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Uma crónica a sério

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Alguns dos melhores textos da literatura falam de futebol. Se Dumas chamava à intriga o prego em que penduramos os nossos quadros, então é o futebol um prego prodigioso.

 

Um dia – prometo – vou escrever uma crónica a sério. Não vou atropelar, como hoje faço, o que de vida e de morte se passa em oitenta mil corações sufocando noventa minutos por uma vitória que não é deles. Não vou reduzir a metáforas e bordões o suor e as lágrimas e o sangue (lá estou eu) de vinte e dois homens digladiando-se por uma vitória que ninguém reconhecerá como deles. Está bem, eu vi o Negrete marcar aquele golo soberbo à Bulgária no México 86. Eu vi o Van Basten arrumar de vez com a URSS no Alemanha 88. Mas até que ponto sufoca o meu coração para que eu resuma numa frase todo esse sufoco, como o fez Javier Marías em 1994, depois de o Real Madrid perder a liga em Tenerife? Que suor e que lágrimas e que sangue verti eu para um dia escrever um diálogo como o fez Oswaldo Soriano, situando o penálti mais longo do mundo no vale do Rio Negro, na Argentina, em 1958?

Diz-se, a propósito de Nelson Rodrigues, que algumas das melhores crónicas da literatura brasileira falavam de futebol. Eu diria mais: alguns dos melhores textos da literatura falam de futebol. Se Dumas chamava à intriga o prego em que penduramos os nossos quadros, então é o futebol um prego prodigioso. Provas? Ao recordar aquele fatídico em Tenerife, o espanhol Marías, para quem o Real é como o quarto dia da Criação (água, terra, relva, flores, ervas e árvores), escreve assim: “O nosso coração tão branco conheceu coisas piores nestes últimos anos e mesmo assim sobreviveu. Acostumados a ganhar, descobrimos que perder não nos matava, o que tem o seu mistério.” Ao ficcionar sobre um penálti interminável, o argentino Soriano, que foi guarda-redes, inventa o seguinte diálogo: “’O Constante marca-os à direita.’ ‘Sempre.’ (...) ‘Mas ele sabe que eu sei.’. ‘Então estamos lixados.’” Está bem, eu também fui guarda-redes, mas se hoje me pusesse com essa coisa do ele-sabe-que-eu-sei-que-ele-sabe não conseguiria mais do que evocar um congresso do PP.

Pelo contrário, espanhóis, brasileiros e latino-americanos transportam-nos do sofá ao estádio e trazem-nos de volta a casa em quatro linhas, com a pulsação acelerada e a certeza de que a morte passou perto. Numa crónica escrita em Paris, pouco antes de o Brasil perder 3-0 com a selecção da casa a final do Mundial de 1998, o brasileiro Luís Fernando Veríssimo descreve um diálogo com o seu miocárdio a propósito da nova regra da “morte súbita”. “Você deliberadamente me trouxe a um evento em que eu posso parar de repente, mesmo não tendo nada a ver com isso?”, pergunta-lhe o coração. O também brasileiro Ruy Carlos Ostermann, regressando do Itália 90 após uma sempre humilhante derrota (1-0) contra a Argentina, proclama: “O futebol morreu. Será devorado pelos vermes. Vai desaparecer debaixo da grama. Nunca mais se saberá como foram aqueles dias.” Ora, como posso eu hoje escrever isto, se Portugal me morre aos pés e eu acendo um cigarro, enquanto pego na revista de TV para ver o que dá a seguir?

A mim, cronista iniciado a quem sobra o verbo e falta a emoção, mais valia que sobrassem sentimentos e faltassem palavras. Como escreveu o também brasileiro Armando Nogueira, ao ver Tostão comemorar a vitória do Brasil no México 70 (4-1 à Itália na final): “E as palavras, eu que vivo delas, onde estão? Onde estão as palavras para contar a vocês e a mim mesmo que Tostão está morrendo asfixiado nos braços da multidão em transe?” Eu, ao contrário, o que de melhor posso oferecer são palavras. Mas aguardem-me: um dia – prometo –vou escrever uma crónica a sério.

 Joel Neto

 
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