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Em tempo de férias pus-me a ler livros com 100 anos de existência, de gente que pensava Portugal e que vivia amargurada com a situação do país.

 

Um desses livros é do grande Manuel Laranjeira, homem íntegro, médico dotado de um saber enciclopédico e de uma cultura literária e artística impressionante, tão esquecido dos nossos actuais académicos e intelectuais. E o que dizia este homem permanentemente insatisfeito com a pequenez da sociedade em que vivia em 1907? Que “ somos um povo civilizado na aparência, porque a negra realidade é que quatro quintos da população nem sequer sabe ler ou escrever.” Hoje, o analfabetismo diminuiu drasticamente mas a iliteracia que por aqui campeia, como vários estudos o tem demonstrado, não será o seu equivalente actual? Continuemos a leitura: “Vestimos à moderna, pretendemos viver à moderna, e pensamos e sentimos à antiga. Somos um povo pertencendo pelo aspecto aos tempos dos Direitos do Homem e pertencendo, na verdade, pelo espírito, aos tempos da pedra lascada.” Arrepia-nos pensar que, deixando de parte algum exagero, não evoluímos desde então, assim tanto espiritualmente! Quando passamos à política pura e dura as semelhanças fazem-nos corar. Vejamos: “A nossa vida política, económica e moral, não tem sido senão uma série lastimosa de actos de egoísmo individual impondo-se despoticamente ao egoísmo colectivo, ao interesse da Nação e subjugando-o.” Muito mais diziam homens como Manuel Laranjeira naquele dealbar do século vinte. Numa espécie de premonição do que lhe iria também “acontecer” deixa-nos estas palavras para meditarmos em tempo de férias e de campanhas eleitorais que se avizinham: “… numa terra onde homens de génio, como Antero de Quental, Camilo e Soares dos Reis, têm de recorrer ao suicídio como solução final duma existência de luta inglória e sangrenta; numa sociedade, onde o pensamento representa um capital negativo, um fardo embaraçoso para jornadear pelo caminho da vida; …num país, onde a inteligência é um capital inútil e onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos – o diagnóstico impõe-se por si. O desalento e a descrença alastram. No ar respira-se cepticismo.”

Dizem que pouco tempo antes de ter posto termo à vida terá dito, a quem o interpelava sobre a situação do país, que “este Portugal está de tal maneira que o que nos resta é estar calado”. Escolheu o pior dos silêncios talvez por adivinhar que cem anos depois as coisas, na sua essência, não estariam muito diferentes, como se veio a provar!

José Dias Egipto

3.Ago. 2009

 


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