|
Gil Gonçalves. O BARQUEIRO CARONTE
Até nos cemitérios há diferenças. Um para ricos, muitos para esfomeados.
O barqueiro Caronte reservava uma barca preparada para singrar no rio Idas. Levava nas ondas os restos das almas dos ousados sábios ou opositores do rei. Erradicara-se definitivamente qualquer manifestação de sabedoria ou oposição.
Os Fulanos nasciam sábios, congeniais autorais. Dominavam, fustigavam as epístolas da oposição. Mas os trovadores, exilados internos sem mácula pedravam letras. De chofre aparecia o barqueiro Caronte, esfregava as mãos de avarento, e inquiria se havia almas para as Idas. Se respondiam, por enquanto ainda não, Caronte impacientava-se.
- Não brinquem com a ludologia. A política não é arte de cartomantes. Daí não advém futuro. Da outra Revolução Francesa que há-de vir, enviam-me muitas almas. Sempre foi assim, sempre assim será.
Os Fulanos subiam nos degraus do poder sem esforço. No altar cultuavam as vastas sobremesas das multidões sem História. Que de mãos estendidas, flácidas, migalhavam o culto da fome. Tudo é composto de convicção.
- Não há nenhuma revolução que nos vença, que nos convença, ou que nos tire do lugar. Governamos demasiado, porque o tempo só conta enquanto estamos vivos. Governamos mal? Os acólitos aplaudem-nos pela boa governança. Outros povos, especialmente este que dirigimos, os Abderitas, envolvem-se, deixam-se levar na felicidade que lhes prometemos nos discursos de fim de ano. Antes viviam na extrema escravidão, hoje estão libertos. É verdade que existem alguns constrangimentos, mas o sorvedouro dos milhares de leis decretadas solucionarão a emancipação dos povos. Finalmente a miséria acabará, atingiremos, bateremos as metas dos recordes do desenvolvimento.
- É!? Acontece que fiz um grande investimento na compra de duas mil barcas, e muitos barqueiros para as conduzirem, que correm o risco de perder o emprego. Não estão a cumprir o contrato, exijo indemnização. Arranjem aí umas epidemias, qualquer coisa… não se sobrevive sem cadáveres.
- Velho Caronte, não escorregue, cadáveres não faltarão. Fique calmo que brevemente tombarão outra vez mil por dia.
- Não acredito em tal maldição! Vão fazer outra revolução?
- Nem tanto a norte… vamos fazer outra guerra mais devastadora.
- Pendo dessa garantia. Importa-me que cumpram as normas contratuais.
- É verdade que demasiamos a honrar os nossos compromissos, mas quando os lesados fazem pressão, vasculhamos a papelada e accionamos o pagamento. Só trabalhamos debaixo de pressão. Somos como uma locomotiva a vapor.
- É!.. São bons crentes, confiam na divindade que rege o Universo. Naquele que é a origem do cadinho, que nos criou, nos deu origem. Sois os Fulanos que aceitam um só deus. Seguis as doutrinas do feitiço. Tudo é decidido e explicado pelo feitiço. Concedo-vos prazo de trinta e tal anos para acabarem a contenda. Depois exijo que façais eleições senão…
- Senão o quê?
- Altercarei a dívida com juros muito pesados. O vosso corpo será mais pesado que o chumbo, e não o podereis suportar.
- E perdidos nos encontraremos desarrumados.
Gil Gonçalves
Acrescentar como Favorito (399) | Refira este artigo no seu site | Visualizações: 3503
Só utilizadores registados podem escrever comentários. Por favor faça o login ou registe-se. |