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Férias. Afinal sim ou não? No período que anteceu os tradicionais meses de férias os portugueses ficaram a saber pelo Sr. Primeiro Ministro que o Governo não iria de férias uma vez que a conjuntura económica exigia a sua atenção a tempo inteiro. Os portugueses - e principalmente os muitos que, devido a uma crise que não existe, não conseguiram amealhar para um merecido mês de lazer - ficaram até orgulhosos do seu governo. Grande exemplo! Afinal enganaram-se. Primeiro quando souberam que afinal a laboração contínua era apenas o roulement entre ministros em férias herdado, de resto, de governos anteriores. Depois, quando souberam pela comunicação social que o Primeiro Ministro e o Presidente da República interromperam as férias para assistir ao funeral do Marechal Costa Gomes. Coitados dos portugueses. Até nas férias são enganados! |
Maria Miguel Ferreira
O merecido descanso
É impossível trabalhar em Agosto sem pensar em todos aqueles que estão com os pés de molho, a jogar raquetes ou simplesmente a ler o jornal à chapa do sol. Não podemos deixar de imaginar se os leitores que desfrutam das férias de Verão vão ter "pachorra" para ler este ou aquele trabalho, se determinada notícia está escrita de forma demasiado pesada para merecer a atenção do leitor, entre uma besuntada aplicação de protector e uma cervejinha na esplanada. Pensar neles, nos leitores que estão de férias, é também pensar no nosso Primeiro e nos segundos do Governo e no merecido descanso de que gozam. Merecido? Urgente, digo eu! O direito a férias surgiu na Europa no início do século XX e está consagrado na Constituição como a possiblidade de recuperação física e psíquica dos trabalhadores e garante das condições mínimas de disponibilidade pessoal, de integração na vida familiar e de participação socila e cultural. A teoria económica explica que cada indivíduo trabalha, abdicando de tempo de lazer, até ao momento em que o valor que atribuem ao tempo de lazer ultrapassa o que se ganha com mais uma unidade de tempo de trabalho. Se os nossos governantes entenderam que o trabalho pelo bem comum, no mês de Agosto, não tinha tanto valor quanto uns dias de lazer, talvez considerem que o País não vai assim tão mal. Que os rumores de estarmos à beira de recessão económica não passam disso mesmo e que os indicadores económicos estão mentem descaradamente. Se é assim, se com uns dias bem passados nos Açores ou no Algarve, garantem a sua recuparação física e psíquica, o rejuvenescimento das ideias, e a coragem para abraçar as reformas na educação, na fiscalidade e na saúde, de que este País tanto precisa, então... boas férias! Esperemos que a água salgada do mar não arrefeça as memórias das doces promessas feitas em tempos de bonança e que não sirva apenas para dar nova pujança aos discursos, mais do que às decisões. Não quero terminar sem deixar uma nota de boa viagem aos portugueses que regressam ao País, depois de um ano (ou vários) a trabalhar e a viver longe das raízes. Bem vindos, aos que chegam, e até ao regresso, para os que já estão de partida. E já que cá estão, aproveitem para descobrir se conseguem perceber alguma coisa acerca do imposto que vão ter que pagar sobre a casa que querem construir quando voltarem, finalmente, para gozar o merecido descanso da reforma... Maria Miguel Ferreira |
Orlando Castro
Ir de férias (mentindo) cá dentro
Em matéria de férias dos políticos (como em todas as outras, note-se) o melhor é apostar sempre no sim, não e talvez. É que, a fazer fé nos fazedores da nossa cultura democrática, nunca se sabe o que vai acontecer. O que hoje é verdade começou ontem a ser mentira, e o que hoje é mentira começa amanhã a ser verdade. António Guterres é (está bom dever) o que mais lhe convém na circunstância: primeiro-ministro, secretário-geral do PS ou, até, um simples cidadão deste jardim (que não é João) à beira mar (im)plantado. E a melhor maneira de, no caso, verificar esta polivalência é dizer umas quantas verdades, se possível ao vivo e em directo, ao cidadão António Guterres. Imediatamente o cidadão vira primeiro-ministro. É claro que quando Guterres diz que vai às fuças da Direita... está a falar o secretário-geral socialista. Claro é, igualmente, que se eu disser que vou às fuças de Guterres... estou a ameaçar o primeiro-ministro. Diga-se em abono da verdade que, infelizmente, esta não é uma característica exclusiva dos socialistas. Todos os que passaram pelo Governo (uns mais do que outros, é certo) seguiram esta regra. Quase se poderá dizer que é uma «lei» fácil, barata e que dá milhões (é pena que dê milhões sempre para os mesmos). Acresce, e o ir ou não de férias até seria um mal (leia-se mentira) menor, que os nossos governantes trabalham(?) não para os milhões que têm pouco mas, antes, para os poucos que têm milhões. A excepção só aparece nas alturas eleitorais porque, aí sim, os milhões (de votos) é que estão em causa. Será isto uma verdadeira cultura da democracia? Seja como for, os políticos «made in Portugal» (os fabricados na URSS e similares já estão reformados, ou em vias disso) têm, no mínimo, duas caras. São sérios e (mais ou menos) verdadeiros quando estão na Oposição. Chegados ao poleiro arrepiam caminho e entram no oposto (será trauma de terem sido oposição?). A seriedade das convicções passa a ser letra morta e, basta ver estes vinte e tal anos de democracia, os fins (o poder) justificam todos os meios. Como muito bem diz a introdução ao tema desta semana das Conversas no Café Luso, os portugueses (onde o Governo inclui, creio, os tais milhões que têm pouco... ou quase nada) ficaram a saber pelo primeiro-ministro que o Governo não iria de férias uma vez que a conjuntura económica exigia a sua atenção a tempo inteiro. Reconheçamos, contudo, que não era correcto exigir um tão grande esforço um Governo que tem mudado de ministros a um ritmo que certamente poderia figurar no livro de recordes. Creio, aliás, que para governar assim até era possível trabalhar um mês e ter férias nos restantes onze! A crise (que crise?) terá justificado mais esta aldrabice. Mas, para debelar as dificuldades económicas, bastava que António Guterres (o primeiro-ministro, o secretário-geral do PS ou o cidadão) mandasse divulgar ao país o seguinte comunicado: "O Governo faz saber que, como medida de contenção de despesas e tendo em consideração a actual situação das contas públicas, a luz ao fundo do túnel será desligada até nova ordem." A verdade (que chatice!) é que Costa Gomes (cidadão e militar exemplar, segundo a terminologia do Governo, que não a minha) morreu e, como mandam as regras, o primeiro-ministro e o presidente da República tiveram de interromper as férias para participar no funeral. Mas, afinal, eles estavam de férias - comentam, espantados, os poucos portugueses que ainda se espantam com estas coisas. Resta dizer que o crescimento da abstenção revela (para mal dos nossos pecados) igual crescimento da memória dos portugueses. E isso, importa reconhecê-lo, não indicia nada de bom. Orlando Castro |
| Na próxima semana: Português, língua difícil? |
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