio, escritas a 3 de Março de 1974, tinham um significado. Como se a Revolução tivesse começado naquele mesmo dia, a mês e meio do golpe do Carmo – e tivesse começado com inteligência, com coragem, com aquele rompimento de pactos entre o diarista da Nação e a hipocrisia.

Não sei se sabes o que Borges escreveu no dia em que nasceste. Provavelmente nunca tiveste necessidade de sabê-lo. Mas tu, que foste quase tudo, nunca quiseste ser apenas um pobre adolescente deambulando entre a ilha ausente e a Lisboa distante? Até onde quiseste tu ser eu, quando eu quis tanto estar na tua pele?

 

Joel Neto

www.joelneto.com

 

 

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
Advertisement

Investir em Portugal Investimentos em Portugal
Aconselhamento e apoio ao investimento estrangeiro em Portugal



Advertisement

Comunicados

António Marinho e Pinto - Mudar Portugal

Ler mais...

Broa de Avintes - não tem asas nem sabe voar

Ler mais...
Please login to Automatic Backlinks and activate this site.
 
| cheap car hire