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QUANDO O CONGO ERA UM REINO - PARTE I

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RELATIONE DEL REAME DI CONGO ET DELLE CIRCONVICINE CONTRADE - Tratta dalli Scritti & ragionamenti di Odoardo Lopez Portoghese - Per Filippo PIGAFETTA Com disegni vari di Geografia ..... (Relação do Reino do Congo e das Terras circunvizinhas - Tirada dos escritos e discursos de DUARTE LOPEZ, Português - Por FILIPPO PIGAFETTA - Com desenhos vários de Geografia, de plantas, de trajos, de animais, etc.- Ao Muito Il.ter e Revmo Mons. ANTÓNIO MIGLIORE, Bispo de S. Marcos e Comendador de Espírito Santo. - Em Roma.- Na casa de Bartolomeu Grassi. [1591] ........ eis o que está impresso na capa da edição original, ilustrada com sete gravuras extraídas da tradução latina intitulada REGNUM CONGO, editada pelos Irmãos de Bry - MDXCVIII.

1- UM CLÁSSICO UNIVERSAL DESCONHECIDO DOS MESTRES E DOUTORES EM HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE SALESIANA BRASILEIRA - FSFCL, CAMPUS DE LORENA, S.P.


Em 1951 a Agência Geral do Ultramar, Divisão de Publicações e Biblioteca, em tradução de Rosa Capeans, imprimiu esta obra inédita, uma edição limitada a pouquíssimos exemplares, e bem assim o original em latim, sendo o autor destas linhas feliz detentor de exemplares dos dois livros, da edição realizada por Paulino Ferreira, Filhos, Lda., e impressa em Julho de 1951,autorizada superiormente por despacho de 5 de Fevereiro do mesmo ano, que aquele departamento do extinto Ministério do Ultramar fez executar em Lisboa.
Essa magistral obra, um clássico universal, acompanhou-nos a Angola em Agosto de 1963, retornou a Portugal em Janeiro de 1975 e trouxemo-la para o Brasil em Outubro de 1988, com a intenção de doá-la à biblioteca da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, Estado de São Paulo, o que não se concretizou face à ignorância e ao desinteresse que ali [onde fomos, por cerca de dez anos, professor dos cursos superiores de Filosofia, de Psicologia, de Pedagogia, de Ciências e Matemática, e de Geografia] encontramos tanto da parte da menos preparada direção eclesiástica como dos responsáveis - "doutores" e "mestres"... - pelo Departamento de História, uns e outros totalmente desconhecedores ( com espantosa "modéstia" disseram-nos que jamais haviam ouvido falar dessa narrativa!...), como infelizmente nos foi dado constatar, da existência, da temática e do conteúdo da supra citada relíquia bibliográfica! Desiludido, devolvemos os exemplares editados pela AGU, logo de seguida, à nossa biblioteca particular em Lisboa, na esperança (também já perdida...) de que talvez algum dia um descendente nosso se interessasse por lê-los, visando ao seu aprofundamento cultural, o que não aconteceu, até hoje... Na nossa pequena biblioteca particular, no Brasil, existe apenas um exemplar fotocopiado dessa tradução de Rosa Capeans, o qual, no entanto, mandamos encadernar a capricho, pelo respeito que tal obra nos merece.

2- O QUE "A RELAÇÃO" CONTÉM...


Filippo Pigafetta, escreveu, na introdução à sua obra de escriba, encomendada pelo Bispo de S. Marcos: " Acto de caridade foi ainda quando, pouco antes desses sucessos, Vossa Senhoria Reverendíssima gasalhou o Romeiro Português, vindo de Congo ao Papa Sisto X, de memorável e santa recordação, ordenando-me que, debaixo de certos capítulos, eu escrevesse a Relação do Reino do Congo e daquelas remotíssimas terras, onde ele vivera cerca de 12 anos, pelo de estampar logo em utilidade comum: sem a qual mostra de amor, estaríamos privados de uma história singular, aos nossos pouco manifesta. Ora, o Português transmitia-me esta Relação em seu idioma; e eu da voz viva dele, ao mesmo tempo, a transladava no nosso: donde não é maravilha se, às vezes, ocorre algum sentido nas palavras menos doméstico ao vulgo dos escritores da nossa língua, porque,
Seguindo o seu ditar, que foi ininterrupto e não plebeio, sou, porventura, incurso em algum termo não usitado assim da Corte. No mais, a notícia das cousas, neste livro contidas, é peregrina e conveniente a homens de estado e de grande engenho, e a Filósofos e Geógrafos. Prometeu de retornar com amplíssimas informações e suprir a quanto alguém pudesse exigir: até lá, que ele chegue, lograremos desta afigurada escritura, que eu dedico a Vossa Senhoria Reverendíssima, que, pois não se poupando nem a diligência nem a fadigas, no-la há, cortêsmente, procurado. De Roma a 7 de Agosto de 1591."
O entrevistado foi Duarte Lopez, ao qual Pigafetta se refere na abertura do Capítulo I conforme adiante se transcreve parcialmente: "NAVEGAÇÃO DE LISBOA AO REINO DO CONGO - No ano de 1578, em que embarcou Dom Sebastião, Rei de Portugal, para a conquista do reino de Marrocos, Duarte Lopez, natural de Benavente, terra 24 milhas distante de Lisboa, na margem austral do rio Tejo, navegou também, no mês de Abril, para o porto de Loanda, sito no Reino do Congo, em uma nau, chamada Santo António, pertencente a um seu tio, carregada de mercadorias diversas para aquele Reino."
A obra em questão divide-se em dois Livros, tendo o primeiro treze capítulos e o segundo, dez capítulos. Narra sobre: a navegação de Lisboa ao Reino do Congo; clima; se os habitantes "são brancos ou negros"; se o filhos de Portugueses brancos, nascidos naquelas terras, de mulheres do Congo, são negros ou brancos ou pardos, a que os espanhóis chamam mulatos; da circunferência do Reino e de seus lados e confins; do lado de Setentrião e do lado do Oriente; dos confins e do circuito do Reino; da Província de Sonho, que é comarca do rio Zaire, e de Loango;; da terceira região, chamada Sunde; da quarta província, dita Pango; da quinta província, que se diz Bata; da sexta e última comarca, que se diz Pemba; e (no Livro II) do sítio da cidade real do reino; da origem e do princípio do cristianismo do Reino do Congo, e como os Portugueses conseguiram este comércio; da morte e sucessão de El-rei Dom Afonso e sucessão de Dom Pedro, e como primeiro se povou a ilha de S. Tomé, e do Bispo para ali mandado; e outros grandes acidentes por causa da religião; da morte de dois por conjura de portugueses e de Senhores de Congo; e como se extinguiu a linhagem real; e a expulsão dos Portugueses; Incursões dos povos Jagas no Reino do Congo e suas condições e armas, e da tomada da cidade real; do auxílio do rei de Portugal e do envio pelo mesmo de uma embaixada a El-Rei do Congo; da denega daquele Rei do conhecimento de minas de metais abundantes em Congo e, ao mesmo tempo, do envio pelo Rei do Congo de embaixadores para Espanha a requererem sacerdotes, e o que lhes sucede; e como enviou diversas mostras de metais; e do voto de Duarte Lopez; da Corte do Rei do Congo e dos trajos daquela gente, antes e depois que se fizessem cristãs; da mesa real e do modo da corte; das terras que se encontram além do reino do Congo, para a banda do Cabo da Boa Esperança; e do Rio Nilo; do "Reino de Çofala"; do restante da Costa do mar Oceano até o mar Roxo; e do Império do Preste João, e de seus confins; e do célebre rio Nilo, e da sua origem. Culmina, assim, o FIM DA TABUADA de Pigafetta.

3- SÃO SALVADOR DO CONGO...EUROCENTRISMO. SÉCULO XX -RUINAS, ONOMATOPEIAS E SELVA...


Neste mundo africano de surpresas históricas que conhecemos, desde a Etiópia e Sudão até ao extremo da África Austral, poucos lugares ermos se nos revelaram tão significativos, mesmo no Zimbabwé onde existem ruínas duma pujante civilização negra desaparecida na nebulosa do Tempo, como é São Salvador do Congo, em Angola. Sob lianas e matagais ainda se vêem ruínas de um passado glorioso, de uma civilização vigorosa e sadia. Ali, no século XVI erguia-se uma harmoniosa cidade, de ruas bem delineadas, com um mercado e igrejas...Hoje, de tudo isso resta apenas a floresta úmida, glauca, habitada unicamente por macacos e papagaios, que agora, devido aos predadores humanos, são em escasso número, quebrando de vez em quando o silêncio naquele lugar ora inóspito...
Dizem alguns, menos esclarecidos sobre história da África ( tão primorosamente tratada na obra portentosa do historiógrafo e brilhante pesquisador francês Robert Cornevin - HISTOIRE DES PEUPLES D'AFRIQUE NOIRE - que também devolvemos a Lisboa...), que sem a religião, sem disciplina, sem continuidade no trabalho e técnicas que os Europeus difundiram aos Negros, estes teriam recaído fatalmente na anarquia tribal, no "dolce farniente", na vida peregrina de caçadores e coletores. Questão grave, esta, que a atualidade africana exibe tragicamente a cada dia.
Supõe-se na Europa que as populações da África Negra não ultrapassaram o estado tribal enquanto os europeus não chegaram, raras vezes se aludindo a que, por exemplo, o império do Ghana se estendia, no século XI, do litoral do Atlântico a Tombuctu e que o vasto reino do Mali mantinha numerosas relações comerciais, no século XIV, com o Egito, o Marrocos e a Tripolitânia. A África dita Oriental, virada ao oceano Índico desde recuada data que permutava produtos com a China, como adiante se verá. Nessa época o Sudão era, ele também, um poderoso Estado aonde o Rei Dom João II de Portugal enviou imponentes embaixadas. Na Etiópia, a terra do Preste João, afinal, guerreiros cristãos Portugueses pereceram para defender os seus naturais de ataques islamitas, logo no Século XVI.
Em 1342, Kanhan Moussa, islamizado, imperador do Mali, foi a Meca em peregrinação acompanhado de uma faustosa comitiva; ao chegar à cidade santa do Islão, distribuiu tanto ouro que...o vil metal sofreu ali, durante três anos, uma enorme desvalorização. Sempre houve - e persiste- da parte dos europeus, uma tendência a enxergarem o mundo segundo a sua própria imagem, esquecendo-se que...não existe nenhuma filosofia religiosa de origem europeia, sendo orientais as principais.
Os mapas dos árabes, por exemplo, eram considerados como frutos da herança grega, sem se ter em conta até que ponto as traduções feitas por aqueles a obras como o Almagesto e a Geografia de Ptolomeu foram inteligentemente adaptadas aos objetivos da cultura e da religião islâmicas.
Este irracional eurocentrismo persiste em nossos dias...

4- ÁFRICA ANTES DOS PORTUGUESES- O Portulano de Zheng He
OS CHINESES JÁ NAVEGAVAM PARA ALI


Mei-Ling Hsu, norte-americana de origem chinesa, professora de geografia durante muitos anos na Universidade de Minnesota (EUA),publicou em O CORREIO DA UNESCO, Agosto de 1991, Ano 19, Nº 8, BRASIL, sob o título "O portulano de Zheng He" um interessantíssimo artigo de que transcrevemos, com a devida vénia, da página 21 dessa edição, as seguintes passagens:
"O famoso portulano do Almirante Zheng He, elaborado em meados do século XV da nossa era, é a carta náutica chinesa mais antiga que conhecemos. Esse longo rolo manuscrito, de 5,60 m de comprimento por 20,5 m de largura, descreve o itinerário entre o porto chinês de Nanquim, o estreito de Ormuz e os portos da costa oriental da África.
Entre 1405 e 1433, a serviço do Imperador Yongle, Zheng He (1371-1435) empreendeu sete expedições marítimas que o levaram até o estreito de Ormuz e à costa oriental africana. Essas expedições mobilizaram meios consideráveis: a primeira contava com nada menos de 317 navios, incluindo 62 embarcações de alto calado, "carregadas de tesouros", e a maior delas, com cerca de 100 m de comprimento e 50 m de largura, transportava 3.100 toneladas.
O mapa que Zheng He nos legou descreve sua última viagem(1431-33), mas também reproduz informações acumuladas anteriormente por ele e por navegantes que o precederam. O rolo primitivo foi cortado para formar um livro de cerca de 40 páginas - o Wu Bei Zhi (Tratado do equipamento marítimo), publicado em 1628.Esse rolo deve ser lido da direita para a esquerda. Descreve um périplo de 12 mil quilômetros entre a China e os portos da Arábia e da África, atingindo a oeste Khorramshar e Jidá, na Ásia, e a ilha de Kilwa Kisiwani, na África. As informações mais detalhadas referem-se às costas da China e do Sudeste da Ásia."
Ex-eunuco da corte, que se tornou valido do imperador da China, Zheng He precedeu os portugueses em suas navegações na costa oriental africana, onde a China tinha clientela e contatos até no atual Zimbabwé ( ex-Rhodesia do Sul), segundo parece (ver "AN OUTLINE HISTORY OF CHINA", edição do Ministério da Educação e Cultura da República Popular da China, Pequim, 1956, versão em língua inglesa), e no Império do Mwatíânvua que abrangia o Katanga conguês, a atual Zâmbia (ex-Ehodesia do Norte) e o Leste de Angola, na terra dos T´Chokwés ou quiôcos.

No penúltimo parágrafo de seu artigo, Mei-Ling Hsu observa:
" A última parte do mapa é dedicada à vasta extensão marítima entre a ponta do subcontinente indiano e o litoral da Arábia e da África, onde os navios tinham de enfrentar o mar alto."
Não restam dúvidas, portanto, de que impérios e reinos africanos já mantinham relações comerciais com os chineses e estes... já faziam expedições marítimas para a África Oriental muito antes de qualquer outro povo europeu ali ter arribado.

5- UM IMPORTANTE ESTADO AFRICANO FEUDAL...


O Reino do Congo era um verdadeiro Estado feudal, englobando a atual República do Congo-Brazzavile (ex-Congo francês), o Baixo-Congo até Kinshasa, capital da atual República Democrática do Congo (ex-Congo belga, ex-República do Zaire...), e uma parte do norte de Angola.
Uma lenda a desfazer é a de que esse reino banto teria sido sempre hostil aos europeus, o que contraria a verdade histórica...
Os reis negros, longe de se entregarem a um nacionalismo xenófobo, desde os primeiros contatos, em sua maioria, multiplicaram suas atenções quanto ao relacionamento com os "brancos". Pediram missionários, mestres de ofícios, mercadores, enviaram embaixadas a Portugal e ao Vaticano, mau grado as dificuldades de comunicações marítimas, solicitando intercâmbio.
O Rio Zaire ou Congo - "Rio Poderoso" - ou simplesmente "RIO" (ZAIRE) impressionaria profundamente os seus descobridores, comandados por Diogo Cão. Aquela torrente de água doce a penetrar, por alguns quilômetros, pelo mar dentro, era suficiente testemunho de sua extraordinária pujança e importância. Os Portugueses não conheciam coisa que se assemelhasse a isso, seu Tejo pátrio ficava muito áquem da majestade africana do "Zaire".
Rumores corriam, conforme uma velha tradição européia, de que devia existir um meio de comunicação com o lendário Reino do Preste-João (,afinal, este viria a revelar-se na Etiópia com seu cristianismo copta, mais tarde). Seria por ali o caminho?

6- DIOGO CÃO CHEGA AO REINO DO CONGO...INICIO DA ACULTURAÇÃO LUSÓFONA - O PADRÃO DE SÃO JORGE...


1486- O audacioso navegador português Diogo Cão encontrou no Reino do Congo, um país política e administrativamente bem estruturado, dividido em províncias, confiadas a sobas vassalos, próspero e totalmente independente.
Diogo implantou o Padrão de S.Jorge situando-o na margem esquerda do citado grande curso fluvial. Por contatos estabelecidos com os íncolas ribeirinhos, souberam os Portugueses da existência, no interior, dum poderoso rei. Aquele capitão Português enviou ao potentado Negro mensageiros e presentes. Mas não se deteve no local, prosseguiu viagem para sul. Só decorridas 15 luas arribou novamente no Congo, trazendo consigo 4 Negros que havia pêgo à chegada, os quais enviou ao rei, vestidos já à portuguesa, bem alimentados, falando a língua portuguesa. Foram esses os primeiros embaixadores da civilização lusitana.
Ficou o monarca encantado, ao ouvir da boca dos seus súbditos já meio ocidentalizados notícias precisas a respeito dos estrangeiros. E assim se encetaram amistosas relações entre portugueses e congueses....

7- A CIVILIZAÇÃO CONGUESA, JÁ NA IDADE DO FERRO...


Não conheciam os congueses a escrita; eram ágrafos, mas sabiam prospectar e garimpar do subsolo os minérios de que careciam: tinham conhecimentos de metalurgia, sabiam já fundir e moldar o ferro e o cobre. Produziam belas cerâmicas, sabiam tecer, aproveitando até a casca do embondeiro (baobá) para produzir "panos" e de tal maneira se haviam nessa arte, que os portugueses os utilizavam em seus barcos como panos de velas.
Os agricultores negros já cultivavam os milhinhos, o sorgo, as bananeiras, os inhames e outros cultivares. Criavam suínos, caprinos, ovinos, galináceos e, segundo o africanista André Scohy sscreveu: "Já se realizavam ali eleições populares, organizando-se embriões de um contrapeso democrático ao autoritarismo feudal."

8- O INÍCIO DO COLONIALISMO RELIGIOSO - A CONVERSÃO


Em 1491, Nzinga Ntinu converteu-se ao catolicismo com o nome de D.João, mas ao passo e à medida que foi envelhecendo, retornou, paulatinamente, ao paganismo.
Ao pedir o batismo, o rei conguês tinha sido sincero. Dois filhos tinha ele: o mais velho, Mbemba a Nzinga que passou a chamar-se D.Afonso; o mais novo, Mpanzu a Kitima, que não recebeu o sacramento.
A nova religião era severa; impunha a monogamia, coisa difícil de observar. Obrigava ao respeito pela pessoa dos súbditos, condição esta ainda mais difícil, porque os reis africanos gozavam de poderes discricionários, absolutos. Impunha respeito pela propriedade alheia e proibia o uso de bebidas alcoólicas... D. João protestou, sobretudo contra o primeiro preceito (monogamia) e, pouco a pouco, foi dispensando os conselhos dos religiosos que desta forma se viram afastados da corte. O filho mais novo, Mpanzu a Kitima tornou-se abertamente o chefe de uma espécie de partido de oposição ao Cristianismo e à penetração cultural ( na verdade, colonialismo cultural embrionário...) dos Portugueses.
O príncipe D.Afonso, convertido de coração à nova religião, ao constatar que seu irmão e seu pai estavam enveredando por um caminho que ele não aceitava, abandonou a embala e exilou-se, voluntariamente na província de Sundi.
O velho rei, Manisonho ou D.João, viria a falecer não muitos anos após este acontecimento.

9- MOEDA PRINCIPAL DO REINO DO CONGO: BÚZIOS...


Tinham os congueses a sua própria moeda de troca, os célebres zimbos, búzios que abundam nas areias da restinga de Luanda considerada a "casa da moeda" do Reino do Congo. Bluteau, no seu Vocabulário, recorrendo principalmente a Dapper, estudioso da dominação holandesa em Angola, já emprega o termo "zimbo" para determinar a concha parda "pescada" no Rio de Janeiro e em Luanda que, enviada para o Congo, Songo e Pinda, no norte de Angola, exercia papel relevante na vida econômica das populações. De "O ZIMBO NA HISTORIOGRAFIA ANGOLANA" da autoria de Carlos Couto, edição do Instituto de Investigação Científica de Angola, Luanda, 1973, 48 páginas, transcrevemos as seguintes passagens:
" A ilha de Luanda, fronteira à terra firme, onde Paulo Dias de Novais fundou, em 1576, a vila de S. Paulo, que veio a ter foros de cidade em 1605, no governo de Manuel Cerveira Pereira, funcionou, durante largos anos, como "banco emissor" da monarquia conguesa.
O zimbo, apanhado ao longo da Ilha tornou-se, por dilatados anos, a pedra fundamental do edifício econômico daquela Coroa e o sustentáculo político da majestade negra. É natural que, em épocas recuadas, outros instrumentos de troca tivessem precedido a Olivancillaria nana como padrão monetário. Aliás, a teoria da difusão cultural permite-nos admitir tal hipótese. Mas, à chegada dos Portugueses, era o zimbo que circulava como unidade de troca junto das populações da costa norte."
A referida ilha era conhecida dos Portugueses desde os alvores do século XVI, em particular dos radicados em São Tomé, cujos navios lançavam ferro ao largo dela, na suja ganância do tráfico de escravos que enriquecendo os homens, empobrecia a terra; foi ela considerada pertença dos potentados congueses até meados do século XVII, data em que Angola, pela mão de Salvador Correia de Sá e Benevides, é subtraída ao jugo calvinista ( e não luterano como, por lapso, de que nos penitenciamos, escrevemos no artigo referente à Restauração de Angola em 1648) e "reintegrada"(?!), sem perda de Unidade, na Coroa portuguesa quando o soberano conguês D. António I, foi derrotado, em 29 de Outubro de 1665, por forças brasileiras (ainda era oriundo do Brasil o governador de Angola), na célebre batalha de AMBUÍLA, iniciando-se, assim, a decadência do Reino do Congo.

10- A "CASA DA MOEDA" ESTAVA CONTIDA NO REINO DOS NGOLAS


A Ilha das Cabras, como era conhecida a Ilha de Luanda, na verdade uma restinga , estava já em território do chamado reino do N´Gola (ou Angola...) que confinava no rio Dande com o reino do Congo, a norte daquele curso de água por ocasião da reconquista aos holandeses, estendendo-se até ao rio Cuanza. Estava ela na posse do soberano conguês que dali obtinha a sua moeda corrente- os zimbos; não tendo valor troca na Europa, viria a suscitar, nas operações comerciais, o pagamento de mercadorias em "marfim negro" (escravos) para Portugal, marfim, peles, a par de remessas, durante a primeira metade do século XVI, de alguns milhares de nobres e filhos de notáveis do reino como bolsistas (bolseiros, no Português da Europa) afim de ali estudarem, alguns deles se tornando eclesiásticos e destes, um se destacando: - D. Henrique, filho de D. Afonso.

11- MORRE O VELHO MONARCA. SUCESSÃO E AUMENTO DA APROXIMAÇÃO LUSO-CONGUESA... ESCRAVIDÃO, VÁ LÁ! ESCRAVATURA, NÃO...TRANSFORMAÇÃO DO REINO


1506- O velho monarca morre tendo designado como sucessor seu filho Afonso, um Negro de elite, dotado de notável inteligência e que praticava o catolicismo.
Inicia-se uma fase de maior aproximação e assimilação cultural em ordem aos europeus (Portugueses).

D. Afonso fundou em 1514 um colégio destinado aos melhores rapazes do Congo, que chegou a ter cerca de 400 alunos. Esforçou-se ao máximo por espalhar o cristianismo em todo o seu reino e combateu a idolatria. O Papa Paulo III elogiou-o abertamente num Breve de 5 de Maio de 1535, declarando que ele havia desempenhado não só o seu múnus de rei, mas também o de pastor.
Suaviter et fortiter.: Ao mesmo tempo, D. Afonso não queria comprometer o bom sucesso da sua obra com medidas drásticas de efeitos negativos. Destarte, tendo em vista as pressões da sociedade tradicional conguesa, conseguiu do Papa certas dispensas para o casamento entre parentes.
Governando com competência e dedicação, o novo rei conguês não simpatizava com comerciantes e, muito menos, com os traficantes de escravos. Relutava em consentir no despovoamento do seu reino. Favorecia a escravidão e punha fortes entraves à escravatura. E acreditava, de alma e coração, na transformação do seu reino.

Carlos Mário Alexandrino da Silva
 
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