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O QUE A HISTÓRIA DE PORTUGAL NÃO CONTA: ESCRAVOS EM PORTUGAL PARTE III

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8. - "NÓS, PORTUGUESES, NÃO SOMOS BRANCOS..."

Estávamos em Luanda. O ano: 1965...O dia:15.O mês: Junho.

O órgão oficial, semanário, da Associação dos Naturais de Angola - "ANANGOLA" publicou, sob o título em epígrafe, um artigo de nossa autoria afirmando a relação íntima de africanidade do povo português dos tempos modernos... com os povos das colônias portuguesas em África. Augusto Pita-Grós Dias, presidente da comissão administrativa daquela associação, um angolano "branco", era nosso adjunto nos Serviços de Informação Pública que então chefiávamos e tendo lido o comentário que havíamos escrito para a Emissora Oficial de Angola, pedira-nos que o autorizássemos a publicá-lo no jornal da instituição angolana já citada, de que éramos ambos sócios, pedido a que correspondemos até porque, ao tempo, nem sequer recebíamos qualquer remuneração extra pela elaboração desses comentários políticos que faziam parte das nossas atribuições específicas, até por que aquela estação radiodifusora oficial era um dos departamentos do Organismo a que pertencíamos.

Na mesma data:

A locutora Arlete Gomes Antunes, gravou mais um dos nossos comentários políticos que a dita Emissora Oficial de Angola transmitiu às 13horas sob o título "NÓS, PORTUGUESES, NÃO SOMOS BRANCOS..." no Comentário Político pelo ... (nome do autor).

Jamais nos passara pela cabeça que esse texto pudesse suscitar na opinião pública o espanto e a polémica que provocou!...

A maior parte dos colonos portugueses, dos civis e militares ditos "brancos", não aceitavam de boa-fé que neles pudessem existir genes de origem negro-africana. Ontem como hoje, a falta de autêntica formação cultural e científica imperava na maioria (Portugal, digam lá o que disserem, tal como o Brasil, prima por ter uma assustadora maioria de analfabetos absolutos e, sobretudo, de analfabetos funcionais, estes os mais nocivos ao processos de produção, em número muito mais expressivo, mas a que muitos nem ligam porque até ignoram que exista esta "classe de analfabetos"!

Os portugueses à semelhança dos brasileiros..."brancos", são preconceituosos e etnocentristas (o que no caso deles é, no mínimo, paradoxal!) achando até que... são "brancos"; mas os nórdicos e os anglo-saxónicos acham que uns e outros, a par dos "espanhóis", "bascos", "ciganos" e "similares" aos povos ibéricos (latino-americanos e norte-africanos)... são epidermicamente... "morenos"! E, como tais, inferiores (como Marx, Engels e H.G. Wells defendiam, abrangendo os eslavos nesse "lixo étnico", em seus primeiros escritos, antes de produzirem suas teses progressistas).

Era o «rácismo infravermelho» se manifestando, entre "esbranquiçados", como ainda hoje também ( incluidos os movimentos afro-brasileiros e ´"indios do Brasil" e não só entre "grupos leucodérmicos") no Brasil, onde não faltam mesmo "neonazistas melanodermes", de forma inconvenientemente embaraçosa porque, nos areópagos internacionais, Portugal afirmava a sua repulsa por qualquer preconceito étnico, religioso ou cultural, embora não faltassem ao mesmo tempo os que louvavam essa defesa do que preferiríamos chamar de "arracialidade" (conceito este inovador e mais objetivo que nos granjearia o aplauso do saudoso e distinto jornalista e nosso amigo José Manuel Pereira da Costa, que foi diretor do Diário de Luanda e do jornal lisboeta O DIA) ou seja, total ausência de preocupação ou de preconceito em termos de diferenciação de características antropológicas ou somatológicas, conceito a que sempre atribuímos maior relevância do que ao de "plurirracialidade" ou "multirracialidade" então muito apregoado pelos arautos da política governamental portuguesa da época do Estado Novo.

Dias antes o renomado jornalista João Charulla de Azevedo, proprietário do importante e conhecido semanário NOTÍCIA convidara-nos, oferecendo-nos condições muito atraentes, para assumirmos a Direção daquela publicação [emprego que só não aceitaríamos porque, sendo ao tempo Chefe dos Serviços de Imprensa, Radiodifusão, Televisão e Cinema de Angola, também denominados Serviços de Informação Pública, fomos chamado ao Palácio do Governo-Geral onde a segunda figura da Província, o Secretário-Geral Doutor Alfredo Maria de Morais Martins, nosso colega de curso superior, nos informou estar ao corrente do convite através do próprio Charulla de Azevedo, pelo que o Governador-Geral Silvino Silvério Marques o incumbira de nos solicitar que, embora tentadora a posição à frente de tão importante órgão da comunicação social , não a aceitássemos, porque, daí a meses, iria vagar o cargo de Governador do Distrito (hoje Província) de Malanje, por motivo de aposentadoria do nosso colega e Inspector Administrativo Dr. Laranjeira, havendo intenção, do governo-geral, de convidar-nos para essa função logo que vagasse, o que "facilmente" foi esquecido meses depois... quando intrigas palacianas fizeram que caíssemos em "desgraça", de maneira torpe e vil, devido às mentirosas intrigas do Diretor do CITA, Alves Cardoso, mais conhecido entre os jornalistas, que o acusavam, com razão aliás, de ser incompetente e vaidoso, por major "Cabaça" (pulido por fora e... oco por dentro). Desgraça essa que se estendeu a nível ministerial... e nos levou a pedirmos licença graciosa, isto é, sem vencimentos, deixando a função pública por dois anos. Na verdade, alguém, o nosso colega Dr.Alfredo Diogo Júnior, então Chefe dos Serviços Administrativos da EOA, envenenara o dito Alves Cardoso contra nós, dizendo-lhe que ele deveria precaver-se porque havia um plano, de Lisboa, para irmos ocupar o lugar de Diretor do Centro de Informação e Turismo de Angola, que estava sendo exercido por aquele major do estado maior que não entendia patavina do assunto ( em luanda os civis riam-se dessas nomeações de oficiais sem preparção para altos cargos civis, dizendo-se que em breve até o arcebispo teria de ser um major ou tenente-coronel do exército...). Diogo Júnior ficara invejoso porque queria o lugar de Chefe dos SIP mas não fora atendido porque, anos antes, em 1961, sendo Chefe dos Serviços de Produção da EOA, quando dos graves incidentes terroristas de 15 de Março, movido pelo pavor que dele se apoderara face às notícias tenebrosas chegadas da região do Uije (Congo) lançara aos microfones daquela estação da radiodifusão governamental uma notícia alarmante segundo a qual as hordas selváticas e assassinas de "terroristas negros da UPNA/UPA" estavam se aproximando da capital que estava indefesa, o que causou pânico na população da capital angolana, razão por que ele foi demitido das funções que exercia e, apesar de ser licenciado em História, transferido para funções de chefia apenas administrativa, das quais nunca mais sairia... Só soubemos dessa cabala ao deixarmos, por demissão ministerial em 8 de Dezembro de 1966, as funções de Chefe dos SIP, graças ao aviso reservado de um homem muito digno, aliás, descendente do brasileiro Salvador Correia de Sá e Benevides, o nobre português Tenente-Coronel da Reserva Armando de Lucena, já idoso, Chefe dos Serviços de Turismo e Indústria Hoteleira, que tempos antes, no gabinete do major Cabaça, assistira a essa conversa do Dr.Diogo com o seu directo superior, donde a perseguição que este, temendo que viessemos a substituí-lo em breve, desde o início nos movera procurando dificultar o cumprimento da nossa missão e opondo-nos múltiplas dificuldades que não entendíamos por que nos atingiam, com prejuízo do organismo dos serviços!..

Charulla de Azevedo, talvez pretendendo agradar-nos, gravou e transcreveu, na íntegra, em Página Nobre, o referido comentário "sensacionalista" dando-lhe o mesmo título...
Também a imprensa diária e outros órgãos da comunicação social citaram com destaque e impacto psicológico esse comentário radiofónico, em que, sintetizando quanto atrás se disse já neste modesto texto, concluíamos que, não havendo outrora, ao tempo dos descobrimentos e das conquistas ou contactos com povos africanos, anticoncepcionais; não tendo sido detectados genocídios de negros na ocidental praia lusitana, nem se conhecendo a arte dos abortos cirurgicos; considerando a manifesta convivência e miscigenação evidenciadas por exemplo na Ribeira das Naus, ali ao Cais do Sodré de hoje, a nível das classes sociais mais baixas (e não só), entre negros e "brancos"; face às populosas confrarias ou bairros africanos e ao que se dizia no Cancioneiro Geral de Garcia de Rezende; tendo-se em conta o parecer do humanista flamengo Nicolau Clenardo; não constando que os escravos negros, de ambos os sexos, fossem todos inférteis ou castrados e não tivessem deixado descendência ou não houvessem se miscigenado com portugueses leucodermes ao longo dos séculos decorridos desde o ingresso em Portugal dos primeiros negros africanos (e não só estes, conquanto fossem estatisticamente em número mais significativo do que os indianos, mouros, chineses, malaios e basilíndios) ou que tivesse sido proibido o conúbio dos mesmos com escravos brancos (que também os havia em grande número), e sendo no século XV pouco superior a 1 milhão de habitantes a população portuguesa [havendo exemplos, como o do marquês de Pombal, de mestiçagem euro-africana até nas classes altas, ou nobres], podia se justificar aos olhos da ONU ou de qualquer outra fonte contestatária ao Direito dos lusos de estarem em África como em casa própria, que, afinal, não havia portugueses "brancos", nenhum deles podendo asseverar a não existência de negros ou negróides nos seus ancestrais decorridos quase 500 anos sobre sucessivos cruzamentos entre pessoas residentes no Reino de Portugal e dos Algarves...

Nos musseques ou favelas, logo os negros e pardos colaram nas paredes das casas ou barracos, do "bidonville", grandes letreiros - e até os títulos, a grandes parangonas, das páginas dos jornais, destacando "NÓS, PORTUGUESES, NÃO SOMOS BRANCOS..."- fazendo assim alarde de que, afinal, os "brancos"... "não eram mesmo brancos"!... mas "iguais" a eles, na origem... amulando-se psicologicamente as "diferenças".

Nessa data, à noite houve na residência do cônsul-geral de Sua Majestade Britânica, um "cocktail" [a que em Angola eufemisticamente se chamava de "pôr-do-sol"], durante o qual fomos abordados por várias personalidades, portuguesas e estrangeiras, que haviam ouvido a transmissão do nosso comentário pela EOA ou lido a reprodução no jornal ANANGOLA e no semanário NOTÍCIA com um comentário apologético do então Editor e Proprietário Charulla de Azevedo, jornalista de grande reputação nacional, ou ainda os comentários e críticas publicados na imprensa luandense: uns para nos felicitarem pela coragem da afirmação estereotipada e outros para nos fazerem reparos ou oporem dúvidas, salientando-se, dentre estes, o notório e melifluo representante da CIA em Angola, ou melhor, o cônsul-geral dos Estados Unidos da América Mr. Harvey Sümm, que dominava perfeitamente a língua portuguesa pois fizera grande parte da sua carreira diplomática no Brasil onde casara com uma secretária brasileira, a Senhora de Summ, mais conhecida por "Zézé". Esse sr. Harvey, que meses depois, devido às suas freqüentes deslocações com a mulher, aos fins-de-semana, à cidade de Malanje, onde se fazia tráfico de "feijão branco", tornar-se-ia suspeito aos responsáveis da PIDE- polícia política portuguesa- ( de que vários, a par de alguns oficiais do Exército, também se dedicavam a esse... "smmugling") como provável "traficante de diamantes em bruto" (o que em Angola era "crime"), em virtude da concessão pelo Poder Público Português da exclusividade, por 99 anos que terminariam no final deste século, de prospecção, exploração, propriedade e posse de diamantes-gema, não lapidados, à Anglo-American - Grupo De Beers - sob o nome de Companhia de Diamantes de Angola, com instalações no DUNDO, Província da Lunda, Leste de Angola), aproximou-se de nós e aludindo ao nosso texto, perguntou-nos zombeteiramente se estávamos pretendendo, dessa forma, legitimar o direito de permanência dos portugueses em África, ao que lhe retorquimos: "E por que não, se efectivamente é essa a indesmentível situação genética dos portugueses de hoje quanto à sua miscigenação étnica? Será que nos Estados Unidos os senhores podem afirmar o mesmo em relação à sua relação étnica com os chamados "peles vermelhas", ali confinados ainda hoje em "Reservas" ? Indubitavelmente fomos pouco cortezes na abordagem da resposta interrogativa que disparamos contra o nosso interlocutor - judeu americano...-, mas era o que ele, cujos adjuntos se infiltravam com seus potentes veículos TT nas matas em busca de contactos e espionagem descarada ou nos musseques fingindo-se amigos dos negros, não movimentos por sentimentos monrovicos mas sim por um abusivo sentimento de imiscuição nos assuntos internos dos outros povos que sempre tem caracterizado os políticos de certos países das ... mal batizadas "Américas"! Essa nossa atitude parece ter enfurecido o dito diplomata ianque que, a partir dessa altura, não mais nos convidou para os seus "pôr-do-sol" na residência oficial da representação ianque em Luanda...

A CIA, a WHITE HOUSE e o AMERICAN COMMITTEE ON AFRICA tinham na UPA/UPNA/FNLA de Holden Roberto o seu "brinquedinho", a sua "agência" para o "problema angolano", tal como o KREMLIN soviético tinha o "seu" MPLA, para efeitos similares... Hoje, o leque de interessados nos assuntos internos da África NEGRA, abriu-se mais mas eles, os ianques, continuam "dominando" a situação sempre em nome da "igualdade dos povos" e da "democracia" que eles próprios e seus "governos auxiliares" da América Ibérica (só na cultura e nos maus hábitos) não aplicam dentro de suas fronteiras... (os EUA são, na realidade histórica, um "império colonial" com o "seu" Hawai, o Alasca, Porto Rico, Guantanamano, as ilhas Virgens, California, Texas, Novo México, Colorado, e os estados do Sudeste de expressão francófona... não esquecendo os centros de atração turística, a que os os senhores da casa Branca e do Congresso eufemisticamente denominam de Reservas dos Índios que podem, com respeito pela verdade, assemelhar-se a "campos de concentração" como o da PIDE em São Nicolau, província do Namibe outrora Moçâmedes, no Sudoeste de Angola...

Pouco depois, em "ANGOLA- CLÉ D´AFRIQUE" (tradução inglesa "ANGOLA-KEY OF AFRICA", editada em New-York,USA) e tradução portuguesa " ANGOLA- CHAVE DE ÁFRICA" (VALAHU, Mugur, 1968, Parceria A.M.Pereira, Lda, LISBOA, Portugal), o jornalista e escritor romeno, doutorado em Direito nas universidades de Paris e de Bucareste, ex-director do hebdomadário romeno «Cortina», redactor e locutor na Radio Française, na BBC e na Rádio Free Europe, naturalizado norte-americano e residente em França, Doutor MUGUR VALAHU, "free lance", referiu-se ao mesmo texto, a páginas 120, da seguinte forma:

"Quanto aos Portugueses, o que pensam da mestiçagem leva-os a considerar a sua raça como um fenômeno único. No jornal «Anangola» de 15 de Junho de 1965, o editorial, assinado por um alto funcionário português, Dr. Carlos Alexandrino da Silva, intitulava-se: «Nós, Portugueses, não somos Brancos». Recordando a complexidade da Nação Portuguesa, o autor orgulhava-se do sangue africano que lhe corria nas veias, considerando, como Julian Huxley, que o cruzamento enriquece a espécie humana. Até este dia, nenhum povo Branco ousou contestar a sua «brancura» como acaba de fazer este Português»

Carlos Mário Alexandrino da Silva
 
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