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CHUVADA. Gil Gonçalves

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CHUVADA. Gil Gonçalves   Em particular, temos de organizar nas nossas cidades sistemas descentralizados e participativos de decisão sobre como organizamos os nossos espaços urbanos, pois sem isto continuaremos vítimas das incorporadoras, imobiliárias, empreiteiras e outros especuladores urbanos. Não se trata aqui apenas do fato que é um processo corrupto: é um processo corrupto que organiza a sociedade de forma pouco inteligente.In A Economia da Família. Ladislau Dowbor. http://www.dowbor.org   A chuvada aligeirou, naufragou várias famílias. Expurgadas dos bens, imploravam ao Altíssimo que soldasse as fugas das águas dos canais, onde se diz que Deus habita. Clamavam por ajuda terrena, do governo da terra. A expectativa atenuava-se com a recomendação: «que por agora não era possível fazer nada, porque existiam situações gravosas.» O dirigente terreal solenemente desvenda aos rostos desabrigados a recordação da inundação.- Antanho, aqui florescia magnificente eucaliptal. Um dique providencial, que segurava, desviava, acorrentava a correnteza das águas. Sem apelo arrancaram-nos, das suas carnes postaram negócio. Acenderam carvão para cozinharem.A rabugice da idade anciã, sem cidadania também se desabriga.- A luz da terra prometida tarda. Não podemos conservar comida. Arrancámos alguns eucaliptozinhos para apoiar a nossa deglutição.- Os nossos venerandos amigos chineses instalaram os cabos eléctricos. Acabaram o trabalho, os Ufolos, (órfãos de pai e mãe), roubaram tudo. Acabou-se a celestial iluminação. - Ser independente é o quê? Escravos independentes é o quê? Somos escravos, donos do nosso destinocomo nos canis.  A informação disseminava a antologia da cólera. Os Abderitas sem luz, sem dinheiro para pilhas, não tinham acesso às ondas de Hertz. O tempo colava-se, escoava-se na atenção constante do vender subserviente. A cólera impava pela atenção emprestada. Os direitos de superfície catapultavam longânimes. A principesca informação minoritária aplaudia o defeso contra os desterrados. No fim do dia, a fome associada com a morte, cobra a divida, faz o balanço da mortandade. Os números mortais das epidemias, das fomes, deixaram de impressionar. Deixam motivos para a soberba se alegrar.Muitos rios a reinar, muita água, muita gente a morrer de cólera, porque não tem água. São profundas as caves do poder, temos fórmulas para o deter.  Junto do banco de urgência do hospital perecem, aparecem amontoadas pessoas, aguardam pelos seus familiares doentes. Dormem no chão, em papelões. Produzem aparas, restos de comida, fezes, urina. Reconstruíram o hospital, esqueceram-se dos sanitários externos. O administrador desata-se:- lhes disse para saírem daqui. Parece-me que são surdos, ou simulam. Todos os dias nisto… estou cansado! Não sei que gente é esta, quanto mais lhes falamos, pioram! A nossa população não está preparada para viver em sociedade. Nem com um exército de seguranças consigo impor-me!Ruas com condutas de água rebentadas, concorrem deslealmente com reservatórios aguados, instalados no céu dos terraços. Se findassem os charcos, lagos imundos, ruas lamacentas, purulentas, as crianças ficariam infelizes, sem estes jardins infantis. Ilhadas, neste campo mal concentradas.   Chove, as pontes paliativas desabam, reinauguram-se. A travessia do negócio é ágil. Quando passar pelo grande esgoto, estarei mais ou menos a meio do caminho até Tule.Algumas zungueiras desesperadas movem a leveza das bacias vazias.- Ai! Minha irmã… que será de nós!? Os lagos onde sai o cacusso… o peixe, contaminaram-se com a cólera! Vamos passar fome ué!- É mentira deles. Querem roubar-nos o negócio.Disfarçam a tristeza com caudais de risos naturais, sem beneplácito. De repente desencaixam-se, piram-se, entrecruzam-se. A fuga de novos rumos desperta. A tenaz da conspícua lei acerca-se. As sobras dos seus panos arrastam-se pelo chão. As crianças atiradas de qualquer maneira para as costas. As bacias e as chinelas parecem fugir-lhes das mãos e dos pés. Uma nuvem de poeira misturada com lixo levanta-se. Parece um ciclone, ou um tremor de terra. Fiscais e polícias trazem a aparição da grei triunfal, a perseguição.   Elas usaram um estratagema surpreendente. Discorreram, correram para um lago da chuva. Pararam quando a água lhes cobriu por cima dos joelhos. Estavam… como se aguardassem o baptismo no rio Jordão. Os filhos às costas, as bacias nas cabeças, olhavam sorridentes, desafiadoras. Estavam num excelente refúgio. A fiscalidade e os polícias desistiram, sem coragem para a aventura. Receavam baptismo de água impura. O assédio terminou, elas fizeram algazarra, por mais uma vitória conseguida. A guerra da fome é injusta, desigual. Elas voltariam a lutar contra o atrevimento da fome. A nossa luta continua, com os olhos sempre no chão. O que resta das ruas, e das armadilhas dos buracos, que parece ter acontecido uma imensa chuva de meteoritos. Os pés têm que ser muito cuidadosos. Alguns afogaram-se, apareceram cadavéricos nas covas aterradoras.  Uma grande agitação surgiu numa dúzia de cavalos de Tróia metálicos, cavalgados por guerreiros fortemente armados. Desmontam, assediam as desmuradas casas. Os Abderitas imploram o nome do rei. Em vão! Fogem das tocas, do desmoronamento marcial. A conspurcada demolição teve efeito, o pretexto de que são necessários hotéis para alojamento de turistas. Habituados ao pavor libertador, há quem escarneça.- É para alojar os ratos de hotel deles. Caminhamos, outra coisa não se .- Com tanta espécie de ratazanas mundiais aqui apontadas, dá para construir um museu de mastozoologia.A derrota da democracia segue frígida, sem eleições. Como o cavalo, trota, salta. O cavaleiro medieval instituído catapulta.Os reinantes emanciparam-se com a produção petrolífera. Para sobreviverem, os Abderitas emanciparam as suas esposas. Elas assumiram, dosearam com estoicismo a hercúlea irresponsabilidade do deus protector das lareiras. Heroicamente inventaram qualquer coisa para vender. Tresmalhadas conseguem comer algo durante o dia, à noite não. Sacrificadas, obedientes à fome, superaram casebres, compraram geleiras a prestamistas, ventoinhas para silenciar a mosquitada. Ganharam grande amizade com a fome, para adquirir o martírio de assistir à programação da TVTPA, e a ilusão da paixão sentida das telenovelas. Aparelhagem para dançar, batucar. Dependiam da má vontade dos reinantes, do gosto de ver tudo às escuras. Perdiam episódios novelísticos, devido às intermitências voltaicas, e desgarravam-se.   Os Ufolos apertavam vigilância. Movidos pelo apetite voraz dos pertences de outrem, esgueiravam o ónus das cândidas Abderitas. Eram vãos os protestos. As almas-danadas pedravam. - Tudo confiscado. Vocês compram, nós roubamos. Não se incomodem com os prantos.Uma jovem desbloqueia-se.- Tudo surripiado. Nós compramos, vocês levantam. Calceteiros na terra de ninguém.Os Ufolos não debandaram sub-repticiamente. Foram-se como se saíssem dos seus pardieiros. A multidão aprochega-se, amontoa-se às dezenas, centenas. Duas moçoilas desalinhadas requebram-se.- Foi a polícia do Fouché?- Sua parva, pensas que estás aonde? Foi a política dos Ufolos.- E há alguma diferença?Um embriagado pelos dotes da rapina neocolonialista saúda:- Não queremos casebres! Não queremos casebres! Vivam as casernas dos lares patriotas! Vivam os da nova vida!Protestos impopulares são enviados. Uma onda vozeira ecoa pelos retintos labirínticos. As tolas entontecem. - Não queremos cavernas? Não queremos cavernas? Viva o ar da ilhota? Viva a má vida? Então querem o quê!?- Hum! Esses gajos estão a petrolear de mais.- É mesmo, vamos pois então chamar os Greguejados, para lhes queimarem com o Fogo deles.- Os Greguejados sem aquele parecido com o Aquiles, não furam nada. - Esse… é um grande sacana.- Porquê mano?- Caçou a virgem Briseida, está com elamais de mil noites. Dizem que está indeciso, deseja que ela permaneça virgem.- Ah, afinal ele é desses?- Mas que herói, que guerreiro é esse, que não consegue tirar a virgindade a uma mulher?- Os nossos penetram, arrebentam bem, são muito vaginais. Muito soldados de rebentos.   As fardas da lei arribaram, impuseram vários balázios para o ar. O ajuntamento quitou, relaxou, debandou. E tudo continuou, amansou no local aprazível rodeado de montanhas de lixo, lagos de águas imundas, florestas de betão, estradas e ruas estalinizadas.  Um veículo de uma das inúmeras empresas de segurança anuncia-se com luzes e sirenes anárquicas. É bem visível o anúncio na carroçaria: REACÇÃO ARMADA SEGURANÇA PRIVADA.   Gil Gonçalves  http://www.ptshot.com/upanixade/  
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