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Daisy

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“Sim, o que me fascinou em Daisy foi o seu rosto de mulher normal, de mulher igual à minha, igual a Luísa, igual à minha mulher que me esperava em casa e que me dera um beijo nessa manhã e que me dissera ter saudades minhas com a doçura de quem sabe quanto valem as saudades"

 

Eu sei qual foi a noite – sei o mês e o dia e a hora em que abri a jaula à minha própria podridão e a soltei no interior da nossa casa, sorrateira, louca pelo sangue doce de uma mulher inocente, louca pelo fruto imaculado do seu ventre em flor. Quando hoje o recordo, sozinho sobre o sofá desta sala vazia, quase consigo reduzir aquele momento a nada, quase consigo conter o movimento das ancas e recuar sobre mim próprio e sentar-me na borda da cama um segundo antes daquela explosão do plástico e daquele esgar de terror: “Se rompió!” Sim, um segundo, não uma noite inteira – apenas um segundo. Disso tenho a certeza: tudo não passou de um segundo – um segundo só entre o grito daquela mulher assustada e o meu próprio susto, um segundo para uma última investida do cóccix, um segundo para um derradeiro momento de delírio após aquele queixume que ainda ecoava pelo quarto, morrendo: “Se rompió!” Mas quando ela se sentou desamparada sobre a borda da cama, quando um súbito pudor a fez cobrir os seios e um pânico repentino lhe levou as mãos ao rosto, não fui capaz de odiá-la: foi apenas como se a partir daquele momento alguma coisa nos unisse para sempre, eu a presa e ela o algoz, talvez ao contrário, talvez até nenhum dos dois, nós os dois vítimas de um mesmo carrasco, de um mesmo demónio, de um mesmo destino – e a partir daí só queria ver-me livre dela depressa.

Dei-lhe vinte mil pesetas, duas notas de dez desenroladas em sufoco e atiradas sobre o seu corpo de súbito inerte – e quando as atirei sobre ela, quando desenrolei e atirei sobre ela aquelas duas notas azuis com o retrato do rei e as suas três flores de lis era como se soltasse a mão de um ferro em brasa, como se me houvesse postado à borda de uma ravina e tivesse contemplado a minha própria morte e agora me chegasse repentinamente para trás, escolhendo a vida, escolhendo nunca ter conhecido aquela mulher, escolhendo a solidão de uma noite em Madrid e a certeza absoluta de que tudo passaria depressa e em poucas horas estaria de volta a casa. Se não lhe dei mais dinheiro foi porque não o tinha – dei-lhe vinte mil pesetas e depois corri: corri para longe dela, corri pelo quarto como um cão atropelado, corri entre as camas e as mesas-de-cabeceira e as roupas espalhadas pelo chão, e enquanto tentava lavar a púbis ao sabonete pequenino, e enquanto apertava as frontes uma contra a outra, e enquanto vagueava pelo quarto à procura de tinturas, de álcool etílico, de um desinfectante qualquer para a minha própria podridão, aquela mulher continuava sentada sobre a cama, inerte, o peito de súbito coberto, as mãos cerradas ao rosto e o seu grito morrendo ainda nos quatro cantos do quarto: “Se rompió!”

Toda a culpa, não há outra forma de dizê-lo, foi minha – foi minha. Fui eu quem a quis e fui eu quem se deitou com ela, arrastando-a daquela sala barulhenta como um tigre arrasta a sua presa exangue. Se eu pudesse dizia o contrário, dizia que fora ela quem me tentara, que fora ela quem fizera jorrar sobre mim o perfume doce da sua imundície e me apanhara desprevenido na minha solidão de viajante em negócios – mas a verdade é que fui eu que a quis e fui eu que a chamei lá do fundo e fui eu que lhe dei a mão para que me conduzisse ao quarto e ergui os braços enquanto ela me despia e fechei os olhos quando as suas mãos me percorreram o corpo e o seu rosto desabou sobre o meu ventre. Sim, fui eu que a vi naquele canto do balcão, comendo amendoins, oferecendo amendoins ao porteiro, trocando com um porteiro um sorriso de mulher normal que sorri para um homem normal – e depois fui eu que imaginei o seu rosto de mulher normal desfazendo-se em rosto de puta, o seu corpo exangue preso aos meus dentes, os meus dentes arrastando-a daquela sala para fora e mordendo-lhe as coxas morenas e devorando-lhe as entranhas como um tigre devora a sua presa longe do olhar dos outros predadores.

Então, quando o plástico explodiu, ela olhou-me condoída, olhou-me de baixo para cima enquanto eu corria pelo quarto e escondia os olhos dos seus seios cobertos e disse-me: “Yo tambien tengo miedo, Pedro” – e quando ela mo disse foi ainda pior, foi como se tudo de repente se tivesse tornado verdade, como se o pecado e o vício e o vírus não fossem já apenas uma frase batida das campanhas publicitárias e se metamorfoseassem de repente numa coisa palpável, numa coisa de todos os dias, numa coisa que me acompanhara desde o início e apenas esperara sorrateira o momento de atacar. Perguntei-lhe: “Já conheceste alguém que morresse com a doença?” e ela disse apenas: “Si.” Nessa altura lembrei-me de Deus – lembrei-me de Deus ao fim de muitos anos –, e na minha prece silenciosa não havia um pedido de perdão, não havia medo nem havia arrependimento nem sequer havia solidão: havia apenas culpa, muita culpa, a culpa toda do mundo concentrada numa só pessoa que chamara às próprias mãos e retorcera com os próprios dedos o último destino da vida. Sim, lembrei-me de Deus ao fim de muitos anos e jurei não voltar a lembrar-me dele durante outros tantos, porque agora também Deus não era só uma ideia, também Deus existia e era palpável e era uma coisa de todos os dias, no seu carácter moralista e castigador, no seu carácter diluviano, no seu carácter ressentido e vingativo que era o único através do qual poderia, um dia, deixar de ser apenas uma ideia.

Julgo que não foi a paixão que me matou. Não foi a paixão que me levou a perguntar o preço daquela mulher, não era paixão que eu tinha nos olhos quando lhe perguntei: “Quanto vale?”, nem foi com paixão que ouvi a sua resposta maliciosa: “Para ti, quinze mil...” – nem sequer era ainda paixão que me inundava o peito quando o Ramos e o Vieira bateram com a caneca na mesa gritando “Diez!”, rindo muito, e eu já a prendia pelos dentes e a arrastava para fora da sala como o tigre que caça sozinho e esconde a sua presa do olhar dos outros predadores. Julgo que foram os amendoins – julgo que foram os amendoins de uma mulher normal que come amendoins e se esforça por acreditar que o sorriso do porteiro é apenas o sorriso de um homem normal para uma mulher normal que lhe oferece amendoins. Sim, também disso tenho a certeza: o que me fascinou em Daisy não foram as suas coxas morenas, não foi o seu olhar desafiador, não foi sequer o seu sotaque andaluz ou o lento bamboleio com que me encaminhou ao quarto ou a destreza com que me mordeu o peito – foi aquele seu olhar penetrante de mulher maior, foi o seu ar de menina perdida transformada de noite em mulher maior com o desejo oculto de partilhar os amendoins com um porteiro sorridente e desaparecer depressa dali para fora, de volta ao conforto do lar. Foi isso, não a animalidade: nem eu era um tigre nem ela uma presa, nem ela um algoz nem eu um cão atropelado – o que me fascinou em Daisy foi o seu rosto de mulher normal, de mulher igual à minha, igual a Luísa, igual à minha mulher que me esperava em casa e que me dera um beijo nessa manhã e que me dissera ter saudades minhas com a doçura de quem sabe que as saudades nascem, vivem e morrem durante o mesmo tempo que dura uma vida inteira, um projecto no estrangeiro ou apenas uma viagem a Madrid, mas apesar de tudo sente saudades.

Quando pela segunda vez ergui o látex podre diante dos olhos, quando o estiquei entre os meus dedos nojentos e fechei por um segundo os olhos na esperança de enfim acordar de um sonho mau, já não havia em mim esperança nenhuma. Havia culpa, muita culpa, toda a culpa do mundo, mas se eu pudera atirar para cima de Daisy duas notas de dez com o retrato do rei e as suas três flores de lis, se eu pudera dar-lhe tudo quanto tinha e correr com ela do quarto e jurar a mim próprio que nunca mais veria aquela mulher na vida apesar do que a partir dali nos ligaria para sempre, não podia nunca evitar que o buraco continuasse ali, enorme, o mesmo buraco que me expusera a glande à sua imundície, o mesmo buraco que abrira a jaula à minha própria podridão e a soltara no interior da nossa casa, sorrateira, louca pelo sangue doce de uma mulher inocente, louca pelo fruto imaculado do seu ventre em flor.

Sim, foi nessa noite que eu matei Luísa.

 

Joel Neto

 

 
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