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Júlio

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Ao princípio o olhar dele não era o olhar do Júlio – era o olhar de outro homem, de homem nenhum, um rosto tipo-passe que vinha do fundo da cela,

 

posava para a fotografia e voltava a sentar-se a um canto, sublinhando com frenesi o jornal de economia, enquanto murmurava, indignado: “Não há notícias para animar o mercado! Não há notícias para animar o mercado!” Visitei-o pela primeira vez no sábado a seguir a sair de casa, logo a seguir a perder a Isabel para sempre, e no meu gesto não havia solidariedade nem rancor nem sequer solidão – era o meu cunhado que estava preso, e de repente uma tarde de sábado deixara de fazer sentido sem ir à prisão ver o meu cunhado que se encontrava preso, fosse qual fosse o seu crime. Ele pousou o jornal sobre o beliche, olhou-me com os olhos semicerrados, perscrutou-me de cima a baixo e perguntou: “Sabes há quanto tempo eu estou aqui, Ramos?”, e eu fiquei sem saber muito bem se o que pretendia era censurar-me por ter esperado mais de um ano para ir visitá-lo ou se não sabia de facto há quantos meses estava fechado naquele cubículo e, de súbito,  reencontrar-me se tivesse tornado a sua última oportunidade para reacertar o passo com o tempo. Depois, no entanto, nem esperou a minha resposta: regressou ao banquinho de sapateiro, voltou a desdobrar o jornal sobre a mesa de fórmica e insistiu: “Não há notícias para animar o mercado, caramba! Onde é que isto vai parar?”, e então eu vi-me de repente a responder-lhe: “Enquanto o petróleo não baixar, não há nada a fazer”, e depois a falar-lhe no downsizing da minha empresa e nos trinta e seis despedimentos que eu estava encarregue de processar na Reserva Federal Americana e novamente no barril de petróleo e outra vez na Reserva Federal, essa entidade já tão abstracta e à qual, todavia, pareciam ir desaguar todos os nossos problemas.

Quando voltei no sábado seguinte já me tinha deitado com a mulher dele, com a irmã da minha mulher, com a minha cunhada – mas apesar disso, apesar de então a minha mulher estar a viver com um tipo que se fingira meu amigo, apesar de eu e o meu cunhado passarmos as tardes de sábado juntos numa prisão e de a mulher dele andar secretamente a dormir comigo durante quase toda a semana, os nossos reencontros semanais na prisão pareciam ainda trazer os papéis habituais, os papéis de sempre, os mesmos papéis de quando celebrávamos em família os aniversários das crianças ou de quando passávamos férias os quatro juntos, deixando os miúdos na colónia de férias da empresa. Na verdade eu sempre achei que dois casais juntos em férias era levar a natureza humana ao seu limite, pô-la a olhar o seu próprio abismo, e nenhum de nós devia surpreender-se agora por, a determinada altura da vida, a coisas resultarem no que resultaram. Para mim, o mais fascinante era a forma como todos nós tínhamos de repente abraçado uma nova rotina, de certa forma contentes com ela: a Isabel feliz com o novo amante apesar da sua culpa, a Cândida chorando a filha apesar da raiva de ambas, eu a mudar o nó à gravata todos os sábados apesar de saber que recomeçar do início era impossível – e depois eu a telefonar à Isabel para lembrá-la: “Amanhã vou ver os miúdos à Costa” e a estacionar no parque da prisão e a sentar-me durante horas naquela cadeira de pau, enquanto o meu cunhado riscava o jornal de economia e protestava pelo desmazelo dos repórteres que não encontravam notícias que fizessem avançar o mundo – e novamente eu aproveitando o seu grito para gritar com ele, ambos gritando impropérios a uma só voz, ele gritando contra os jornais e a maldita Reserva Federal Americana, eu gritando contra uma mulher que me traíra e um homem que me roubara, o homem e a mulher acenando-me de uma varanda da Costa da Caparica e eu gritando impropérios na direcção deles, enquanto empurrava os baloiços às crianças e via esgotar-se o meu tempo semanal de custódia partilhada.

Só uma vez falámos no crime dele. Ele disse: “Tive sorte em ficar com esta cela só para mim”, e eu respondi: “Apesar de tudo não estás mal, Júlio.” Foi como destapar a caixa de Pandora, aquele “apesar de tudo” – e então, ao fim de três meses, ao fim de doze sábados de visitas à prisão, ao fim de ter-me deitado com a sua mulher mais de quarenta vezes na cama dos dois, eu e o meu cunhado tivemos finalmente de falar no crime dele. Ele perguntou: “O que é que queres dizer com esse ‘apesar de tudo’?”, e então ambos soubemos que era chegada a hora de conversar – que era chegada a hora, mesmo que aquilo tudo me interessasse muito pouco, mesmo para ele tudo fosse demasiado importante para se discutir assim, sentados em bancos de madeira, separados por grades, com uma carcereira de dentes negros policiando ao fundo cada um dos nossos movimentos. Eu disse: “Conta-me da Sónia”, e ele ainda desconversou: “Mas quem é esse tal de Nuno, que te levou a Isabel? O gajo do Audi preto, o consultor-maravilha?” Eu insisti: “Conta-me da Sónia, Júlio”, e ele evadiu-se mais uma vez, em desespero: “Hoje não trazes gravata porquê? Não penses que, por estar aqui dentro, não posso fazer-te mal...” Eu ataquei uma última vez: “Júlio, conta-me o que é que viste de sensual na tua filha. Conta-me porque a atacaste!”, e então ele chegou-se mais para o pé de mim, junto às barras de ferro, semicerrou os olhos e desferiu: “Se vieste aqui à procura de perdão por andares a dormir com minha mulher, não precisas. Tens a minha bênção!” Depois riu-se. “Deve ter sido um alívio para ti ver-me aqui preso”, insistiu, e enquanto se ria os seus olhos voltavam a não ser os olhos dele, eram os olhos de outro homem, de homem nenhum, um rosto tipo-passe que vinha e voltava do fundo da cela, que dobrava e desdobrava o jornal de economia sobre o tampo de fórmica, que se confrontava com o seu próprio declínio e, num último esforço, resistia a mergulhar de vez nele. “Enfim, uma notícia para animar o mercado, senhor doutor!”, ria. “Director de recursos humanos de multinacional de consultoria do ramo meteorológico tem um caso com a cunhada, cujo marido se encontra na prisão. O affaire fez o barril de petróleo descer aos vinte e oito dólares e os índices bolsistas recuperaram ligeiramente”, declamava, em tom de telejornal.

Era a única maneira que ele tinha de falar sobre o seu crime, a única forma de resistir a uma filha que o odiava e a uma mulher que o traía e a um cunhado que o esmagava e a tudo o mais que o vinha destruindo sem pausas nem contemplações desde há quase um ano e meio. Isso tínhamo-lo em comum: nenhum de nós sabia dominar um ambiente, nenhum de nós sabia gerir as emoções dos outros, ambos nos deixávamos esmagar, e todos os jogos de palavras e de olhares em que se haviam baseado aqueles três meses de visitas semanais à prisão, todos aqueles momentos em que um tinha tentado sobrepor-se ao outro e o outro se rira da pobreza do jogo como quem volta a alinhar as pedras no tabuleiro, como quem não se contenta com o empate, mais não significavam do que actos desesperados de dois homens que não eram o que queriam ser, dois homens brincando ao poder e à inveja, brincando com palavras, brincando com gritos, brincando com gritos e cambalhotas e incapazes de segurar firmes os olhos no ar, incapazes de fechar a boca e com esse silêncio rasgar por dentro o adversário. “Tu sempre te estiveste nas tintas para a Cândida”, disse-lhe eu, e ele respondeu: “Se eu quisesse também teria dormido com a Isabel. Lembras-te daquelas férias em Tenerife, quando tu e a Cândida iam juntos ao supermercado?...” Eu voltei: “Se não dormiste é porque foste parvo. Ou porque nunca deste às mulheres da tua vida o valor que elas realmente mereciam”, e ele insistiu: “Como tu. E olha que a Isabel merecia, uma mulher tão suave, tão dócil...” E assim continuámos durante toda a tarde, ele acusando-me de tudo, eu acusando-o de nada, ambos sabendo que nem a negligência dele nem o meu excesso de zelo podiam alguma vez ter feito o que quer que fosse para contrariar a marcha inexorável do desejo das nossas mulheres, ambos conscientes de que, fizéssemos o que fizéssemos, lutássemos o que lutássemos, amássemos como amássemos, vivêssemos ou não uma vida inteira ao lado da mulher amávamos, dedicando-nos a ela por completo ou apenas controlando os seus movimentos à distância, dando-lhe a liberdade que ela pedia ou restringindo-lhes os movimentos – sim, fizéssemos o que fizéssemos, um dia chegaria um burlão qualquer à nossa vida, um ser abjecto qualquer, um burgesso qualquer sem nenhum talento, sem nenhuma beleza, sem nada, e levaria a nossa mulher para sempre. Há quem lhe chame “química”, “faísca”, até “click”, e outros dão-lhe nomes como “cara-metade”, “o homem da nossa vida”, mesmo “signos compatíveis” – chamam-lhe tudo e alguma coisa,  a essa coisa e à sua ausência, e no fundo apenas nos querem dizer que todos os dias as perdemos um pouco, que o nosso amor não é outra coisa senão medo, medo de que elas partam, medo de que elas se matem, medo de viver com a memória de uma mulher que partiu ou se matou.

Então eu levantei-me, agarrei por um segundo as grades da cela e senti pela primeira vez pena do meu cunhado. Ele baixou os olhos ao chão, fechou-os durante um momento e disse: “Sabes que eu sou culpado, não sabes?”, e enquanto eu virava costas e voltava a olhar aquela guarda magra de dentes negros, aquela sombra alta e magra e assustadora que tinham atribuído às celas dos violadores de crianças, Júlio gritava lá de trás, nas minhas costas: “Ela tem saudades tuas, sabias? A Isabel tem saudades tuas. Estás a ouvir? Ainda não a perdeste de vez, Ramos. Estás a ouvir, Manuel? Ainda não a perdeste de vez!”

E essa foi a última vez que o visitei.

 

Joel Neto 
www.joelneto.com

 

 

 
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