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A Mosca

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A Mosca

Adaptação de um Conto Chinês

 Toda gente na aldeia conhecia o emprestador de dinheiro. Ele era um penhorista inteligente e rico, muito rico mesmo. No negócio como agiota há muitos anos, não lhe faltava o dinheiro. Tinha uma linda mansão e uma vida regalada. A casa era guardada por uns bons e enormes mastins e haviam jardins por todo o lado. Ainda assim, o negócio de fazer dinheiro estava-lhe nas veias, apesar de não precisar de trabalhar, continuava no negócio de emprestar dinheiro. Como os juros eram na norma muito altos, nem precisava tocar no próprio, vivia à custa dos seus rendimentos e dos juros do dinheiro que as pessoas lhe deviam.  Um dia, num dos seus passeios diários, dirigiu-se ele a casa de um dos seus fregueses, um quinteiro pobre que vivia no outro lado da aldeia. Este quinteiro já tinha sido admoestado muitas vezes para que pagasse a sua dívida, mas haviam sempre tantos contratempos e doenças, que o pobre homem cada vez mais endividado estava e nada podia fazer para mudar a sua situação. O rico usurário visitava-o assiduamente para o pressionar e o ameaçar sem dó nem piedade. O pobre homem trabalhava que nem um mouro de sol nascer ao sol-pôr, mas todo o dinheiro que fazia era logo sugado pelas tantas dividas que tinha. Nas suas visitas ao casebre, o emprestador de dinheiro fazia o propósito mesmo de trazer qualquer coisa que achava de valor, para se pagar dos juros, dizia ele, do dinheiro que o quinteiro lhe devia. Um dia era uma galinha; outro dia era um pato. Outra semana era um cesto de ovos e assim por diante. Naquele dia, chegou ao casebre e não havia ninguém em casa. Só lá estava um rapazito de oito ou nove anos que brincava na terra,  na rua em  frente da casa. “Rapaz, os teus pais estão em casa?” perguntou o homem batendo com o seu bordão de cana de bambu no ombro do menino. “Não, Senhor!” respondeu o menino, continuando a brincar com as suas pedrinhas e espetosinhos, não prestando nenhuma atenção ao velho.

“Então para onde é que foram?” perguntou o velho aborrecido. O pequeno, contudo, continuou a brincar e não respondeu ao velho.

 

Quando o velho voltou a repetir a pergunta, o miúdo levantou a cabeça e respondeu com calma, “ Bem, tio Wang, o meu pai foi cortar árvores vivas e plantar árvores mortas. A minha mãe está no mercado a vender vento e a comprar a Lua.”

 

“O quê!!” Que raio de coisa é que tu estás para aí a dizer?” gritou o velho. “Pára de brincares comigo e responde-me como deve ser, onde é que estão os teus pais? Responde-me ou vais provar o peso deste bordão!” ameaçou o velho brandindo a sua vara de bambu. O miúdo olhou para o bordão e encolheu-se. O bordão era sim duro, metia-lhe medo, mas quanto mais o velho indagava pelo paradeiro dos pais dele, mais o menino repetia em forma de cantilena a resposta que já havia dado. Fulo, o penhorista acabou por prometer, “Está bem, está bem, diabinho, escuta-me! Eu vim hoje aqui buscar o dinheiro todo que os teus pais me devem. Se tu me disseres onde é que eles estão e o que estão a fazer direitinho, eu já não lhes cobro dinheiro algum. Percebes? Diz-me o que eu quero saber e os teus pais não pagam.”

 

Pela primeira vez, o rapazinho deixou de brincar com as pedrinhas e espetos à sua roda e virando-se para o velho retorquiu “O, Senhor, deve estar só fazendo troça de mim! O Senhor julga que eu vou acreditar no que tu estás dizendo?”

 

“Bem, moço, juro pelo Céu e pela Terra que o que prometo faço.” Afirmou o homem rico apontando para o alto e para o chão.

 

O rapazinho  deu uma gargalhada. “Oh Senhor, o Céu e a Terra não podem ouvir ou falar e por isso não vão confirmar nada disso a ninguém. Jura porque qualquer coisa viva que não vais mais exigir o dinheiro que os meus pais devem.”

 

O velho olhou à roda e deparou com uma mosca pousada na balaustrada da varanda da casa. Rindo interiormente, porque ele realmente só estava a enganar o miúdo, o velho fez uma proposta, “ Ali está uma mosca. Em nome de Buda, ela pode ser a nossa testemunha. Agora vamos lá, diz-me para onde é que foram os teus pais e o que fazem direitinho. Como é que o teu pai poderá estar a cortar árvores vivas e a plantar árvores mortas? Como pode tua mãe estar a vender vento e a comprar a Lua?” Olhando para a mosca sobre a balaustrada, o rapaz começou a despejar, “ Bem, uma mosca é uma boa testemunha como qualquer uma outra. Pois, aqui vai, o meu Pai foi cortar cana de bambu aos canaviais; com esse bambu ele vai fazer uma cepa para um homem que vive perto do rio. E a minha Mãe… o Senhor jura que vai fazer como prometeu, não é? O Senhor perdoará ao meu Pai a dívida que ele lhe deve, não é assim? “

 “ Sim,  claro, prometo, em frente desta mosca como minha testemunha, juro!” “Bem, já que assim é, como prometido, a minha Mãe foi ao mercado vender leques. Com o dinheiro que ela fizer, vai comprar petróleo para os nossos candeeiros. Não é isso o mesmo que dizer que isso é vender vento para comprar luz?” O velho sacudiu a cabeça e teve que admitir que o rapaz era esperto, só que quem é que iria acreditar em promessas tendo como testemunha uma mosca. O fedelho do rapaz tinha ainda muito que aprender.  O velho despediu-se do rapaz e disse-lhe que havia de voltar para anunciar a dívida paga aos seus pais. Uns dias mais tarde, de facto, lá estava ele. Como era tarde da noite, estavam todos em casa. Uma cena deplorável seguiu-se. Ele exaltou-se e exigiu o seu dinheiro logo e já. O barulho da briga acordou o rapazinho que se levantou e dirigiu-se ao pai. “Pai, pai, o Senhor não tem nada que pagar mais essa dívida. Este Senhor prometeu-me que não era mais preciso fazê-lo. Ele jurou-me que perdoaria essa dívida. O Pai está livre! Não lhe deve, não, nada.” O homem rico ficou fulo e brandiu o seu bordão de bambu uma vezes contra o pai outras vezes contra o miúdo. Ocorreram os vizinhos e para todos o miúdo no seu tom de menino, com voz fina, garantiu que o velho tinha jurado perdoar a dívida ao seu pai e que agora se estava a esgueirar do prometido. Os vizinhos juntaram-se ao banzé e resolveram então levar o caso ao Juiz encarregado da justiça na província. O pobre quinteiro e mulher não sabiam mais o que fazer, por isso levaram o filho consigo que firmava e reafirmava que o velho lhe tinha prometido e prometido era prometido. Mal o juiz chegou perguntou ao rapaz se o velho tinha feito a promessa só a ele, como haveriam todos de acreditar. Perguntou se tinha havido uma testemunha, ao que o rapazinho acenando com a cabeça, respondeu que de certo. O Juiz inquiriu, quem tinha sido a testemunha. O rapazito respondeu, “uma mosca ‘bareja’ (varejeira)!” A palavra ecoou pelos quatro cantos da sala, onde todos haviam congregado para seguir o que se ia passar, “Uma mosca! uma mosca!” O juiz empertigou-se e franzindo o sobrolho e levantando o dedo indicador, admoestou, “ Olha lá rapaz, aqui não é lugar de brincadeiras! Eu não estou aqui para brincar!”  O velho ria-se, vendo o caso já ganho. “Uma mosca,” riu-se virando-se para todos, “uma mosca!” “Sim, uma mosca,” gritou o menino, “uma mosca ‘bareja’ (varejeira)”O velho ficou furioso e começou a ameaçar o rapazinho e chamar-lhe de mentiroso de uma figa.

“Sim, uma mosca que lhe pousou no nariz!” exclamou a criança.

 

O velho exaltou-se de tal maneira que o seu rosto se tornou vermelho como um tomate, “Mentiroso de uma figa, malvado rapazinho, nem sequer foi no nariz , mas na balaustrada da varanda, seu fedelho, na balaustra…” tarde de mais. Todos se tinham calado e compreendido que o rapazinho havia ganho o jogo. O velho havia admitido perante o juiz que prometido tinha ele realmente em frente a uma mosca.

O juiz sem querer começou a rir e riu e riu sem parar, aguentando o seu grande buxo. Riram também os pais, os vizinhos, as crianças que tinham ocorrido também ao lugar. Também pareciam rir as moscas penduradas no tecto. Só quem não riu foi o velho rico, apanhado na cilada. Por fim, o juiz parou e numa voz sentenciosa proferiu a sua decisão, “Portanto, está tudo resolvido, promessa é promessa e jura é jura, a dívida deste senhor está liquidada por promessa feita a este menino na presença de uma mosca, uma mosca varejeira. O Senhor está ilibado de toda a dívida ao senhor  Wang e o senhor não faça mais promessas que não pode, nem quer cumprir, nem engane ninguém. De hoje em diante tenha cuidado com as moscas, que elas vêem e ouvem tudo. Caso fechado.”

 Toda a gente cumprimentou o quinteiro e riram; e riram. No seu caminho para casa, batiam nas costas do menino e lhe mexiam no cabelo em forma de carinho. Só mal disposto, saiu o agioto resmungando e rogando mil coriscos. As moscas, bem, cuidado com as moscas, que elas tudo ouvem e tudo vêem. Cuidado com a mosca, toda a mosca, especialmente se  mosca “bareja!” Silvério Gabriel de MeloAdaptação e versão portuguesa de um conto Chinês, Globe Fearon’s World Literature       
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