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Que língua se fala na Lusofonia? Dizem que somos cerca de 200 milhões, os luso-falantes. Podíamos ser mais? Julgo que sim. Frequentemente travamos conhecimento com lusodescendentes que, apesar do interesse pela língua e cultura dos respectivos pais e avós, não sabem, com pesar muitas vezes nítido, falar e escrever o português. O ensino do português no estrangeiro é, muitas vezes, fruto do sacrifício de cada comunidade ou da boa-vontade dos governos de cada país. Ainda há pouco tempo disse na televisão um responsável da Comissão Parlamentar da Língua Portuguesa que se encontram nas escolas portuguesas no estrangeiro mapas e livros desactualizados porque os professores não vêem a Portugal para se actualizar! Então o esforço tem que ser deles! E Portugal fica sereno enquanto as comunidades "não se esfoçam" por desenvolver o ensino do português nas comunidades lusófonas ou enquanto outros países como a França, Itália ou Estados Unidos implantam, cada vez mais, as suas línguas através da oferta, nomeadamente nos PALOP's, de bibliotecas, livros escolares, escolas, etc,? |
Carlos Mário A. da Silva
O tema a que temos de satisfazer, para ser bem respondido, com o detalhe que merece, daria pano para muitas mangas... Antes de mais entendemos que nos compete dizer que LUSOFONIA é uma palavra composta que soa muito bem mas... peca por duas coisas:
primo - é etnolatra, patrioteira em proveito do ex-colonizador; secondo - é uma ofensa à gênesis lingüística, porquanto se pretende falar precipuamente dos sons e da grafia com significado na comunicação de pessoas sujeitas ao colonialismo etnocultural "luso" cuja língua-veícular na verdade o colonizador romano apagou completamente impondo aos povos da Ibéria o seu idioma popular, ou seja: cometeram os romanos um linguacídio (perdoe-se-nos a ousadia de grafar deste jeito a representação vocabular desse fenômeno) pois como os autóctones peninsulares eram ágrafos, não sobraram vestígios da língua e dos seus dialectos que eles falavam antes da chegada das legiões de Roma, e os descendentes dos lusitanos 1.700 anos depois imitaram os seus algozes do passado... Quanto a ser LUSA a origem da nossa fala, é mister dizer-se que, a partir dos séculos XII/XIII, é que pode dizer-se que o galego, linguajar neo-latino dos nossos ancestrais do condado portucalense, começou a virar de mão como dialecto derivado e que paulatinamente adquiriu "personalidade própria". A nosso ver, de galaico-lusitanos passámos a galaico-portugueses.... Então, o respeito devido às origens da língua (ou dialecto?....) que falamos e escrevemos, à sua orto-história, impor-nos-ia que, honestamente, falássemos antes de...galaicofonia, despindo-nos da nossa incorrigível lusolatria que temos travestido com tanta petulância e desrespeito pelos galegos que, coitados, nem sequer têm acesso à CPLP!!! Afinal... CPLGP!!! Não seria isso mais decente? Vamos... vamos chamar para a "comunidade" os nossos irmãos (ou papais lingüísticos?!) GALEGOS. Penitenciemo-nos de nosso plagiato... até porque hoje a todo o momento se ouve falar de direitos autorais e até de indemnizações de ex-colonizadores a ex-colonizados por crimes passados de escravismo, esquecendo que este já era praticado, em circunstâncias talvez mais cruéis, pela mais avançada das civilizações da Antiguidade: a Romana. E não só... Sentimo-nos descompromissados da pertença a um só grupo etnocultural e etnlinguístico porque, filho de pai indo-descendente (mesmo dizendo- se esses nossos ancestrais rebentos "puros" de reinóis, o que nós constatamos, até pela tonalidade da epiderme desses parentes, conquanto reconhecendo-lhes origem indo-ariana segundo a vontade do Grande Afonso de Albuquerque, não ser verdadeiro...) e de mãe minhota mas de ascendência judaica, angolano por jus solis e conhecedor, por ter pisado o solo de cada uma delas, de todas as ex-colônias portuguesas, inclusive desde 1976 - o Brasil, estamos emoldurado num caleidoscópio genético que nos concede o direito ao exercício da arbitragem isenta que não aceita etnocentrismos nem linguolatrias. Por conseguinte, somos de parecer que na tal de Lusofonia não se fala, como parece ser óbvio, uma língua - a Portuguesa - mas sim vários subdialectos de um dialecto quando muito...Galaico-Português. Muita gente não vai gostar deste nosso desabafo, porém é o que pensamos depois de havermos meditarmos poderamente no assunto em pauta. Doa ele a quem possa doer... Em Angola, todavia, nos cursos chamados de PORTUGALIDADE, constatáramos que, afinal, os nossos irmãos "negros", a que preferimos o designativo da preferência silvínica "africanos", após uma visita de 30 dias à província da LUSITÂNIA, então e desde sempre impropriamente chamada de PORTUGAL (termo que devia abranger o todo e sua geografia político-administrativa e económica ser centrada na cidade de Nova Lisboa), se nos confessavam entusiasticamente e agiam, inclusive o cultísssimo e probo Prof. Teodoro Chitunda ( irmão do engº Jeremias Chitunda, vice-presidente da UNITA assassinado em 1992, na capital angolana, pelos ninjas do apparatchik do MPLA, e nosso grande amigo que, acreditava poder ser-se a um tempo angolano e português e por isso se tornaria incompreendido pelos seus conterrâneos, também teve de buscar diáspora no Brasil) como PORTUGUESES dos quatro costados, mais esforçados e sinceros do que talvez mesmo a maioria dos próprios reinóis! Conservamos em nosso arquivo. Creio que no mundo dos descendentes de pessoas que falam ou falavam subdialectos irmãos que integram o dialecto GP, o número total deve ultrapassar os 200 milhões... Quando em 1969 estivemos na Áustria, em visita oficial, a Prefeitura de Viena deu-nos como acompanhante uma senhora que se nos apresentou com nome próprio português e sobrenome Pereira, pelo que a cumprimentamos na língua dita de Camões mas não obtivemos qualquer resposta porque ela somente falava alemão e inglês... Há mais de duzentos anos que nenhum de seus antepassados falava a "língua dita portuguesa". Descendia de judeus-portugueses que em fins do século XVII haviam fugido das perseguições diabólicas da... Santa Inquisição em Portugal e se refugiaram naquele País, outrora a sede do Sacro-Império Romano do Ocidente e onde ainda hoje o cristianismo é religião dominante! Quando em Angola éramos comentarista político da Emissora Oficial, certa feita foi-nos entregue uma carta de um radiouvinte de Lagos, Nigéria, com nome e sobrenomes portugueses, dizia ser aparentemente negro, como rezava sua missiva redigida em inglês, e estar aprendendo sozinho a língua dos seus ancestrais. Pedia-nos que lhe enviássemos diccionários de português-inglês e vice-versa, uma gramática e livros didácticos de leitura, discos com música regional, etc, solicitações essas que satisfizemos na medida do que nos foi possível, pois não encontramos respaldo do então director do CITA, major Carlos José da Gama Lobo Alves Cardoso, até há pouco Secretário Geral da Cruz Vermelha Portuguesa.... Na ilha de Coloane, Macau (onde prestamos serviço como oficial de infantaria de 1951 a 1959), comandámos entre 1954/56 uma companhia de caçadores africanos de Moçambique que estava articulada em três postos isolados, ou quartéis de pelotão, nos promontórios. As instalações eram, como a do presídio militar de Hak-Sá, antigas escolas construídas na década de 20 pelo governo português para nelas se ensinar a língua portuguesa, mas por falta de professores acabaram sendo abandonadas e após a tomada do Poder na China por Mao tse-Tung o exército português tomou posse dessas construções... e assim, deixaram de ser escolas. Por isso, raras vezes se encontrava um chinês que falasse alguma coisa de português!... Mas, entrementes, nesses postos funcionavam para os praças africanos as escolas regimentais militares onde eles recebiam ensino elementar desde a alfabetização até à 4ª classe da instrução primária, embora, como é evidente, de má qualidade. .Em Timor-Leste e no seu enclave de Oekussi-Ambeno e em Goa, Damão, Dio e no enclave de Nagar-Aveli, após 1961 os invasores, indonésios e indianos, impuseram a sua língua principal, dentre as muitas que possuem, a par do inglês, como com o latim popular o haviam feito os romanos em sua época, dois séculos antes de Cristo. Hoje, raros são os naturais de Timor ou da Índia ex-portuguesa que falam português. Mesmo em Angola, em Moçambique e na Guiné Bissau, duvidamos muito que no interior a maioria dos povos falem português como acontece nos grandes centros urbanos... Mas, mesmo assim, o trabalho que estava sendo feito ao tempo da colonização, no domínio da EDUCAÇÃO das comunidades africanas era profícuo e honesto. E se formos ao Sri-Lanka (antigo Ceilão), em sua capital encontraremos um bairro onde ainda se falam algumas palavras de português "arcaico" existindo ali numerosos indivíduos que têm sobrenomes (apelidos em Portugal, sobrenomes no Brasil) portugueses. José Gomes Martins, colaborador do Portugal em Linha que nos vem deliciando com suas crônicas lá da longínqua Tailândia, onde reside com sua esposa chinesa, refere numerosos exemplos da influência lingüística e cultural portuguesas que persistem vivos no antigo Reino do Sião onde nossas gentes chegaram ainda no século XVI. Não podemos continuar a aceitar que sejam sobretudo as comunidades lusas na diáspora a custearem e, com a ajuda dos governos dos próprios países de imigração, a manterem e desenvolverem escolas portuguesas devidamente equipadas e dotadas de professores habilitados. Não nos parece que deva ser destes o esforço de implantação, manutenção, actualização e reequipamento e reciclagem dos docentes mas sim do Governo Português num consórcio com outros governos (ministérios da Educação e das Relações Exteriores) de países que utilizem o dialecto GP comum e seus derivados, estruturando-se em cada país de massiva imigração de gentes com essa afinidade linguística grande cooperativa de Educação, Cultura e Língusitica da CPLGP, com delegações regionailzadas onde for possível estendê-las, em que participem também no suporte financeiro e na gestão e administração as comunidades representaivas de todos os países membros da precitada instituição multinacional. CARLOS MÁRIO ALEXANDRINO DA SILVA |
Fernando Cruz Gomes
Governos deveriam ser acusados de genocídio linguístico.
No "Café Luso", hoje, fala-se Português. Ou melhor ainda se fala Português. Se deixar passar os da minha geração... sem investir no ensino de Português é bem possível que não ande longe o dia em que já se não fale o Português. Exagero, talvez. Admite-se mesmo que seja exagero. Só que, às vezes, para que as pessoas tomem determinadas atitudes, necessário se torna que haja a tal pontinha de exagero... que espicace as consciências e as atormente se não tomarem determinadas atitudes. Para já, partimos do princípio de que o Governo Português - este e os que o antecederam - deveriam, de facto, ser acusados de "genocídio linguístico", para não falarmos, até, em "genocídio cultural". "Genocídio", aqui e além, com laivos de discriminação atroz e com consequências gravíssimas para os povos que se deviam entender pela Língua. Se atentarmos nos montes de milhares de contos que o Governo Português - este ou os outros - atiram para os países da Europa onde há comunidades portuguesas e traçarmos um paralelo com os montantes que se atribuem aos países fora da Europa - Canadá, Venezuela, África do Sul, Estados Unidos, entre outros - veremos logo as tais discriminações de que tanto se fala e ninguém é capaz de calar. É que, de facto, os Governos de Lisboa parecem apostados em preservar, para a Língua e para a Cultura Portuguesas, as comunidades portuguesas que vivem na Europa, esquecendo as comunidades que vivem no resto do mundo. "INEFÁVEIS"... ESTAS COMISSÕES PARLAMENTARES Não há muito, comissão parlamentar portuguesa deslocou-se aos Estados Unidos e Canadá, para verificar "in loco" o problema. Deambulou por onde desejou. Visitou Escolas. Falou com (alguns) alunos e (alguns) pais. E mesmo que a visita tenha sido mais para uma determinada sensibilização... sairam do Canadá e dos Estados Unidos com um "sabor a vergonha". Alguns disseram-no mesmo. Com palavras de muito apreço para o que se faz... e com uma nítida "mea culpa" para aquilo que o Governo não faz... Depois disso, e já lá vão uns meses, nada de palpável aconteceu. Ou melhor, aconteceu um "macaquear" de soluções que o não são. Acentuam os parlamentares em causa - sobretudo os que estão na mesa do Poder - que vão tentar fazer parcerias com os Governos locais (americano e canadiano e, decerto, os outros) para que o ensino de Português seja feito nas Escolas locais. Pois...! Eles sabem - e se não sabem deveriam saber - que os Governos do Canadá (onde o ensino é de âmbito Provincial) e dos Estados Unidos da América têm outras prioridades. E que, por muito que se lhes diga que um aluno esclarecido... é um cidadão útil e de peso, ninguém lhes poderá dizer que devem injectar mais dinheiro no sistema educacional para ensinar uma Língua diferente do Inglês e do Francês. No Canadá, há até a particularidade de haver mais umas quantas dezenas de outras Línguas que também teriam de ser ensinadas. Curiosa é a explicação que às vezes nos dão de que... a Europa é que precisa, uma vez que os meninos estão ali mesmo à mão de semear e são capazes de voltar a Portugal e precisam de continuar os estudos em Portugal. Essa - que se desenganem os que assim pensam - é uma "razão" para ajudarem mais os outros meninos e e os outros pais. É que os do resto do mundo estão mais longe da Mãe-Pátria e precisam de preservar, pelo menos, a Língua! Os da Europa estão a dois passos, podem ir de combóio, de carro ou de bicicleta a Portugal. Os do resto do mundo... não. Só lá vão - quando vão - de avião, que é, para além do mais, muito caro. SEM NÚMEROS... MAS COM SENTIMENTOS O Ensino! A aprendizagem! A Língua da Lusofonia... que, pelo menos nos 3 ou 4 milhões de Portugueses que vivem nos países fora da Europa se vai perdendo... era bem capaz de ser o Português! Só que, ao longo dos tempos, e com a falta de dinheiro e, especialmente, de vontade de estudar os problemas que se põem ao ensino de Português, o Governo de Lisboa vai matando essa mesma Língua. Os luso-descendentes que ainda a falam - ainda que estropiada e com "nuances" muito "sui generis" - são aqueles a quem os pais quase obrigaram. São aqueles com os quais os pais gastaram rios de dinheiro. Sim, porque o Pai-Governo - neste caso, Padrasto-Governo - não dá um tostão, nem que seja para um livro. Não manda um professor nem que seja para fazer um curso de reciclagem aos que por cá estão. Pratica "genocídio" de Língua. Faz guerra de "terra queimada" para que, daqui a 50 anos, os tais luso-descendentes falem o Inglês e o Francês, o Espanhol e talvez o Afrikander. O Português... esse foi-se perdendo! O que já teria acontecido, não fosse a boa vontade (e o gastar de dinheiro) dos pais de tantos meninos que deveriam ser, para esse efeito, iguais aos meninos de outros pais portugueses que vivem na França ou na Alemanha. Portugal, pelos vistos, descansou no entusiasmo dos pais. A Portugal, pelos vistos, interessa, apenas, um X de milhões de contos de remessas. O resto... é, de facto, com os pais. Ah, e agora, com os Governos dos países de acolhimento... A Portugal basta-lhe as remessas dos (ainda) chamados emigrantes (com i...), até porque sabe que eles vão continuar - pelo menos por agora - a levantar a Bandeira de Portugal e a fungar saudades pelo país de origem. E continuarão, também, pois claro, a cantar vivas ao Benfica e ao Sporting e aos sucessivos Presidentes que se deslocam quando é necessário "levantar a alma da Pátria". COORDENAR O ENSINO QUE NÃO HÁ No Canadá e nos Estados Unidos - e decerto noutros países do resto... do mundo - lembraram-se, não há muito, de enviar um Coordenador-Geral do Ensino. Como se fosse possível coordenar um Ensino que Portugal não paga. Como se fosse possível interferir no eventual ensino das Línguas de Origem que os Governos locais (ainda) vão dando! Como se fosse possível um Coordenador-Geral do Ensino substituir-se a umas boas dezenas de professores, a umas quantas toneladas de livros. Não. Algo está, de facto, mal. E para mim que, de longe, vou anotando o que se faz na Europa e nos países de língua oficial portuguesa (Angola, Moçambique, Timor, etc), fico a procurar nos dicionários que tenho uma palavra mais doce do que "genocídio" para explicar o descaso que o Governo Português faz das comunidades portuguesas espalhadas por este resto do mundo... Mas, de facto, não encontro! Podem dar-nos todas as razões. Podem cantar-nos todas as "boas" canções. Só que dar dinheiro (e professores) para o ensino de Português na França e não o dar para o Canadá... é discriminação. E é, para além disso, no nosso modesto ponto de vista, um "genocídio linguístico-cultural", que vai dar os seus tenebrosos frutos quando no Mundo se falar apenas Português na Europa e no Brasil, bem como nos PALOPS onde ainda for possível preservar o Português. Os (hoje) luso-canadianos ou luso-americanos... já não falarão. Por culpa (e quase exclusiva) do Governo Português de hoje e de ontem. Fernando Cruz Gomes |
| Na próxima semana: Férias? Afinal sim ou não? |
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