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A parerga e paraliponema de um filósofo brasileiro. O tempo e as formigas

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Porto Alegre, manhã de quinta feira, 27 de setembro, de 2007, o silêncio do sono é rompido pela musica gritante, que rasga meus ouvidos como laminas cortantes, um latejo áspero, apresentando a atual realidade para meu inconsciente.

A musica que toca no celular, é a que país e este? Da legião urbana, anunciando mais um dia que começa as 06:00 da manhã, nunca uma canção foi tão atual, nestes dias tão remotos, onde a podridão é escondida, assim como o pó se impregna debaixo de uma tapete vistoso.

Mesmo sabendo que o relógio está adiantado 10 minutos, é impossível, tentar voltar a dormir, o tempo passa voando quando agente acorda com a ilusão de que 10 minutos vai fazer diferença, os números correm, a preguiça é vencida pela frustração de acordar, quando ainda se tem vontade dormir  mais um pouco, o tempo corre, o grande formigueiro espera suas formigas operárias com seus relógios argilosamente adiantados, o jeito é abrir os olhos e levantar, como sempre faço, dou um abraço e um beijo na minha mulher, que como uma criança, boceja, se espreguiça, e encolhe-se toda, como se a cama fosse a barriga de uma mãe, que esta prestes a dar a luz, ela dorme um sono tranqüilo, em baixo de seu travesseiro, o relógio lhe permite mais uma meia hora de sono antes de ir para batalha, depois de afagar minha mulher, vou até o quarto de minha filha, e ali fico por 2, 3 minutos, olhando aquele rostinho angelical, dormindo serenamente, as vezes o sol entra pelas frestas da janela, e a luminosidade que reflete delas, deixa sua pele alvéa parecendo uma porcelana delicada, e sua cabeça parece a cabeça de um anjo, envolvida por uma auréola radiosa, tenho vontade de acorda – lá, só para ver um sorriso naquela carinha, envolta vejo as bonecas, os ursinhos, as panelinhas, as cortinas cor de rosa, moldando as paredes branquinhas, onde borboletas fluorescentes, brilham junto a luz de um abajur âmbar, bordado com florzinhas, em cima da cômoda, os dvds disputam a atenção de uma criança curiosa, branca de neve e os sete anões dançam, enquanto cinderela apronta-se para o baile, e o ogro   sherek se diverte com suas flaudulencias borbulhantes, há sim, e os livros na estante, que vão desde Monteiro Lobato as fabulas magníficas de Esopo. Ao vê-la dormindo rodeada de tanta fantasia e de pequenos caprichos que uma menina de quaro anos pode ter, me pergunto, o que o futuro reserva para ela? Até quando esta cúpula de cristal invisível a protegerá? Difícil prever o futuro, quando o tempo passa rápido demais, se pudesse, congelaria os segundos, e falando em segundos, o tempo esta correndo, não tenho tempo nem para filosofar de manha, tenho que correr contra o relógio maldito.

Enquanto o relógio dispara com seus ponteiros infernais, me deleito num delicioso banho quente, é revigorante sentir a água batendo na cabeça e deslizando nas costas, é como se fosse uma massagem de energia, onde a água além de limpar, purificasse e restabelecesse o equilíbrio do corpo, feliz daquele que pode tomar um banho quente e depois secar-se com uma toalha macia, após estes 10 minutos terapêuticos, eu saio do banheiro e deparo-me com o espelho do corredor, e vejo minha imagem refletida, a vaidade ignora alguns cabelos brancos, que parecem surgir da noite para o dia, bem, quando se tem 33 anos, é impossível não se ter cabelos brancos, os carecas que me desculpem, mas é melhor ter cabelos brancos, do que não ter nenhum na cabeça.

A maioria de nós quando esta na frente do espelho, sempre acaba encontrando alguma imperfeição, seja nas feições do rosto, no corpo, estamos sempre procurando algum defeito, como se a genética, por obrigação, tivesse que nos dar a perfeição, é as leis da natureza, tivesse que nos dar mais tempo, e se pudéssemos enxergar nossa alma no espelho, o que enxergaríamos? Será que as imperfeições também apareceriam? E as virtudes? Será que conseguiríamos enxergar nossas virtudes? Quantos segredos se escondem em uma beleza refletida? E quantas surpresas se revelam em uma imagem imperfeita? Se todos fossemos perfeitos, não significa que todos seriamos virtuosos, pois a casca só revela a parte de fora da fruta, assim como a fachada de uma casa só revela sua entrada, portanto, a perfeição que buscamos está além de uma bela imagem refletida em um espelho.

Depois de refletir um pouco diante do espelho, eu me visto com a rapidez de um monólogo que precisa se vestir antes que se inicie a próxima cena, a esta hora o tempo esta prestes a me queimar, o maldito de relógio avisa que só restam 15 minutos, tempo para um café, ao abrir a porta do armário da cozinha me defronto com um batalhão, o batalhão da vida saudável, pão integral, biscoito integral, tudo diet, light e enganaight, na geladeira é a mesma coisa, geléia, suco, leite, até o doce de leite e diet, onde está a goiabada? Não sei por que as mulheres se preocupam tanto com essas coisas, e sinceramente, nunca vi nada que emagrecesse que não tivesse tarja preta, esses produtos são tudo propaganda enganosa, além de caros são totalmente desnecessários, a não ser que você tenha diabetes, o jeito é pegar uma das bolachinhas recheadas da minha filha com um copo de leite e mandar pra dentro, nessa hora o Zé louco já ta de pé, o Zé é meu vizinho, e louco não é apelido, ele é louco mesmo, eu diria que o Zé é um louco profeta, ou até mesmo um louco filósofo, ontem mesmo ele profetizou que mundo iria acabar, ainda este ano, ele já foi César, Jesus Cristo, Mozart, e acredite, o Zé foi  Deus. A cabeça dele é como se fosse um liquidificador, onde as informações e as idéias se misturam com a insanidade, talvez a loucura do Zé seja um meio de fugir da realidade que vive, ou então ele se finge de louco só pra encher o saco da mulher, já que ele não tem nada pra fazer, usa a loucura para incomodar a Maria, que pra fugir da loucura do Zé, passa a maior parte do tempo na igreja, vai entender a loucura, acho que tudo mundo é meio louco, talvez a falta de tempo nos deixe loucos, pelos menos loucos de raiva, vivemos a mercê do tempo, e acredite, por mais que vivamos, não vamos aproveitar como deveríamos, somos escravos do tempo, e falando em tempo, o meu já se esgotou, preciso voltar para realidade, o grande relógio espera suas formigas operarias, com seus ponteiros argilosamente adiantados, e o pior é que não vai dar nem para escovar os dentes, viu, é isso que dá filosofar de manhã...............                          

 

  


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