Todos os países da lusofonia

Galeria Lusófona

Arte Lusófona
Literatura Lusófona
Sabores Lusófonos
Advertisement

Blogs Recomendados

Alto Hama
Pululu
Malambas

Legado Português

Portugal no Mundo
Brasil 500 anos

Empresas Destaque

Horas Lusófonas

Advertisement

O Homem Contemplativo

PDF Imprimir e-mail

  

 

No mais das vezes as pessoas não tem tempo ou hábito de contemplar. Aqui nos referimos, claro, ao costume de olhar refletindo, não apenas ao ato de estudar visualmente o horizonte. A maioria de nós tem impulsos diversos movendo-nos para frente, a despeito de nem sabermos por que ou para que. Vamos logo aplicar um exemplo clássico: o sujeito tem família e filhos para criar. Não há que pensar em sentido para cumprir essa tarefa, ela será levada adiante, apenas. Dúvidas existenciais ou crises de opinião certamente ocorrerão, mas a manhã seguinte será outro dia em que o comum dos homens terá de providenciar o sustento da espécie e matar o leão que lhe cabe. Nesse natural caminho perpétuo, pouco tempo há para refletir sobre as escolhas, os caminhos, as renúncias ou aquilo tudo que nos leva do que pensávamos ser, para aquilo em que nos tornamos.

Pois o nosso homem contemplativo tinha tempo. Podia quedar-se olhando o horizonte, buscando nele as respostas para as várias perguntas que a ociosidade da mente lhe trazia. Podia filosofar que o horizonte não se alcança; por mais que o persigamos sua linha é sempre deslocada para frente, e mais para a frente, indefinidamente. Olhando para trás, tampouco podemos alterar este outro horizonte de onde  viemos. Eis que encontramos nosso homem contemplativo no meio do caminho, que afinal é mesmo o único ponto palpável de nossas vidas. Eis a primeira ironia constatada por ele: estamos sempre vindo de algum lugar e desejando chegar a outro, mas sempre ficamos pelo meio. Existem aqueles que acreditam que chegaram aonde desejavam, mas sua paz só é imperturbável porque não se deixam parar, contemplativos como nosso amigo. Porque, se olhassem direito, veriam que, se podem olhar, é porque não chegaram ainda a lugar algum, haja vista o horizonte bem ali diante de seus olhos. Se não chegaram, significa que não morreram. Se não acabou, como saber se chegaram?

 

Trocando em miúdos, se é que se pode dar alguma lógica aos pensamentos do homem contemplativo: quem pode dizer se foi feliz, antes de morrer? E quem pode dizer que foi feliz, depois de morrer? Cá estamos novamente, no meio do caminho, no meio termo, no limbo existencial entre o passado e o horizonte. E nosso homem contemplativo, que era amigo do homem unitário e compreendia sua descrença no Destino, decidiu que era ali, nessa metade do caminho entre o passado de onde viemos e o futuro para onde iremos, ambos misteriosos, que as pessoas costumam encaixar o que chamam de Deus.

Deus costuma ser, para a maioria, o combustível que as empurra nesse lodo de incertezas. Mas nosso homem contemplativo enxergou em Deus uma perturbadora semelhança com os filhos daquele sujeito do exemplo clássico que mencionamos acima. Aquele mesmo que cumpria as tarefas sem preocupar-se com o sentido delas, apenas porque elas tem de ser cumpridas, e pronto. Não é mais ou menos assim que se acredita em Deus?

E o homem contemplativo perguntou-se: acreditava em Deus apenas para conseguir atravessar o pântano da dúvida? E uma vez que podia despender seu tempo respondendo às próprias questões, indagou-se mais: se para chegar a algum lugar precisamos determinar origem, destino e localização do viajante, qual é o terceiro ponto da minha navegação entre o passado e o futuro? Deus? Ou eu mesmo? Se é Deus, como posso fazer a triangulação que me apontará a direcão, se a mim não é dado vê-lo? Devo estabelecer uma posição imaginária para Deus, e navegar segundo essa crença?

 

E o homem contemplativo deixou-se levar por uma digressão, ao pensar que fora de muito proveito o tempo de escoteiro na infancia. Graças às expedições na mata fechada de um parque, encravado seguramentre entre 4 avenidas  da cidade em que crescera; graças a experiencia de usar a bússola para localizar-se entre o estacionamento de bicicletas e a área de lazer das crianças nesta floresta urbana, é que nosso jovem contemplativo (ele ainda não era um homem, então) lograra atravessar a sua amazonia, de um ponto a outro, fazendo entre eles a necessária triangulação para a qual lhe fora dada uma agulha magnética e orientações sobre como usá-la, tendo seu Norte/Deus apontado com razoável segurança. Se bem que, mesmo na bússola, já se pressente a tentação insidiosa do demônio, acrescentando à carta uma dúvida, de poucos graus no mapa, entre norte geografico e norte magnético, uma pequena variação na escala que pode levar o caminhante ao pólo que Amundsen alcançou primeiro, ou ao abismo onde Scott depois se perdeu para sempre.

 

Mas aqui, neste mangue da vida onde está nosso homem contemplativo, não há bússola, não há instruções, no mais das vezes não há sequer referência visual, uma vez que os dois pontos frequentemente não podem ser vistos. O passado, perdido nas  brumas enganadoras  da memória. O futuro, intangível nas dobras  postergadas do horizonte. E nosso homem contemplativo imaginou-se um eterno navegante desse oceano, sem saber direito se isso seria um castigo ou uma dádiva. Ou nenhum dos dois, apenas uma contingência, como se remar fosse a mesma necessidade que movesse aquele homem do exemplo clássico lá de cima, mais uma vez voltamos a ele. 

Nosso homem contemplativo decidiu que se nesta navegação não se chega jamais a lugar algum, ao menos em suas divagações ele teria de chegar a algum lugar. E para isso racionalizou, resolveu estabelecer uma premissa, ou um ponto de partida, conforme lhe ensinaram no tempo de escoteiro. Definiu que ao menos uma pergunta teria de ser respondida, pelos critérios limitados de seu conhecimento humano: afinal, em qual momento desta navegação seria possível dizer que estamos satisfeitos, se não sabemos nunca de onde viemos, nem aonde vamos, tampouco se estamos indo a algum lugar? E colocou-se a responder essa questão.

 

Mas o diabo (a expressão veio naturalmente, mas talvez seja uma contraposição que venha a calhar)... o diabo, dizíamos, é que uma pergunta sempre leva a outra, se desdobra em muitas, numa chave de dúvidas. Mas antes que nos percamos novamente nesse oceano de interrogações, vamos nos cingir a questão principal: em qual momento da navegação podemos nos considerar satisfeitos? E para facilitar, ou dar critérios mais científicos a esse problema, vamos reduzir os momentos da travessia a três situações: tempestade, calmaria e movimento. Em qual delas o navegador é mais feliz? 

Parece uma questão fácil, mas o homem  contemplativo dispõe de tempo para sopesar as variáveis. Vamos lá: a tempestade traz o risco iminente do naufrágio, torna praticamente impossível seguir em qualquer direção, prioriza dramaticamente o objetivo quase único de permanecer à tona. O desafio, pois, seria vencido caso a embarcação atravessasse a tormenta sem afundar (neste caso somos a metafórica nave de nós mesmos, frase meio desprovida de sentido, mas que o homem contemplativo achou boa, e sendo dele a elucubração, vamos aceitá-la). 

Entretanto, (eis novamente as dobras da questão, as dúvidas trazidas pela resposta, ou... o diabo)... entretanto, atravessada a tempestade e alcançada a calmaria, a pergunta inevitável e seca: para que? Por que foi, afinal, que lutamos tanto contra o mar que insistia em nos tragar, se agora, calmo, ele não nos leva a lugar nenhum? Durante a marrasca (deve ser o coletivo de mar, como nevasca é de neve), mal sabíamos para onde apontava a proa, se era para o horizonte ou para o passado. Mas agora que podemos novamente olhar a bússola e definir onde é o norte para onde vamos e onde ficava o sul de onde viemos, a questão reapresenta-se, sarcástica, como a rir-se dos esforços que fizemos para não naufragar: para onde vamos? 

Está posta a calmaria. Sem risco de virar o barco, sem risco de não saber para onde estão assestados proa e popa, mas também sem qualquer movimento. Se não sabemos de onde viemos nem aonde vamos, então a calmaria só pode nos conduzir a outra tempestade, outra possibilidade não há, lembrando que o horizonte é intocável, portanto não há terra que se possa avistar. Ainda que houvesse, outras terras imediatamente se poriam desafiadoras no horizonte. 

E cá estamos, parados no seguro mar da tranquilidade. Tantas palavras gastamos, e o poeta, com duas frases apenas, disse tudo, e disse mais, quando falou que "navegar é preciso, viver não é preciso". E nosso homem contemplativo concluiu: entre as duas, calmaria e tempestade, preferiria a tempestade. Ao menos ali estaria colocando em prática um dos sentidos das frases do poeta, qual seja, o de que navegar é necessário. Se é impreciso, na tormenta pouco importa, ali o que interessa é manter-se acima da linha d'água. E nosso homem contemplativo mais uma vez invejou o homem clássico, de novo ele, aquele do exemplo primeiro, o mesmo que precisava sustentar os filhos e simplesmente navegava, apenas porque navegar era necessário. Mas nosso homem contemplativo queria mais, queria nevegar de modo preciso. Queria que seu navegar fosse preciso.

 

Então chegamos a terceira das 3 possibilidades: o movimento. Seria este o momento em que o navegante encontraria maior satisfação? Não corre o risco iminente de afundar, não está parado gastando as horas de uma vida que tem tempo limitado. Segue agora um rumo que imagina correto. Mas seria o rumo preciso? Impossível saber, concluiu o homem contemplativo, uma vez que não podemos fazer a triangulação do escoteiro. Só podemos crer, imaginar que estamos na rota correta que nos levará ao lugar que imaginamos. E como somos senhores de nossa imaginação, podemos dar a esse lugar as feições que quisermos, será o paraíso, será conforme consideramos justo para compensar as privações que tivemos e os riscos corridos durante a recente tempestade. 

E podemos usar toda a experiência que acumulamos em muitos anos de navegação para revestir de sentido e lógica a decisão de apontar a proa para um quadrante do oceano onde não há nenhuma terra à vista, em vez aproar em direção a outra parte do mar onde tampouco havia qualquer terra que pudéssemos ver, senão aquelas terras das quais lembramos de ter pisado um dia, sem ao certo saber se de fato as conhecemos, ou se sonhamos com elas, ou se as confundimos nos mapas da memória. Mas, vá lá, estamos indo a algum lugar. Talvez não cheguemos, talvez seja o lugar errado, talvez o porto a alcançar, ainda que depois dele se postem outros horizontes, seja um local povoado dos mais abjetos piratas, portanto muito pior, comparado com o porto seguro de onde partimos (e se era seguro por que partimos? - perguntará, não sabemos se o homem contemplativo, ou aquele mesmo diabo das questões desdobradas, ou quem sabe um falando pelo outro?).

 

Mas para o nosso homem contemplativo esta última questão não tem a menor importancia. Posto que está considerando a questão de modo científico, pouco importa  se estávamos certos ou não ao partir, uma vez que não podemos voltar atrás. O que nos cumpre responder, e precismos nos policiar para que o diabio não nos desvie das três questões fundamentais, é em qual situação, afinal,  o navegante  sente-se mais confortável? Tempestade, calmaria ou movimento? Risco iminente, risco nenhum ou movimento incerto? 

E nosso homem contemplativo decidiu-se. Concluiu que entre as três incertezas, entre as três possibilidades de ir a lugar nenhum, optaria pela tempestade. E justificou-se: na calmaria não se navega, e navegar é necessário. No movimento navega-se, mas o navegar não é preciso. Na tempestade essas questões tornam-se irrelevantes. Ali navegar não é necessário,  navegar não é preciso. Ali, só viver é preciso. Viver, só ali é preciso. Viver só, ali, é preciso. 


Acrescentar como Favorito (639) | Refira este artigo no seu site | Visualizações: 5256

Seja o primeiro a comentar este artigo
Coemntários RSS

Só utilizadores registados podem escrever comentários.
Por favor faça o login ou registe-se.

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
Advertisement

Investir em Portugal Investimentos em Portugal
Aconselhamento e apoio ao investimento estrangeiro em Portugal



Advertisement
Advertisement

Comunicados

António Marinho e Pinto - Mudar Portugal

Ler mais...

Broa de Avintes - não tem asas nem sabe voar

Ler mais...
Please login to Automatic Backlinks and activate this site.
 
| cheap car hire