O acidente |
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Os meus pais morreram há vinte e cinco anos num acidente de carro. Ao contrário do que rezaram as notícias, o meu pai não se esbarrou contra uma parede. Pelo que me contaram mais tarde, o culpado foi o motorista de uma camioneta que entre o mar e o carro, preferiu esmagar os meus pais: como se preparasse uma sanduíche de ferro e pedra para comer depois de acabar o turno. Gostava do meu pai. Era um gostar verdadeiro, quase humano. Olhava para ele com orgulho quando se sentava junto à lareira da sala e abria o jornal. Mas também gostava quando ele saía. E o meu pai saía muitas vezes. Nessas alturas podia brincar à vontade. A sala era o meu reino privado.
A minha mãe não perguntava ao meu pai aonde ele ia porque já sabia a resposta. Concentrava-se apenas na banca da cozinha enquanto arrumava os pratos do jantar. Pelo ralo via a relação de ambos a escoar-se junto com os restos de comida. E eu tentava segurar-me às mãos da minha mãe, para não me perder misturado com as ondas do mar e a espuma do detergente.
Quando o meu pai estava em casa e não se sentava à lareira, tinha por hábito bater na minha mãe. Para ele era mesmo um hábito, uma rotina, como desfazer a barba ou comprar o jornal no quiosque logo pela manhã. Comecei a aprender as alturas em que o meu pai não se ia sentar à lareira, pela maneira dele andar, pelo barulho dos seus sapatos no soalho. Escondia-me então no quarto e tapava as orelhas. Enrolava-me debaixo da cama para ter a certeza de que os gritos vinham do outro lado do mundo. E descansava o sono, já que os meus olhos não se conseguiam fechar enquanto a minha mãe não abrisse a porta do quarto.
Na garagem da nossa antiga casa, continua encostado à parede um dos pára-choques que pertenceu ao último carro do meu pai. No chão, a mancha do líquido que verteu em cascata duas horas antes de eles saírem. Vi-o cair, gota após gota após gota, e embora não soubesse que tubo tinha rebentado, não era isso que me impedia de sorrir. A sala seria para sempre o nosso reino privado.
Nesse dia a minha mãe ficou de me levar à escola. Preferiu no entanto ir com o meu pai escolher uma prenda para o meu aniversário, quando a única prenda que eu queria era olhar para ela, e sorrir-lhe sem as mãos a taparem-me as orelhas. Acrescentar como Favorito (230) | Refira este artigo no seu site | Visualizações: 1411
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