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THE GLOBALIZACIÓN DI MARIE *

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(antes da Queda do Muro de Berlim, antes da internet)

                    - MARIA! Ô MARIA! Onde está a camisa que eu mandei você passar?

                    - Maria, você já limpou este tapete?

                    - Maria, onde você esteve ontem à noite? Por acaso foi o seu dia de folga? Você sai pras farras e no dia seguinte fica parecendo uma doida com essa ressaca.

                    - Ó praí: acorda, Maria! Corta direito essa verdura!

                    - Maria, você está um tanto lerda.

                    - Maria, você já comprou o pão e o leite?

                    - ...Maria... hoje à noite deixe a porta do seu quarto aberta, viu?

                Às vezes suas amigas se enfureciam dizendo que ela parecia com uma escrava. “Tempo de escravidão já passou, Maria. Você parece uma indiota trabalhando sem parar. A gente num pode trabalhar muito pra erles não, Maria. Se a gente trabalha muito, se lasca e fica duente, e erles nem ligam. Num vê Quitéria? Pra quê trabalhar tanto? Gente rica num se importa com a gente não”.

                Então Maria vinha para casa com idéias de igualdade social e falava que estava cansada de tanto trabalhar.

                    O marido da patroa resmungava na mesa:

                    - Aposto que essas outras empregadas estão corrompendo a Maria.

                    E a patroa surgia, subitamente conciliadora:

                    - Maria, você é tão boazinha... Vai se deixar levar pela inveja dos outros? Essas empregadinhas daí não sabem de nada, Maria. Aqui você tem tudo, Maria, do bom e do melhor, até televisão no quarto e radinho de pilha e todos aqui te adoram.

                Ou então, quando Maria reclamava do muito serviço, a patroa vinha bufando colérica com o furor das sete pragas do inferno:

                    - Maria! Você é mesmo uma sem-vergonha! O que você sabe fazer na vida? Sabe escrever? Sabe ler? Maria! Cada um tem o emprego que merece! Se você soubesse ler e escrever, falar direito e fazer contas, não estaria na cozinha dos outros lavando panela. Se você não sabe fazer nada disso, deve se contentar e agradecer a Deus por ter onde trabalhar e morar. Você não tem pai nem mãe nem marido e filho pra sustentar! Todo trabalho é honesto, Maria! Você é uma ingrata! Ganha o suficiente e tem carteira assinada! É aqui que você tem o seu prato de comida todos os dias! Se você morasse nos Estados Unidos, onde as empregadas quase não existem, você ia morrer de fome, Maria! Agradeça a Deus por ter onde trabalhar, Maria! Agradeça a Deus!

                    - (Muito obrigada muito obrigada muito obrigada. Muito obrigada).

                Maria ficava tonta e enfim se acostumava com a idéia que fazia o serviço ideal para ela mesma, o que poderia almejar senão aquilo? Mas a vontade de continuar os estudos e assim poder ler jornais e revistas, lhe angustiava, e Maria murchava, toda triste. 

                Porém o melhor da vida era ter namorados e Maria  já tivera vários, sua boca, quem diria, era um tufão de beijos calientes. Nos braços de Maria dormiram marinheiros, soldados, passadores de bicho, vigilantes, caminhoneiros, camelôs. Quando a noite vinha e a mesa posta, a janta pronta, ela era acometida por um frenesi e se emperiquitava toda com vestidos alegres (detestava aquela bata azul e branca que tinha que vestir todos os dias) e se perfumava com rigor. Descia para as ruas movimentadas do bairro e caminhava sedenta, sozinha ou em grupo. Acreditava que era melhor andar sozinha, parecia ter mais sorte assim.

                Atualmente estava na mais alta felicidade. O filho da patroa começara a descobrir Maria. Era um amor irrequieto, rápido demais, cheio de força e movimentos bruscos. Maria se empolgava com tanta energia e rispidez. No escuro do quarto o menino se esgueirava quase todas as noites. Maria ficava irrequieta também, sufocada, atleticamente satisfeita. (Mas com os meses, o filho da patroa iria ficar mais cheio de ciência, o corpo de Maria não mais seria escuro e interrogativo. O casal, por mais vontade dele do que dela, começou a fazer um amor parcimonioso e requintado. O fogo de Maria foi baixando. Nessa época ela arranjou um marinheiro francês, namorico de poucos dias. Ele pensava que Maria era estrela de alguma escola de samba. E ela estava apaixonada pela boca carnuda do marinheiro, a bunda dura e empinada, o cabelo castanho e fino. Em alguns momentos se excitava imaginando que o marujo lhe dizia palavrões enquanto a penetrava sem grandes novidades. Ele era muito branco? Seria ele também um mistério? Pois assim Maria achava que seu corpo era, porque nunca entendeu o corpo, nem o seu nem os dos outros). 

                    O marinheiro, curioso, perguntava:  tu aimez sambá?  -  e Maria ria, fora de si - ele também ria e perguntava novamente: do you like sambá? - Maria redobrava a gargalhada sem entender nada.

                Maria às vezes acordava adivinhando a sua própria importância e quando isso acontecia seu trabalho rendia o dobro, ela entrava num ritmo alucinado de limpeza e arte culinária. Adivinhava que era uma espécie de coisa última. Antevia que depois dela, poucas ainda existiriam. Se sentia uma raridade, um fenômeno. Até suas colegas diziam: Maria, você é a doméstica mais besta que eu já vi. Eu pensava que só os nordestino foissem burros. Maria não ligava, pra quê?

                Tinha de vez em quando acessos de riso. Quando foi trabalhar em casa de família, não podia atender ao telefone. Na hora que tirava o fone do gancho  e ia falar, começava a rir sem parar, era tão engraçado ouvir a voz dos outros, assim miudinha dentro do aparelho.

                Agora não, agora Maria sabia fazer mousse de chocolate, atender ao telefone, passar direito um vestido cheio de pregas e nome complicado, manejar a enceradeira com desenvoltura e entrar num carro sem sentir medo.

                   

          E quando chegou o carnaval, com muita alegria Mariazinha, Ma Petite Marie, virou uma cabrocha de verdade. Suas carnes moles estavam prontas para desfilar envolta em lantejoulas e muito brilho, vários salários economizados com sofrimento e paciência. Ela iria enfim receber aplausos na avenida. Pegou a identidade e uma sacolinha e foi pro galpão da escola. Estava louca pra sambar.

                Então Maria não voltou na quarta-feira de Cinzas, nem na quinta, nem na sexta.

                    - Vamos à polícia.

                    - Melhor o necrotério.

                    - Luciene não sabe de nada?

                    - Já perguntei! Ninguém sabe onde está Maria!

                    - Liga pralgum parente!

                    - Está louco??!! Maria só tem a nós! Sem parentes, sem eira nem beira!!!

                    - Será que mataram a Maria??

                No sábado finalmente Maria liga felicíssima. Estava em Angra dos Reis, com Hans.

                    - Hans, que Hans é esse, criatura?!?!

                    - Meu namorado!

                    - O quê? O quê, Maria?? Seu namorado???

                    - Desculpe não ter ligado antes! A gente não pára de passear! Aqui é tão lindo!!!

                    - Maria, você está louca?? Maria!!

                    - Eu vou ligar depois! Eu vou ligar!

                    - Maria!! Maria!! Alô?? ALÔ???

                    A bússola amorosa de Maria a levava cada vez mais ao norte. Ligou de Porto Seguro, Salvador, Recife. Hans descobriu o Brasil com Maria.

                    - Maria você é uma ingrata!!! Uma ingrata!!! Entendeu?!

E assim passou o tempo.

        Um dia chega à arrasada família um envelope da Holanda, carimbo de Groningen. Atrás de um lindo postal Francisca Maria do Nascimento finalmente dava seu paradeiro e pedia desculpas por “tantos trainstornos” e por não ter enviado notícias, pois afinal  “foi uma coisa tão inezperada”, “não deu tempo para despedidas”. E avisava que estava morando com Hans numa “casa muito grande”. Junto com o postal, uma foto Polaroid. Maria aparecia aboletada em uma cadeira de espaldar alto, ao ar livre: uma paisagem meio ocre e meio azul, ao fundo uma casa de três andares cheia de portas e janelas. Em pé ao lado de Maria, o felicíssimo Hans. Ao redor do casal, um alegre grupo de empregados uniformizados de quepe e avental. A família pegou a lupa pra ver a cara da ex-serviçal enfiada num casacão felpudo. Mal dava para ver o seu rosto redondo, Maria parecia uma bola envolvida numa esponja. E no centro de tudo isso - no centro da paisagem, no centro da casa, no centro da foto, no centro do espanto, meu Deus - dois tracinhos brancos. Era Maria mostrando os dentes num sorriso.

 

 
Raimundo de Moraes

 

 


* Incluído na Coletânea 2007 do Concurso Nacional de Contos Machado de Assis promovido pelo SESC – DF.

 

 

 

 


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