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Conto da Criacao dos Acores

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Conto da Criação dos Açores
(Conto inédito)

Em tempos que já lá vão, tempos antes de todos os tempos, quando o mundo estava cheio de fadas e duendes, náiades e gnomos, por todo o lado haviam vibrações, ondas de luminosidade que, ora refulgiam, ora se esvaneciam num bailado vivo de luz, cor e música. Tudo luzia, tremeluzia, maravilhava.

Nessa altura não haviam nem sol nem estrelas ainda, mas uma fonte de luz permeava toda a existência em tons de vitalidade mágica. Essa luz entranhava-se por todo o lado de uma forma difusa, um mundo de brumas encantadas. Ondas maravilhosas de vibrações tudo criavam, sustentavam ou tornavam visível. Era um mundo encantador.

Num dia desses, alguém numa voz maviosa chamou, “Meninos, meninas, venham aqui!”
Uma senhora toda vestida de luz chamava seus filhos, que eram nove.
“Filhos, filhas onde é que vocês estão metidos?”
“Aqui, Mãe, aqui!”
Um grupo de crianças, cada vestida de uma cor diferente, apareceu. Vinham sorridentes. Uma vestia de amarelo, um outro vestia verde. A terceira vestia lilás, ao lado dela um vestia castanho, por detrás, outro vestia de azul. Ao meio, um mais alto vestia cinzento. Uma criança muito graciosa vestia branco. Mais retirada, apareceu uma vestindo cor-de-rosa. Trazia pela mão um menino vestido de veludo preto. Eram crianças bonitas, alegres, fortes e rosadas.
“Onde estavam vocês?”
“Brincando,” responderam eles quase
em uníssono.
“Brincando
… vejo. Sabem, tenho que ir numa volta. Vocês fiquem aqui, mas daqui não se sai! Entenderam? Eu vou, mas vocês saibam que os terei de vista o tempo todo. Sabem disso, não é?”
“Sim mãe, sabemos.”
“Pois bem, até logo! Eu volto. Comportem-se, está bem?”
“Está bem, Mãe.”
Sentados no areal de luz, os meninos e as meninas puseram-se a brincar com os grãos de areia que luziam quais lantejoulas. Juntos, trauteavam uma canção que gerava ondas de luz:

Areia, areia, da cor do marfim
Areia, areia, fina qual farinha
Areia mil grãozinhos pequeninos assim
Areia cor de oiro e prata, quentinha

Atiro a ti e tu atiras a mim
Uma mão cheia de areia, de areia cristalina
No ar que belo como tremeluz assim
Cada grão de areia virada a estrelinha



A certa altura, apareceu por ali um deus, todo vestido de azul. Os seus olhos eram de um azul-marinho e os seus cabelos de um louro cor da espuma do mar.
“Posso juntar-me a vocês?” perguntou o deus.
“Sim,” responderam-lhes os meninos; “Como te chamas?”
“Poseidon é o meu nome.”
“Quem te mandou para aqui?”
“A vossa Mãe foi quem foi.” Respondeu-lhes o deus.
“Queres brincar connosco, Poseidon?”
“Sim, mas vocês que esperem, porque não constroem mundos de areia em vez de a atirar para o alto?”
“Que linda ideia, exclamou Maria. Eu sou a primeira.”
“Eu o segundo,” gritou Miguel acocorando-se no areal e começando a sua tarefa de construir seu mundo de areia.
“Sou a terceira, mas hei-de ser a primeira a acabar,” juntou-se-lhes a Terceira.

Daí, começaram todos a erguer montes e vales, ribanceiras, serras, lagoas, belezas sem fim. De vez em quando um dos meninos ia e por brincadeira atiçava um dos irmãos ou irmãs. “O meu mundo é mais bonito do que o teu,” dizia um;
“ Não é, o meu é o melhor.”
“São todos bonitos, estão todos a fazer mundos maravilhosos,” respondia-lhes Poseidon, para que houvesse harmonia entre todas as crianças.
“Porque não nos ajudas?” sugeriu Miguel?
O deus Mar acedeu e agachou-se junto às crianças para as ajudar.
“Venha aqui Mar, venha aqui Mar. Ajude me a mim,” gritava a Terceira.
“Não, Mar, eu e que preciso de ajuda,” choramingava o Corvo.
“Ora, vocês que se ajudem uns aos outros,” sugeriu o Mar, “ Tu Miguel, ajuda Maria; Terceira, Graciosa e Jorge porque estão mais perto uns dos outros, ajudem-se entre si. Faial ajuda o Pico que é o mais novinho. Tu, Flor ajuda o Corvo que está mais perto de ti e é o mais pequeno. Miguel, ajuda os outros pois parece que já acabaste e não tens mais que fazer.”
“Eles que se ajudem a si próprios,” resmungou Miguel. “Eles que façam o que eu fiz.”
“Não vês que não são tão fortes e tão ágeis como tu? Tenta ajudá-los.”

Estavam tão concentrados na sua criação que não notaram que um touro e um dragão tinham de súbito consubstanciado. Ambos encetaram uma batalha horrível. O Dragão exalava uma fumaça espessa. A certa altura uma coluna de fogo atingiu cada mundo que as crianças haviam construído, solidificando-os e queimando-os. A areia que era antes bonita e clara tingiu-se de cinzento. Tudo virou a lava e basalto; espezinhado pelo dragão e o touro cada mundo ruiu e perdeu a beleza original. Os meninos e as meninas esconderam-se atrás de uns rochedos por ali perto, estarrecidos. O mar abraçava-os, tentando protegê-los.

Entre estrondos fenomenais e erupções horrendas a batalha entre o touro e o dragão continuava, isso tempo sem fim.

Umas vezes, o Touro investia contra o dragão; outras vezes, o dragão avançava expelindo fogo das suas entranhas e incendiando tudo à sua roda. Devido a essa batalha tudo em redor atingiu um aspecto desolador. Cheirava a enxofre; a terra ardia e um lamaçal espezinhado e ardido surgia onde as crianças haviam brincado.

O Touro por sua vez ora investia contra o dragão, ora investia contra Poseidon, que entretanto tinha tomado a sua capa azul e tentava afastar ambos os monstros para longe dali.

Rugindo entre estrondos medonhos e colunas de fogo, os dois monstros seguiram o deus Mar. Esse trepou uma falésia que se erguia sobre uma enorme fenda. Ao fundo, bem no fundo havia um vácuo; um terrível vácuo.

Arfando e baixando os seus chifres aguçados que nem agulhas, o touro investiu contra o deus Mar. Da mesma forma o Dragão entre colunas de fogo e fumo avançou sobre ambos.

Quando ambas as feras estavam prestes a cair sobre o deus mar, este último, usando da sua magia lançou-se pela fenda dentro.

No mesmo momento transformou-se num imenso oceano que era, o deus Neptuno. A sua capa azul transformada num enorme vagalhão cobriu todo o areal. À superfície da água ficaram somente as criações das crianças. Uma enorme cascata num turbilhão ruidoso inundou a fenda que levava ao vácuo. Um remoinho de mil águas em estrondos espectaculares irrompeu pelo abismo dentro.

O touro, que não era outro senão Júpiter, seguindo o deus Mar, cegamente tombou pela enorme fenda abaixo. Conforme caiu, toda a realidade virou ao avesso. Houve um grande estrondo e o universo todo despenhou-se com ele no abismo. O dragão que lhes seguia transformou-se em puro fogo e os três eclodiram num colapso total como alguém que houvesse batido palmas para que houvesse… luz.

De um momento para o outro, conforme tudo se precipitava no vácuo, à velocidade da luz, toda essa realidade mágica passou à realidade da matéria bruta como a conhecemos. Em segundos todas as criaturas de luz e encanto; todas as vibrações e fulgor divino dessa realidade ficaram presas das coisas. Uma espessa neblina de partículas cobriu o mundo todo e quando se tornou a dissipar surgiram as galáxias e as estrelas. O mundo tornou-se num mundo em queda vertiginosa através do espaço.
“Mãe, gritaram as crianças! Mãe!”
Surgiu o Sol, a sua Mãe, que logo fez com que cada criança caída no vácuo orbitasse em seu redor. Á noite a sua luz, a luz do luar inunda o mar e aconchega cada criança para que durma.

O Dragão impulsionado para o alto ficou gravado entre as constelações da Ursa Maior e da Ursa Menor. O Touro gravado ficou na constelação de Touro junto à de Orião, o caçador mágico.

Livre do touro, o deus Mar, que não é outro senão Neptuno, banhou toda a mágica praia, mas já não pôde mais transformar-se em quem tinha sido. A fenda, não passa do oceano Atlântico que separa os quatro continentes que são a Europa, a África, a América do Norte e América do Sul.

As armações feitas pelas crianças transformaram-se em ilhas que o Mar abraça e protege. As crianças transformaram-se em seres de bruma, nuvens que em lhes iluminando o Sol se transformam em estratos multicores como se auroras boreais se tratassem. Vestem ainda amarelo, verde, lilás, encarnado (castanho), azul, cinzento, branco, cor-de-rosa, negro, que são também as cores dos arrebois maravilhosos que se vislumbram nos Açores. Outras vezes são os arco-íris que surgem como se a brincar entre as nuvens quando chove e faz sol ao mesmo tempo. O mar sabe que esses arco-íris não passam das nove crianças a brincar com arcos de luz.

De vez em quando ora ventos, ora tremores de terra, ora fogo surgem entre elas a lembrar aquele dia em que do nada se fez tudo e tudo se fez ao nada. Os cagarros são aquelas aves que vêm do mar e parecem relatar o princípio da toda a existência com o seu grito sem fim que parece dizer “é água, é água, é água!”

Silvério Gabriel de Melo

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