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Marota Maria

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Maria, a Esperta

Adaptação inédita de um conto da Checoslováquia  da  Manka, a Esperta  Havia numa certa freguesia na Checoslováquia um camponês sovina e desonesto. Andava sempre a enganar e a burlar os seus vizinhos. Um dia prometeu dar uma vaca a um pastor seu vizinho para uma série de tarefas que encarregou de cumprir. Depois do serviço feito, o camponês despachou-se do pobre pastor com uma desculpa qualquer e não lhe entregou a vaca como havia prometido. O pastor não tomou mais medidas, foi daí e dirigiu-se ao novo presidente da junta de freguesia para resolver o caso. O presidente da junta de freguesia sendo um jovem inexperiente escutou os dois lados do conflito e depois de uns momentos de reflexão, respondeu-lhes, “ eu não irei decidir este caso. Em vez disso dou-vos uma adivinha com quatro respostas para resolverem. Aquele que tiver a melhor resposta fica com a vaca.” O pastor e o camponês concordaram. O presidente da junta de freguesia então expôs as adivinhas, “Ora bem, aqui estão as adivinhas: Qual é a coisa mais veloz do mundo? Qual é, a coisa mais doce do dia à dia? Qual é a coisa mais rica que há? Qual é a coisa que quanto mais dá mais fica? Pensai bem e vinde trazer-me a resposta amanhã à mesma hora. Estamos combinados, agora ide, deixai -me em paz!”  O camponês foi para casa furioso. Quanto mais pensava nas adivinhas, mais furioso ficava, porque não conseguia dar tafulho às respostas. “Que género de presidente de junta da freguesia é este homem?” rezingou entre palavrões. “Se ele me tivesse deixado ficar com a vaca, eu ter-lhe-ia enviado um cesto de figos de figueira, mais batatas e feijão, agora, figas…” e rogava uma séria de coriscos a quatro. Chegou mesmo a dar um pontapé mal-humorado contra um gato que se lhe atravessou no caminho.  Ao vê-lo assim tão perturbado, a esposa perguntou o que estava a acontecer. Ele explicou que o novo presidente da junta de freguesia andava agora a resolver os seus casos com adivinhas. O último presidente da junta de freguesia ter-lhe-ia deixado ficar com a vaca e mandado à fava aquele palerma de pastor, mas o novo presidente da junta, não.  “O, homem, diz-me lá do que constam as adivinhas?” O homem partilhou as adivinhas com a esposa, que logo lhe afiançou que tinha as quatro respostas, que eram até muito fáceis. Primeiro, “a nossa égua Parda é a mais veloz do mundo. Olha ninguém lhe passa à frente quando vamos pela estrada.” Segundo, “ o nosso mel, Manuel, não é o melhor e do mais doce do mundo?” Terceiro,” o teu cofre, Manuel, não é o dos mais ricos aqui da terra? Tu já vens a poupar dinheiro há quarenta e tal anos. Tem que ser o tesouro mais rico do mundo, e quarta e última, bem, deve ser a nossa fortuna, pois quanto mais desejamos, mais temos.” “O mulher, tu és um tesouro. Está claro que tens razão. A gente vai mas é ficar com a vaquinha e o tolo do João fica a ver bugalhos. Ah, agora, sim, até me sinto muito, muito melhor! O, mulher, tu tiraste-me um peso de cima das costas!”  Enquanto isso o pastor chegou também a casa. Ele tinha uma filha muito esperta que se chamava de Maria. Ela foi ao encontro dele e perguntou, “Então, pai o que foi que o presidente da junta de freguesia lhe disse?” O pobre pastor encolheu os ombros e retorquiu, “Acho que vamos é mesmo perder a vaquinha; não há maneira nenhuma de eu atinar com as respostas às quatro das suas perguntas,” e explicou o que tinha acontecido. A filha pediu para que ele lhe contasse a adivinha. Ele assim fez. No outro dia ele partiu direcção à câmara. A filha indicou-lhe o que havia de responder. Quando chegou, já o camponês ali estava. Esfregava as mãos de contente e ria-se de uma forma descarada para o pastor, como se já tivesse ganho a acção.  O presidente da junta de freguesia chegou, sentou-se, repetiu a adivinha e pediu para que um deles lhe fornecesse de imediato as suas respostas.  Senhor de si, o camponês avançou “Ó, meu senhor, então é a coisa mais fácil deste mundo. Primeiro, trata-se de certo da nossa égua Parda, Não há cavalo algum assim veloz como ela. Nenhum lhe passa à frente, não senhor. Quanto ao mais doce. Ó Senhor doutor, então já provou do nosso mel? Não há nada mais doce do que o nosso mel. Assim dizem todos quando o provam. Quanto ao mais rico, o senhor doutor sabe que o meu cofre, o meu cofre deve ser o mais rico desta terra, pois já estou a amealhar dinheiro há quarenta anos, sem nunca de lá tirar um centavo. É dos mais ricos do mundo, lhe afianço. Quanto à ultima pergunta, deve ser a minha fortuna, pois quanto mais poupo, mais tenho. É isso senhor doutor, é isso.” De seguida dando uma olhadela de soslaio para o pastor dirigiu-lhe um risinho escarninho e voltou a sentar-se no seu banco. “E tu, então que dizes?” interpolou o presidente de junta de freguesia. O pastor agarrado ao seu boné, fez uma vénia e respondeu, “Bem, Senhor doutor, a coisa mais veloz do mundo deve ser o pensamento. O pensamento pode num abrir e fechar de olhos atravessar o universo. A coisa mais doce do mundo deve ser, bem, o dormir, especialmente depois de um dia de trabalho árduo, ou de muito pensar, faz bem dormir. Até para quem está triste não é o sono uma doce bênção? Não dormir é uma tortura; quem não dorme fica mal disposto; torna-se azedo e ríspido. Ninguém dormiria se fosse amargo fazê-lo. Quanto ao que é mais rico do mundo, diria a terra, pois é da terra que vem toda a riqueza do mundo. Até nós somos feitos de pó e ao pó havemos de voltar, quanto ao que mais de si dá mais tem, pensando bem, é de novo o pensamento pois que quanto mais de si dá, mais de si tem.”  O presidente da junta de freguesia levantou-se e exclamou, “ muito bem, muito bem, sim, senhor. A vaca vai para si.” “Como, assim? Gaguejou o camponês? Espere aí, veloz, o pensamento? Doce, o sono? Rico, o pó? O Pensamento? Ora, como é isso?  O presidente da junta de freguesia correu para o pastor e cumprimentou-o. Agora diga-me, quem o ajudou com as respostas? Estou certo que teve uma ajudinha, diga-me lá a verdade.” A princípio, o pastor não quis revelar a verdade, Mas depois, como o presidente da junta de freguesia insistia lá lhe revelou que tinha sido a sua filha Maria que era muito esperta. O jovem presidente da Junta de freguesia para experimentar a esperteza da tal Maria, mandou que lhe trouxessem uma dúzia de ovos. Quando lho trouxeram, ele entregou ao pastor e disse, “ Diz à tua filha que eu quero ver amanhã os pintainhos que saírem destes ovos hoje. Quando o pastor chegou a casa contou o que tinha acontecido e quando entregou a filha a dúzia de ovos, ela riu-se e tomando sementes de trigo deu ao pai e mandou-o de imediato para o presidente da junta de freguesia. “Pai, diga-lhe que a sua filha lhe envia estes grãos de trigo para que ele as semeie. Se ele semear estas sementes, as fizer germinar e ceifar hoje mesmo, eu enviar-lhe-ei os doze pintainhos que sairão deste ovos, para eles irem comer o grão de trigo que delas crescerão amanhã como desejado. Quando o pastor entregou as sementes e explicou o que a filha lhe tinha dito, o presidente da junta de freguesia riu-se divertido e disse, “Se a sua filha é tão bonita como esperta, eu casarei com ela. Diga-lhe que ela me venha ver, mas não venha nem de noite, nem de dia, não venha a cavalo, nem a pé, não venha nem vestida, nem despida.”  

 Quando Maria recebeu a mensagem esperou até de madrugada, quando já não era noite, mas não era dia. Ela cobriu-se com uma rede de pescador, não estando nem despida, nem vestida e colocou-se sobre uma cabra, com um pé por cima e um pé no chão, estando nem a cavalo, nem a pé. Assim se dirigiu ao escritório do presidente da junta de freguesia. Quando lá chegou, explicou, “ Senhor doutor, aqui me tendes. Não é já noite, mas também não é dia, não estou despida, nem vestida, não vim a cavalo, nem a pé, e aqui me tendes.” 


 O presidente da freguesia ficou maravilhado com a beleza e esperteza dela e tratou logo do casamento.  Casaram-se. O presidente da junta da freguesia a certa altura avisou a esposa que ela nunca se deveria intrometer nas suas decisões. No dia que o fizesse voltaria para o seu pai. Um dia, em que o presidente da junta da freguesia estava mais aborrecido, vieram ter com ele dois camponeses para que ele resolvesse uma disputa. Um deles afirmava que a sua égua tinha dado á luz um potro. O potro correu para debaixo da carroça do outro. O dono da carroça mantinha que o potro era seu, que o potro tinha sido encontrado debaixo da sua carroça e portanto ele é que tinha direito a esse potro. Aborrecido, o presidente da junta de freguesia concordou com o dono da carroça e deu-lhe o avante para que ficasse com o potro. Quando o dono da égua ia a sair da casa do presidente encontrou-se com a esposa desse, que indagou o porquê de ele estar tão triste. A esposa envergonhou-se da decisão do marido e pediu desculpa. Virou-se para o camponês e disse-lhe, “Olhe, venha hoje à tarde com uma rede de pescador e estende-a no chão. Quando o presidente da junta o vir, virá ao seu encontro e indagará sobre a razão de colocar uma rede de pesca no meio da rua. Responda-lhe que está a pescar. Ele perguntará onde irá encontrar peixe no pó de uma estrada? Diga-lhe que é tão fácil pescar peixe numa estrada, como fácil é para uma carroça dar à luz um potro. Tudo decorreu como previsto. O presidente da junta de freguesia caiu em si e pediu desculpa, determinando que o potro lhe deveria ser entregue. A seguir ele perguntou quem o tinha ajudado a fazer o que ele fez. O camponês ao princípio não queria revelar a verdade, mas dado a insistência do presidente da junta de freguesia, lá admitiu que tinha sido a esposa desse. O presidente da junta de freguesia ficou furioso. Foi ter com a esposa e fez-lhe lembrar que ela não se deveria ter intrometido em nenhuma das suas decisões, boas ou más. “Olha, tomas as tuas coisas e parte para o teu pai! Prometido é prometido! Podes, contudo, levar do que mais gostas desta casa. Agora parte!” Maria aceitou tudo com muita calma, mas pediu que só partiria depois de um bom jantar juntos. Afinal ela queria que partissem como amigos e não inimigos. O marido acedeu e ela pôs-se a confeccionar os melhores pratos que sabia que ele gostava. Seguiu-se um lauto banquete. O presidente da junta de freguesia comeu até mais não poder. No fim do jantar adormeceu. Tão profundo foi o sono, que nada o conseguiu acordar. Foi nessa altura que Maria ordenou que o colocassem na carruagem. No dia seguinte, quando o presidente da junta de freguesia acordou viu-se na casa do sogro. Levantou-se furibundo, “Então o que quer dizer isto?”  Muito simples, deste-me o consentimento de trazer o que eu mais queria ou gostava da casa. Pois, sabei que o trouxe porque o que eu mais queria e gostava da casa era a vós. Obedeci às suas ordens. O que há de errado nisso? "O presidente da junta de freguesia olhou para ela atónito e confessou “Vós sois mesmo o máximo! Pronto, ganhais. Sois realmente muito inteligente. Eu peço perdão por tudo e voltemos. Eu prometo acatar o vosso sentido de justiça e de me aconselhar convosco. De agora em diante nunca mais nos separemos. Prometo.” Assim, eles voltaram para a carruagem e ao seu lar. Nunca mais houve desentendimentos entre ambos, já que se aconselhavam e respeitavam mutuamente, também respeitavam e eram justos para com todos em seu redor.  O camponês avarento com a senilidade repetia muitas vezes a formula, “Veloz como o pensamento, doce como o sono, rico como a terra? Quanto mais dá mais fica?” “Rico como o sono, doce como o pensamento, veloz como o pó ou será, veloz como o sono, rico como o pensamento e doce como o pó?”  Que a lição fique que mais esperto é quem mais humilde e justo seja.  Silvério Gabriel de Melo  Adaptação de um conto checoslovaco
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