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A Partida

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Lembranças de Infância.
Sentado na avenida uma noite, olhando para o mar na baía do porto de Ponta Delgada. As ondas do mar preto com reflexos do luar, gentilmente batiam contra o quebra-mar. Por um momento meditava a razãao do mar ser escuro e frio à noite. Havia um certo mistério que não compreendia e recordo-me que desde muito novo refletia sobre esta questão. Compreendia porem mais tarde que era reflexão do céu, porem, pra mim, era uma solução muito fácil pra todo aquele mistério. Era na avenida que aos fins de semana, à noitinha, muita gente passeava, namorados, casais, rapazes juntos e grupos de raparigas. Com a briza do mar de ar fresco, as pessoas passeavam de um lado ao outro enquanto rapazes perseguiam miúdas que geralmente passeavam e muitas vezes vinham acompanhadas pelos pais mais atrás.

Já havia passado dez anos desde 1961, quando vivia na Alameda de Belém, na Faja de Baixo na ilha de São Miguel, Açores. Tinhamos mudado para lá vindos da rua do calhão, onde nasci, perto da piscina, na avenida, pouco tempo depois de meu pai ter partido para a Bermuda em 1958. Tinha eu apenas três anos.

No balcão atrás na casa, podia-se ver o porto da cidade e também a estrada da Ribeira Grande. Uma vez por ano havia o juramente de bandeira na Bateria, um quartel militar, acerca de um kilómetro, visto do balcão da minha casa atrás de uns serrados de milho. Do balcão podia ver os soldados em fila à frente de umas casernas. A tropa marchava depois do içar da bandeira. Recordo-me bem do vermelho da bandeira que era mesmo vermelho e do verde, que em contraste com o amarelo do escudo, se tornava ainda mais verde. O vento abanava a bandeira levemente e o espetáculo me dava a sensação de querer crescer e ser homem. O mesmo acontecia uns anos mais tarde no dia em que fiz o exame da quarta classe. À frente da escola havia um grande mastro com a bandeira içada. As cores me faziam refletir o mesmo sentimento mas agora via bem de perto e talvez sem saber sentia um certo orgulho.

Depois de completar a segunda classe voltámos para a cidade onde residiamos nos Bairos Novos. Dois anos mais tarde minha irmã Valdomira (micas) casava com o Manuel António. A micas já era formada professora de instrução primária. Meu irmão Fernando exercia o serviço militar e eventualmente foi mobilizado p'ra guiné. No dia que ele partiu encontravamos no porto com muitas famílias de soldados que partiam no Carvalho Araújo com destino a Lisboa. Ele tinha prometido trazer um macaco da guiné. Dois anos mais tarde no dia do regresso e depois de ver minha mãe chorar muitas vezes por ele, de ouvir na emissora nacional reportagens que faziam dos soldados, o barco finalmente se aproximava do porto. Os militares já vestidos à civil e meu irmão com um pulover amarelo e com a pele surrada do sol, acenava a mão contente por voltar. Eu fixava-o bem pra ver se trazia o macaco,"entao?", dizia ele, com uma pernuncia continental, "nao foi possivel pá ". Fiquei imensamente contente de o ver que não me importei mais com o macaco.

Minha irmã Zélia já tinha completado o quinto ano da escola industrial e agora trabalhava para um firma de engenharia a desenhar plantas para construção civil. Não sei porquê, mas sempre senti chegado a Zélia, talves porque muitas vezes me entretia e cuidava de mim quando era ainda muito novo. Recordo também que quando ela e a micas estudavam, traziam ideias novas pra casa. Tanto de modas ou de receitas que aprendiam na escola e havia um começo de mudança de ambiente na nossa casa.

No Natal havia construção de casas de cartolina para o presépio, de enfeitos feitos de pinhas ou folhas de árvore, pintados com pó dourado ou prateado. E era assim todos os anos que se preparava para as grandes festas do Natal.

No verão costumavamos ir para praia do populo. Minhas irmãs traziam uns chapéus de cartão vermelho que se comprava e armava-se. Parecia ser uns chapeus de chinês. Agora acho se alguém fosse pra praia com tal chapéu seria redículo. O melhor, além de gostar imenso de brincar na areia, era as sandes de chouriço moído com manteiga que minha mãe fazia de pão de forma, cortado aos triângulos. Uma garrafa com refresco de laranga ou ananás, acompanhava sempre as sandes. As ondas altas do mar enrolavam na areia cinzenta que por vezes pelava com o calor do sol.

Por opção de vida melhor, a Micas partiu para o Canadá com contrato de emprego e porque o Manuel António tinha familiares lá a residir. A Zélia decidiu ir viver para o Canadá e segui para lá tambem. O Fernando casou e só ficou o Nelson, Eulália, o Manuel e eu que já trabalhava numa farmácia, a fazer voltas e receber contas, com 13 anos.

Era um tempo dos Beatles, Rolling Stones, Credence Clearwater Revival, Roberto Carlos e do Gianni Morandi, do conjunto João Paulo dos Académicos e do Quarteto 1111. Um tempo moderno dos cabelos longos de calça larga de ganga com a baínha desfiada (mas só havia um par de ganga), dos bailes e assaltos e verbenas, de fazer conjuntos e imitar os hypies, era os fins da década dos sessenta.
Igualmente, era um tempo que rapazes bem novos frequentavam cafés e clubes. O jogo do peão, berlins ou os arcos já não fazia parte do meu ambiente. Talvez aos fins de semana ainda jogava a bola com os rapazes lá da rua. No café eu e meus amigos juntavamos, sempre com pouco dinheiro, tomava-se bica e um copo de água e falavamos horas enquanto fumava-se cigarros.
De vez enquanto na cervejaria bebia-se cerveja ou laranjada e comia-se pregos enquanto ao lado no Coliseu havia cinema. O cinema era como uma janela ao estranjeiro, onde o James Bond ou o Clint Eastwood nos fazia sentir querer sair do nosso ambiente, para mundos grandes como Nova York, Texas, Londres ou Paris. Os filmes italianos do Gianni Morandi , e americanos do Cary Grant e outros, nos fazia querer ser adultos, apesar de acreditar na altura e pensar que já éramos.

Meu Pai tinha voltado da Bermuda uma vez só, em 1963, quando eu tinha oito anos. No dia que ele chegou o carro de praça nos levava ao aeroporto de Santana, um aeroporto pequeno com pista de relva onde aterrava lá aviões da Sata, vindos de Santa Maria ou da Terceira. Fazia vento forte naquele dia e por fim o avião chegava. Meu pai descia a escada do avião e trazia uma gabardine cinzenta e porque já tinha visto fotos, vi logo que era ele. Recordo-me bem de abraços e beijos.

Em casa deitava-se no sofá cansado da viagem. Uns dias mais tarde lembro de ter vindo na camioneta da cidade onde tinha passado uma tarde com ele. Comprou-me rebuçados enquanto falava com uns amigos numa taberna. Na volta a casa a camionete parava no canto em baixo da Alameda de Belém e subimos a rua a pé, levando-me pela mão. Meu pai sempre me escrevia cartas que eu gostava muito de ler quando era criança e às vezes mandava lembranças de lá da Bermuda.

No verao de 1970, tivemos notícia que meu pai voltava em Outubro. Já tinha então 15 anos e antecipava ver meu pai. Era realmente a primeira vez que vinha conhecer depois de ter crescido e já ter vivido um pouco de vida. Tinha complexos normais da idade que até muitos momentos de solidão andava comigo. A verdade é que quando ele chegou a segunda vez, não senti que era ele mesmo.

Depois de tanta vez falar aos meus amigos a cerca do meu pai, que me sentia orgulhoso de ter meu pai no estrangeiro e que um dia iria estar perto dele, que os meus problemas enfim seriam resolvidos.
Fiquei então desiludido porque só me dizia para cortar o cabelo, e estar em casa às nove. Não podia nem sequer ir mais ao cinema das nove. Ele não me explicava as razões porque eu tinha que viver assim.
Então em vez de ter encontrado em meu pai um amigo, senti um frio e uma distância pelas maneiras tão estranhas de ser e um dia chorei toda a noite. Meu pai então voltou para Bermuda mas nos prometeu que durante 6 meses fazia a carta de chamada e que muito recente partiamos para lá para sempre.

Meu irmão Manuel encontrava-se no continente a tirar especialidade do serviço militar e então não podia seguir conosco. Ele era muito brincalhão e nós eramos bem chegados. Trabalhava numa serralharia e aprendi muito acerca de ferramentas com ele. Minha mãe tinha passado os anos difíceis de educação de rapazes dos 15 aos 20 com o Manuel e o Fernando mas ela sempre ultrapassou todas as dificuldades mesmo sem o meu pai.

Sentado na avenida aquela noite meditava...Já tinha passado uma hora lá sentado no banco. De repente o João falava comigo, pedia-me um cigarro e perguntou-me se eu queria ir ao cinema. Eu ainda sem saber bem quem era respondi, o que? Ele disse "tás bem Luis?", oferecendo o cigarro disse-lhe, estou, estava só a meditar. O João era um rapaz alegre e grande amigo meu.

Passado uns meses numa manha de sol, em Março de 1971, o "chauffeur" do carro de praça com o boné meio enterrado na cabeça, dava a volta prá rua do ramalho com direção ao novo aeroporto. Meu irmão Nelson sentado ao meio do assento de trás, era o mais novo, fazia 13 no próximo mês de Maio. A Eulália fazia 18 em Junho, olhando pela janela do carro, talvez pensando que seria o seu futuro. Eu era o primeiro a fazer anos. Era já no dia 1 de Abril que fazia os 16. Já estava farto de dizer a quem me perguntava que estava quase a fazer dezaseis.

Ainda me lembro bem da altura exacta do sol a passar pelas árvores, a caminho do aeroporto. Minha mãe no assento da frente dizia qualquer coisa ao condutor, talvez perguntava quanto custava o frete.
De repente chegavamos, a hora de partir. As portas do carro se abriam e fechavam quase ao mesmo tempo. O condutor abria o porta bagagem e tirava as malas para um carrinho. Na terminal dois amigos meus esperavam para me dizer adeus. O José António, um rapaz muito inteligente, dizia-me "um homem tem sempre dois caracteres", eu perguntava, porquê? e então ele repetia a mesma coisa. O João só ria com os conselhos do José António.

Mais Tarde já na linha, minha mãe com os passaportes e papeladas na mão esperava a nossa vez. O oficial com uma cara de poucos amigos, fazia muita pergunta e depois carimbava os passaportes com uns carimbos que faziam uma chiada termenda. Eu queria era entrar naquele avião, a Sata de vinte e tal passageiros que nos levava a Santa Maria com destino ao Canadá e Bermuda. Em Santa Maria um avião da Canadian Pacific esperava por nós.

Um dia já na Bermuda, conheci muitos portugueses imigrados lá, suas origens e maneiras estranhas e diferentes. Um dia perguntava a um rapaz da minha idade se conhecia os discos do Johny Rivers, ele disse, "quem ye'? hem, eu não conhece isse!".

Mais tarde fui chamado para me apresentar no consulado de Portugal para resolver qualquer coisa acerca da minha situação militar. Na sala de espera ouvia o funcionário já com um português meio quebrado a auxiliar umas pessoas. Em cima do balcão havia uma bandeira portuguesa com o mesmo verde e vermelho daquela que via há uns anos atrás e depois só por um momento tentei encontrar aquele mesmo sentimento, mas não consegui.

Hoje compreendo o que aconteceu. Só quero saber se o mar lá na avenida ainda é misterioso como antes. Queria também saber se eu seria eu se não tivesse partido naquele dia em Março de 1971.

Luis Alberto Tavares

Attleboro, MASS USA 

Publicado Em Portugal em Linha em 1999

 


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