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O BAIRRO

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Democracia incipiente é o sistema político que nos oferece a liberdade de morrermos á fome.

 

O bairro continuava ocasional, mecânico como uma fábrica de produção em série. As mocinhas caprichavam, criavam New-look. De beleza invulgar enfrentavam a algazarra musical. Dançavam, remexiam-se, oscilavam muito elásticas. Muito distraídas, era assim que ludibriavam o tempo, porque não se lembravam da sua existência. Não se danavam com isso. As telenovelas diluviavam, e sempre luziam parvos que lhes abonavam.

O pacifismo bairrista pactuava. Clientes abasteciam a sede com sacos plásticos de água de frescura duvidosa. As sanduíches evoluíam, movimentavam a clientela. O corre-corre transeunte avolumava a facturação nas bolsinhas. As moscas esquadrilhavam reforçadas. Tudo estava composto de indícios regulares. Uma repentina pequenina chega. Lembra Fidípedes a anunciar que a batalha de Maratona foi ganha. Arfa desmedida, perdeu o jeito do caminhar. Opressiva esforça-se, respira muito fundo, a voz não sai. A mãe vê que ela está muito assustada, embargada.

- É o quê porra! Viste algum feiticeiro?

A menina assusta-se, a respiração incha, desincha.

- Estiveste outra vez a ver aquele filme de terror no vizinho?

O querubim move a cabecinha negativamente. Infelizmente a mãe não tem tempo para a aturar, pois tem cliente a piscar. Decide acabar com o mutismo da filhinha com a arma secreta das mães.

- Ah, sua aprendiza de feiticeira. Vou-te desinchar com tanta chinelada, que te arrependerás de ter nascido.

Antes da mãe iniciar as suas artes marciais a menina consegue soluçar:

- Os … os… os…

- Os quê filha de um bêbado!?

- Mamã… mamã… mamãzinha… os galos… estão ali.

- O quê!? O quê!? Ai meu Deus!

A mais velha pressiona as mãos na cabeça. Revoluteia duas circunferências, batuca os pés na terra amolecida, de barro avermelhado. Isto ajuda-a a pensar, a decidir o que fará a seguir. Parou, baixou as mãos, inchou o peito, alertou geralmente:

- Gauleses à vista!!!

A criançada maravilhou os olhos, que brilhavam intensos como holofotes.

- O Asterix vem com eles?

A menina reclama, tenta elucidar a mãe:

- Vocês trocam tudo! SÃO OS UFOLOS… (Órfãos de pai e mãe) OS UFOLOS, PORRA DE MÃE!

- Está bem minha filha… Fujam! Avista-se Fogo Grego ufólogo!

A calmaria tresandou, parecia mar agitado quando atira os barcos uns contra os outros. Confusa maré humana, de corpos contra corpos, de filhos enlaçados, que na atrapalhação custava pegar no sustento da insustentável fome. Rebuçados, cigarros, bolachas, pastilhas elásticas etc., sofreram a condenação do chão. Patinharam para as cubatas. Às crianças foi silenciado que se escondessem debaixo das camas, onde as havia, porque era normal dormir no chão. Eram seis Ufolos. Um, sem dúvida o chefe, mascarado de Zorro. Cópia refeita, possante, trajado de negro. A máscara negra entreabria-lhe os olhos, impunha calor vampiresco. As pistolas pendiam cinturadas, imponentes. Alaram pombos e pardais, alocaram tranquilos pombais. Montado num pau de vassoura, um varão que iludiu a mamã exclama com convicção:

- Aió… Silver!

O Zorro amuou. Apetecia-lhe rir da ousada criança, mas tinha, sentia-se obrigado a manter distância, meter medo, senão perderia o respeito, o comando do bando. Ordenou à criança que freasse a montada. Do seu hábito seleccionou voz autoritária.

- Vai para casa, dita às safadas que ponham tudo cá fora!

- Ok! Zorro mascarado!

As mães olharam longe a conversa, aprochegaram-se, lagrimaram, lastimaram.

- Não nos roubem, por favor! O pouquinho que temos foi ganho, crucificado! Somos escravas dos descolonizadores, geradas para os distrair.

Os Ufolos marimbaram-se das prédicas, dos desejos sublimados das pobretanas sofredoras. Num ápice foram trambolhadas televisões, ventoinhas, aparelhagens de som, dinheiro. Uma mamã enfrentou-se e levou monte de chapada. Furiosa emparedou:

- Sacanas de merda, vão roubar os governantes, eles tem tudo!

- Lá chegaremos.

- Aquando?

- Uma noção de tempo.

Esgueirando-se, uma belezinha furtou o cerco dos Ufolos. A fada pairava suavemente na corrida até à esquadra da polícia. Chegou levemente. Depois partiu num carro patrulha com seis polícias de olhar pesado, e sirene carregada. Arribaram, descende um oficial com óculos de breu. O Zorro e afiliados escapuliram-se próximos, disfarçados de vendedores de rua. Os produtos da contribuição fiscal foram desalfandegados numa viatura de vendas de móveis ao domicílio. O oficial calendarizou, sublinhou: 

- Tempo para desordem, tempo para ordem! Minhas queridas… para casa!

- Mais pra casa? Não temos nada para pentearem!

- CUMPRAM AS ORDENS!!!

O metal tiniu nos gatilhos leais das armas do dever. Cães, gataria, rataria, serpentes… e borboletas, acoitaram-se nas redondezas como testemunhas do oculto. A infeliz que a História atraiu destapa a alma soturna.

- Ufolos e Fulanos … são todos zebras, cepos, troncos dos mesmos ramos. Perderam as almas sombrias, nada mais lhes resta.

- Redobra a falaz, a perspicaz postura. A minha glacial farda oficia o juízo dentro e fora dele.

- Hum! Reles Fulano, beltrano e sicrano.

Os Ufolos calculavam que os Fulanos brindavam vivaz temor deles. Creditaram a confusão na sua conta, escalaram as paredes dos barracos, desvendaram os soalheiros telhados zincados, verrumaram, espernearam as julietas. Sabichões na selecção natural das espécies, emplumaram as fêmeas aves-do-paraíso, aquelas que os queimavam, teimavam o prazer da negação do namoro. Fugaram com elas, e pelas andanças dos descaminhos repartiram estragos a mais de seis carros. Garantiram a tranquilidade final com muitos disparos para o ar, de meter medo. O oficial da polícia Fulana melindrou grande desrazão aos seus conceitos, preceitos da desordeira manutenção sem bandeira. Deixaram-no fraco, sem frasco. Motivou para o lado da fraqueza:

- Prendam-nas… chamem camião para o diabo que as carregue!

Destaca-se uma grandota que milagrosamente acessou jurisdição universitária. Advoga o Direito Natural:

- Estás feito com os Ufolos né!? Já vais ver!

Celebrou voz de comando latinizado.

- Argumentum baculinum. Quero dizer: chega de conversa, cacete neles. Vai ser pior que as Termópilas. Manas … A ELES!!!

E caiu uma chuvada que alagou as caras policiais com chapada. O oficial, o inimigo principal, foi o eleito da discórdia. Desabaram-lhe trovoada de cacetada e socada. A policiada desprotegida manobrava as mãos, defendia-se por instinto. Apelar às armas virou impossibilidade, porque o esquadrão feminino mantinha guarda. Atentamente desarmados pelas corajosas, derreados e aterrados solicitaram forças aos membros inferiores. Ao levantar para fugirem, a jurisdicional invocou a voz do mulherio da Revolução Francesa:

- Só mais um! Só mais um!

Acobertadas de glória pelo término favorável da batalha no gueto, olhavam sem horizontes para os destroços vendíveis. Escapulidas no recomeço da luta sem alternância, sugeriu-se o inventário dos acontecimentos:

- Não dá para conferir. Num bairro onde ninguém gosta de confusão, repentinamente vem à tona mais um episódio da Guerra de Tróia.

- Nunca se investiu, instituiu tanta fome, como nestes tempos badalados, baldados. Muitos guetos sem futuro, como este, serão os formigueiros que alimentarão o reencontro inexorável da Guerra de Tróia. Os esfomeados não temem a morte, ela abastece-os regularmente com cestas básicas aeriformes, de fomes. Está sempre latente nos corações a revolta candente. Será uma grande revolta mundial, juridicamente universal. Quem a impossibilitará de terminar? Não haverá muralhas, fossos, mares que lhe resistam. Multitudinários esfomeados mutados em baratas, moscas, ratos. Afasta-se um, vem dois, três. Assim falará a nova Guerra de Tróia.

- É por isso que os romanos não gostavam de Cartago.

 

 

Gil Gonçalves

 

 


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