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Tribunais do ridículo

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No futebol, os advogados não insistem, os juízes já acabaram as carreiras, a segunda instância protege a primeira, a última protege as outras todas

 

A mais relevante frase sobre futebol dos últimos tempos disse-a um piloto de automóveis, Giancarlo Fisichella: “Ainda bem que isto não é futebol.” Com “isto” referia-se Giancarlo à fórmula 1. Com “futebol” aos mais vaidosos e inflexíveis sistemas de arbitragem e de julgamento de todos os desportos que, naquela altura, lhe ocorriam.

Sintetizando: após um Grande Prémio do Brasil cheio de peripécias, repleto de chuva, acidentes e debates legais, o italiano viu-se desapossado e depois reapossado da primeira vitória da sua carreira. Quatro dias depois da corrida, quando os juízes finalmente lhe atribuíram o triunfo, ficou contente por ser piloto, não futebolista. No futebol, explicou, os ditos juízes jamais voltariam atrás na sua primeira decisão.

Na verdade, Fisichella tem razão. O “mundo do futebol”, infelizmente para quem gosta de futebol embora detestando esse mundo, tem os piores tribunais do Planeta: os árbitros temem pelo futuro, os observadores protegem a sua própria sobrevivência, os advogados não insistem, os juízes já acabaram as carreiras, a segunda instância protege a primeira, a última protege as outras todas – e, no final, custa-nos mesmo evitar a conclusão de que as próprias partes em conflito estão, de alguma forma, conluiadas.

Um árbitro que algum dia tenha voltado com uma decisão atrás depois de consultar o fiscal-de-linha, por exemplo, sabe muito bem do que falo: foi primeiro abalroado pelos jogadores de uma equipa e depois pelos da outra, foi vaiado pela claque de uma equipa e depois pela da outra, ameaçado pelos dirigentes de uma equipa e depois pelos da outra – ninguém aceita uma reconsideração com a dignidade e o sentido de justiça com que Kimi Raikkonen, o piloto finlandês que perdeu o triunfo no Brasil para Giancarlo Fisichella, recebeu a segunda decisão dos juízes da fórmula 1. Mas o problema não está tanto nessa inflexibilidade da arbitragem futebolística quanto no orgulho e na vaidade que esta exibe: simplesmente é proibido voltar atrás – só os fracos voltam atrás.

E eu, que gosto de futebol e detesto o seu mundo, fico a pensar nas muitas outras coisas desta vida que se teriam perdido se, a certa altura, não tivesse havido alguém capaz de para voltar atrás (como o armamento da Coreia do Norte, as guerras coloniais africanas ou a inveja de Antonio Salieri) e depois nas outras que se perderam porque em nenhum momento houve alguém com coragem para voltar atrás (como o reinado de D. Sebastião, o vaivém Columbia ou a participação da Flora na Operação Triunfo). E dói-me por dentro a certeza de que, se não se perder no nevoeiro ou não explodir no espaço, o futebol acabará por fazer de si próprio um hino ao ridículo.

 

Joel Neto
www.joelneto.com

 

 

 
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