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A Ilha

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 No horizonte o céu fundia-se com o mar numa simbiose de plenitude, só separados pelos tons de azul. Navegavam há três dias e as horas, Éolo e a sua comitiva tinham-se retirado, passavam devagar numa calmaria constrangedora.

Um vulto branco, à proa do navio, mirava o horizonte, olhar fixo, o seu pensamento vogava para a ilha que já não distava muita distância. As casas brancas sobressaiam do verde da vegetação luxuriante, o ancoradouro estava protegido por uma muralha de pedras, que só Titãs poderiam ter construído, tal o tamanho e peso. Na costa oriental as escarpas eram altas e a pique, um Templo erguia-se nesta continuidade inserido numa gruta, uma alta torre branca completava um conjunto de casa amplas formando um complexo habitacional e de devoção, perfeitamente inserido na arquitectura da paisagem.Virou-se devagar para os nautas e disse-lhes:

-Zéfiro regressa, aprontai os vossos afazeres que uma brisa vai soprar daqui a pouco.

A calma foi substituída por uma azáfama de cabos e velas, ordens e gritos de instruções, semblantes animados e prontos para a continuidade da viagem, que até ali tinha recebido o favor dos deuses. As velas enfunaram e o ranger do cordame e da madeira deu inicio ao balançar característico do movimento do navio a avançar, cortando a água que se tornava ondulante.

 Entardecia quando o navio aportou no ancoradouro, cuja baia estava plena de vida.

A comitiva que esperava o grupo era constituída por vários homens e mulheres, todos vestidos de branco, embora em silêncio, os seus rostos mostravam a alegria do momento e a espontaneidade do bem-estar; eram os sacerdotes do Templo, que no alto da Ilha marcava a diferença na paisagem.

A luz difusa do entardecer era cortada por archotes cujas chamas trémulas lambiam o ar morno, transmitindo um aspecto etéreo ao ambiente.

 Do grupo adiantou-se um homem jovem, cujos olhos cintilavam com a luz de tempos idos:

-Bem-vindo a casa, é com alegria que te recebemos de volta, nobre sacerdote. Sentimos a tua falta e de teus preciosos ensinamentos, estamos ansiosos para ouvir de tuas viagens.

O ancião, visivelmente feliz, adiantou-se e de mãos estendidas segurou as mãos do seu interlocutor, pupilo desde a infância:

-Estou grato por tuas palavras, certamente contarei de minhas viagens, agora é hora de recolher. Estou muito feliz por estar de volta ao vosso meio que para mim é fonte de alegria e de bem-estar.

Com visível satisfação e como se de crianças se tratassem, o grupo seguiu o ancião no caminho de volta, que por entre veredas e árvores anciãs emolduravam a escada de pedra com degraus lisos e rebordo arredondado, fruto do uso milenar.

 Os barulhos nocturnos começavam a substituir o canto alegre das aves que em profusão esvoaçavam no céu azul, num bailado coreografado pelos filhos de Zéfiro. Nas tocas aninhavam-se os animais diurnos para descanso e segurança, porque a noite perigos inesperados escondia. A natureza seguia o seu curso, que desde milénios fora estabelecido, no princípio dos tempos.

Seguia o caminho para o alto da Ilha, em direcção ao Templo, onde a luz dos archotes o iluminava, circundando o complexo num halo de luz visível muito longe no mar e conduzindo almas em perigo para um porto de abrigo seguro.

A noite cobriu a Ilha Branca de manto escuro.

 O silêncio, aqui e acolá, era cortado pelo pio nocturno da coruja, sempre atenta ao mais pequeno movimento no solo, quando os pequenos roedores corriam em procura de alimento no restolho.

 No seu quarto, virado ao mar, o sumo-sacerdote usufruía da paisagem nocturna e ouvia o barulho cadenciado das ondas a desfazerem-se em novelos de espuma branca contra as rochas da falésia, ao longe, pequenas luzes, denunciavam a presença de veleiros em suas viagens de comércio.O sumo-sacerdote pensava nos acontecimentos dos últimos dias em relação à Palavra Sagrada e o desvio sub-reptício que os ensinamentos estavam a tomar. Sombras de preocupação toldavam-lhe o espírito.

 As várias interpretações obsessivas de alguns crentes estavam a tomar caminhos sinuosos de onde seria difícil voltar sem sofrimento. Estas atitudes levaram muitos a afastarem-se da Palavra, confusos e amedrontados, e a procurarem apoio onde fossem bem recebidos e satisfeitas as suas necessidades.

A intolerância e o oportunismo lentamente encharcavam as almas dos devotos.

As mãos postas em devoção, olhar cerrado, espírito aberto, o sumo-sacerdote louvou o Altíssimo:

- Senhor, Teu servo eu sou, conduz o meu espírito em Tua Luz, no cumprimento de Tua Vontade, para que o caminho que eu trilhe me conduza à Pátria, aos Jardins Eternos!

Em repouso adormeceu o corpo, mas o espírito procurou os Centros de iluminação e Conhecimento.

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Alma Lusa
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