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DE QUEM É A CULPA?

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Tanto a lógica binária – “1” ou “0” – quanto a lógica disjuntiva – isto “ou” aquilo – determinaram a atual forma de pensar e de agir das pessoas, provocando estereótipos e preconceitos, além de proporcionar um novo tipo de maniqueísmo nas relações humanas: se há um culpado, este não sou eu. Esta atitude perniciosa e imoral estende-se para todas as relações sociais. Vejamos, por exemplo, dois casos ilustrativos.

Na concepção governamental – não importa a esfera de poder -, deficiência de aprendizagem, evasão escolar, indisciplina, delinqüência escolar intramuro, só tem um culpado: o professor. Julgado como incapaz de motivar o estudante e de fazê-lo cidadão letrado, consciente de seus direitos e obrigações, apaixonado pelo universo da pesquisa e do saber e respeitador da alteridade, o docente é massacrado pela opinião pública como causa dos contínuos insucessos estudantis. Ora se critica a sua enfadonha didática, ora a ausência de profissionalismo e de compromisso ético são exasperadas, ora a contumaz arrogância catedrática é denunciada como elemento que distancia  o professor de seus pupilos, ora ele é censurado por priorizar mais o próprio salário e as condições dignas de trabalho do que a insubstituível e indelével “vocação” de transformar “indivíduos” em “pessoas de bem”. E assim por diante...

O segundo exemplo é tão fatídico quanto o primeiro: a responsabilidade dos pais no processo de formação humana e moral dos filhos.

A procriação, desde antanho, é revestida de uma aura divina. O princípio “crescei-vos e multiplicai-vos” soa como uma sentença, a qual todos os casais, sobretudo os religiosamente constituídos, devem obedecer. Todavia, nem sempre as proles provem deste nobre imperativo religioso, como atestam as campanhas publicitárias contrárias às doenças sexualmente transmitidas, entre outras ocasionalmente propagadas, acerca da necessidade do uso de preservativos, sem citar as comedidas intervenções governamentais em prol do planejamento familiar disponível nas unidades básicas de saúde (UBS). Em suma, estes indicadores explicitam que as razões do crescimento populacional nem sempre advêm das famílias maritalmente constituídas. Aí entra o papel do Estado, da Escola, da Família, da Religião, dos meios de comunicação...

Tendo em vista que os filhos derivam de relações sexuais, independentes dos parceiros constituírem “famílias”, daí decorre um segundo problema: o processo biológico de fecundação nem sempre requer que os seres diretamente responsáveis pelo coito arquem com o processo de maturação psicológica, moral e social do recém-nascido. Tal responsabilidade, todavia, deriva mais de motivações sociais, históricas, culturais e, atualmente, jurídicas, a outras razões de natureza biológico-fisiológica, embora, digamos de passagem, os mamíferos sejam mais afeitos a sua prole dos que os répteis...

Não obstante, segundo a Antropologia, a convivência pacífica entre os primitivos grupos humanos permitiu que a espécie humana não extinguisse; cremos, assim, na mesma medida, que os pais, livres e conscientes dos efeitos de uma cópula, assumam seus descendentes e responsabilizem-se por eles, a fim de garantir a continuidade da vida, e pelos bons exemplos advindos da formação doméstica, a manutenção da sociabilidade entre os seres humanos. Entretanto, acusar a família de negligência ou de irresponsabilidade na formação dos filhos é creditar apenas uma parcela de culpa e eximir toda a sociedade de outra, porquanto os filhos vivem em micro-células sociais, tanto nas creches, escolas, Igrejas, quanto nos campos de futebol, parques de diversão, ruas, shoppings; enfim, o “treinamento” familiar tem sempre como palco o mundo real, com suas potencialidades e vicissitudes, nem sempre previsíveis; apenas saberemos que a educação dada em casa será funcional, somente quando seus descendentes, em face da experiência com o outro, forem capazes de se manterem íntegros, com os bons princípios oriundos do lar e/ou quando forem disseminadores desta requintada “educação primeira” junto aos colegas que os rodeiam, nem sempre com a mesma índole ou formação familiar.

            Por conseguinte, muitos já tinham ciência de que o ser humano não é uma ilha nem vive plenamente isolado; mas a afirmação proferida pelo pensador italiano Umberto Eco, na obra “O nome da rosa”, de que todas as instituições humanas são “speculum mundi”, ou seja, espelhos do mundo, amplia o leque de nossa singela reflexão: somos historicamente produtos e, simultaneamente, produtores de comportamentos, atitudes e valores na sociedade.

Com efeito, culpar a outrem e abster-se da mesma culpa é compactuar-se com a reinante “ética da indiferença”, como se os acontecimentos históricos fossem alheios às intervenções humanas e a liberdade apenas um conceito filosófico estampado em compêndios empoeirados. Sendo assim, os insucessos da Escola e da Família são responsabilidades de todos: é culpa minha como professor quando me torno indiferente às críticas e passo para a defensiva, é culpa sua como progenitor quando diz que é incapaz de controlar o comportamento do filho que gerou, é culpa do Estado, negligente e inoperante, que nós mesmos erigimos e, na condição de eleitores, elegemos representantes e legisladores para proporcionar a todos um futuro melhor, uma vida mais feliz.  Portanto, antes de lançarmos uma pedra, devemos, na verdade, pôr a mão na consciência e/ou olharmos para um espelho do que sorrateiramente caçarmos um culpado.

BENEDITO LUCIANO ANTUNES DE FRANÇA (BENÊ FRANÇA) – 34 anos

Mestre em Filosofia. Professor Titular de Filosofia da EE João Franceschini, em Sumaré/SP, e Professor Associado da Faculdade de Tecnologia de Americana

 (FATEC – Americana/SP).

 

 


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