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Andar de bicicleta: um princípio ético!

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 Que momento bizarro estamos vivendo. Na nossa mera opinião que, segundo a Filosofia, não tem valor de conhecimento nem de verdade, tudo se vincula à infância, sobretudo naquela áurea época em que aprendíamos a andar de bicicleta.Meu pai trabalhou para um senhor que não tinha dinheiro para pagá-lo e lhe ofereceu, pelo serviço realizado, duas depenadas bicicletas azuis. Eu e o meu irmão, Márcio, ficamos felizes. Mas, como aprender a andar de bicicleta montado em algo, como diria Platão, desprovido das reais qualidades de uma verdadeira bicicleta? Nossa sorte é que tínhamos um excelente irmão mais velho, o “João”, que dava um jeito para tudo. Certo dia, João cismou de nos ensinar a andar de bicicleta; para ele, este ato significava ter equilíbrio na vida, era superar o segundo desafio humano, pois, o primeiro, foi suplantado na infância, pela persistência de nossos pais e irmãos, que nos treinaram para substituir o ato de gatinhar para que andássemos firmemente com os próprios pés; andar de bicicleta, portanto, era superar a fase da dependência dos progenitores e protetores, denotava transcender os desafios da vida, sustentados em algo que tínhamos o controle, desde que aprendêssemos com os erros, com os tombos e machucados, e mantivéssemos a humildade e paciência. João era persistente. Ademais, nosso objetivo era mais difícil de ser alcançado, pois a nossa bicicleta só tinha quadro, um pedal, corrente, um guidão torto e dois aros sem pneus!

Fomos na Rua 13, do Jd. Alvorada, na periferia de Sumaré/SP, Brasil, sem asfalto, porquanto o meu irmão dizia que se caíssemos, o sofrimento seria menor. E ele nos fez uma condição. Só faria quatro tentativas. Aprenderíamos a equilibrar e a perder o medo do tombo ou perderíamos o instrutor.

Na primeira tentativa, o Márcio foi para o mato e voltou mancando; vendo os erros dele, percebi que tinha que inclinar o meu pé no único pedal e, para contrabalançar, lançar o corpo, quase 23 Kg., para o outro lado. Essa tentativa teria sido um sucesso, senão fosse novamente aquele malfadado mato. Tínhamos mais três tentativas.

Na segunda, o Márcio caiu e chorou: “Não quero mais andar de bicicleta!”. João me perguntou se eu iria. Lá fui eu. Ele me empurrou com tanta força que não tinha como cair, bastava se equilibrar, e eu consegui. Só não entendi, aos meus 5 anos, o porquê que a bicicleta não parou e por qual razão eu saí daquela rua e fui cair num canteiro de obra da Avenida Rebouças; depois me explicaram que na vida tudo tem que ter freio, inclusive a bicicleta.

Que maravilhoso seria se os novos deputados federais e estaduais, senadores, governadores, além dos Ministros da República e do Supremo Tribunal Federal, tivessem aprendido a andar com a nossa bicicleta, tendo nosso irmão como instrutor. Não teriam tempo para os permanentes equívocos de outras legislaturas nem desperdiçariam as poucas possibilidades de transformação da vida de nossa gente simples. Sabendo se equilibrar, evitando, em todo o tempo, os excessos ou as faltas, como propôs Aristóteles, a vida de nosso povo seria menos triste e difícil.

Errar é humano, já confirmava o adágio popular; insistir no erro, como diria os existencialistas, é desejar ser mais humano que os demais seres. George W. Bush, por exemplo, saberia quando parar; bastaria usar racionalmente os freios do ego e do ufanismo do “american way of life”; sunitas e xiitas, no Iraque, entenderiam que o perfeito equilíbrio provem do par de pedais e que não adianta querer conduzir uma bicicleta sem proporcionar a justa distribuição do peso, altura, volume e do medo...

Ora, pedalar como certos jogadores de Futebol é fácil, sobretudo quando há adequadas condições sócio-econômicas; quero ver pedalar, como os meus 2000 estudantes da Região Metropolitana de Campinas, atrás de uma oportunidade de emprego, de uma bolsa universitária, da realização de tantos sonhos, tão maravilhosos quanto justos, sem ter uma “bicicleta”. Não obstante, todos esses "matos" fazem parte da "rua sem asfalto" que, quando aprendemos a equilibrar, independente das políticas ambíguas nacionalistas, alcançaremos um lugar na "Avenida", nem que seja na sarjeta machucado, mas o essencial terá sido atingido: obteremos a vitória pelo incentivo alheio e pela autoconfiança, embora nem sempre a vida nos dê pneus... BENEDITO LUCIANO ANTUNES DE FRANÇA (BENÊ FRANÇA) – 34 anos. Mestre em Filosofia. Professor de Filosofia da Faculdade de Tecnologia de Americana (FATEC – Americana/SP), e Professor Titular de Filosofia da EE João Franceschini, pela Secretaria Estadual de Educação, em Sumaré/SP, Brasil, onde reside.
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