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As Armas e os Barões Assassinados... O Governo anunciou que os Lusíadas iam deixar de fazer parte do programa obrigatório do ensino secundário em Portugal. Após o imediato fogo cerrado por parte da oposição, o Ministro da Cultura corrigiu o tiro e veio dizer que não era bem assim, vai ser dada a lírica de Camões no 9º ano e, depois, algumas partes dos Lusíadas no 12º. "Os Lusíadas vão ser dados tão bem como antes" disse o Ministro. A reportagem que se seguiu na televisão foi esclarecedora: a jornalista pergunta a uma série de jovens o que acharam dos Lusíadas. Uns riem-se nervosamente, outros engasgam-se, outros acham uma "seca", uma jovem mais esclarecida diz que gostou muito, principalmente do Auto da Barca (!!!). A Directora Geral do Ensino Secundário descansou-nos a todos: "A política é aligeirar a leitura dos textos para incentivar os hábitos de leitura". Aqui confesso que fiquei envergonhado. Porque não consegui perceber tão astuta estratégia. Algo vai mal nesta Ocidental Praia Lusitana... Afinal o que é que estamos a ensinar aos nosso jovens? Como é que eles vão perceber, daqui por uns anos, as razões por que se fala o português em tantos países ou porque existem tantos vestígios de Portugal espalhados pelo mundo? Vão, decerto, pensar que aquilo tudo foi mandado fazer pelo Bundestag e financiado pelo Bundesbank uma vez que Portugal foi criado pela União Europeia para ser uma colónia de férias... |
Maria Miguel Ferreira
Na língua de Camões
A revisão curricular que deverá entrar em vigor no incício do ano lectivo 2002/2003 não prevê a inclusão d'"Os Lusíadas", de Luis Vaz de Camões, no programa curricular dos 10º e 11º anos, na disciplina de Literatura Portuguesa, do curso Geral de Línguas e Literaturas. Em seu lugar serão leccionados autores africanos e brasileiros. O estudo da nossa "odisseia" caseira fica guardado para o 12º ano, sendo abordadas questões relacionadas com a expressão oral e escrita, mais do que questões literárias. Matém-se o breve estudo da lírica de Luis de Camões no 9º ano, sem profundidade ou análise de fundo. A reestruturação dos programas, defendem alguns professores, era necessária. Esta alteração do programa baseia-se no pressuposto da necessidade de uma preparação para a complexidade da leitura d'"Os Lusíadas". Compreendo tudo isto, lembro-me das voltas que dei para entender o poeta. O que não aceito de bom grado é que durante 12 anos de ensino do Português se estude Camões com alguma profundidade apenas e só no último ano (aquele que muitos alunos não chegam a concluir, salientando o agravamento das desigualdades culturais, neste casos). Não chega! Em Camões, há muito que estudar. Muito que aprender. Primeiro, a forma. Os cantos, os versos, a rima, a métrica. Depois, o contexto. A história. Tanta história do povo português ali se conta e canta! Como não nos emocionarmos com a triste história de Inês de Castro? Não abanar a cabeça perante o pessimismo do velho do Restelo? (Um dos riscos que correm os estudantes, daqui por uns anos, é o de pensarem que o velho do Restelo é um daqueles adeptos do Belenenses, que passam os dias no Estádio do Restelo a criticar o clube de eleição). Ai, o assustador gigante Adamastor, ou a idílica Ilha dos Amores! Os medos e anseios próprios da época, a cultura, a estética, a sensibilidade, o contexto social, a ambição territorial, o comércio e a política. Ainda a análise literária. A língua, as referências, a poesia, a obra, a interpretação. Maçador, dizem alguns alunos. Complexo, dizem os professores. É, de facto, complexo. O vocabulário não corresponde ao que usamos correntemente, exigindo uma aprendizagem gramatical e léxica; o conteúdo reporta ao ensino da história e da cultura de uma civilização que não por acaso é a nossa; a escrita poética exige um trabalho de interpretação e compreensão. Para explicá-lo, os professores têm estar preparados, com uma formação transversal nas matérias. E isso custa. Por tudo isto, a supressão de Camões cheira a facilitismo. O ensino não deve ser a mera repetição de informação. A perspectiva interdisciplinar de ligação entre as matérias estudadas e a análise crítica da actualidade à luz de cada matéria são factores que diferenciam a mera assimilação, da aprendizagem e da capacidade de reflexão e de crítica. É também esta capacidade que permitirá, pela vida fora, aceitar ou recusar valores, elaborar opiniões, agir ou ficar parado. O desleixe e falta de exigência face a um património literário, estético, histórico, é fatal num momento em que se pretende realçar a diversidade cultural diferenciadora, dado o contexto de integração e globalização. E este é só mais um dos aspectos em que a escola se dispensa de educar e de reforçar valores importantes, como a auto-estima de uma portugalidade e de uma forma de ser e o amor por um país pequeno e antigo, por esta ocidental praia lusitana. Nada disto é saudosismo ou nostalgia. É tudo sabedoria e riqueza. Se perguntarmos a um aluno, daqui a dois ou três anos, se gostou de ler "Os Lusíadas" e o que aprendeu com isso, não se admirem se ele responder, com um encolher de ombros: "Sei lá!". Maria Miguel Ferreira |
Orlando Castro
O que é isso de «Os Lusíadas»?
Creio que é benéfico para as novas gerações socialista (e similares) atirar «Os Lusíadas» para canto e, é claro, pôr no seu lugar os ilustres saramagos que das armas e dos barões assinalados nem querem ouvir falar. Se Saramago ganhou o Nobel, convenhamos que deve ser bom. Por alguma razão Jorge Amado nunca venceu esse prémio! Destas ocidentais praias lusitanas, sem pretender ir além da taprobana, sempre vos confesso que, por muito que tente (e já tentei algumas vezes), há duas coisas que não consigo digerir: os livros de José Saramago e os filmes de Manoel de Oliveira. É, com certeza, defeito de fabrico... ou culpa de Luís Vaz de Camões (já agora!). «De África tem marítimos assentos; É na Ásia mais que todas soberana; Na quarta parte nova os camposara; E se mais mundo houvera, lá chegara!» Se estes versos faziam sentido e eram sentidos quando se falava da Pátria, hoje já não fazem porque, cada vez mais, somos um país e não já esses heróis do mar, nobre povo, Nação valente que deu luz ao Mundo. E se assim é, qualquer semelhança entre as gerações que leram (nem sempre da forma mais correcta, reconheça-se) «Os Lusíadas» e as que têm de aturar José Saramago é mera coincidência. Mudam-se os tempos... mudam-se os heróis. Se já não temos gigantes, o melhor é ficar com os pigmeus. Se já não temos Pátria (e nem dela queremos falar), o melhor é ficar pelo país que, embora à beira mar plantado, se limita a meter água e a deixar os outros (até mesmo um da Lusofonia - o Brasil) tomar conta dos mares nunca antes navegados. Camões era daqueles que (como disse Theodore Roosevelt) considerava ser muito melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfo, glória, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito que nem gozam muito, nem sofrem muito, porque vivem numa penumbra cinzenta, que não conhece nem a vitória nem a derrota. E num país cinzento que prefere ser ignorante a perguntar o que não sabe, joga-se para o empate (ou para uma suave derrota). Vitórias são coisas demasiado arriscadas. Glória? Para quê? Ceder o espaço aéreo e a base das Lajes já é, para os nossos políticos, uma obra gloriosa tão digna como a que nos levou a vencer o Adamastor e a dobrar o Cabo das Tormentas. E para cantar esses feitos não faltarão ilustres escritores, bem mais dotados do que Luís de Camões e, creio, mais politizados, mais europeus, mais globais. Fará algum sentido, perguntam os ilustres coveiros de «Os Lusíadas», dizer hoje: «Que eu canto o peito ilustre lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram; Cesse tudo o que a Musa antigacanta, Que outro valor mais alto se alevanta»? É claro que não. Os estudantes não precisam de saber estas coisas. É mais cultural manter as tradições e assassinar touros em Barrancos... Certamente que a estas teses o ministro de Educação (ainda é o mesmo?) junta muitas outras, socialistas ou não. Aqui vai uma, certamente digna do económico ministro da Educação ou do educativo ministro da Economia. Há dias, uma tribo da Namíbia solicitou à Alemanha, antiga potência colonial do país, uma indemnização de quatro mil milhões de dólares, o primeiro pedido concreto de compensação por atrocidades cometidas na época colonial. A fundação "Hosea Kutako" afirma que o antigo Governo imperial alemão do Kaiser Guilherme II e três empresas comerciais formaram uma "aliança brutal para impor a escravatura e praticar o genocídio contra os guerreiros", exterminando cerca de 65.000 membros da tribo, entre 1904 e 1907. As empresas mencionadas são o Deutsche Bank, a antiga companhia de navegação Woermann Line - conhecida actualmente por SAFmarine - e a Corporação Terex. Já viram as indemnizações que Portugal terá de pagar se alguma tribo africana se lembra de ler «Os Lusíadas» e aí encontrar, preto no branco, matéria de facto para pedir contas aos senhores Guterres deste país? Por tudo isso, convenhamos que o melhor é banir tudo o que foi da Pátria e passar a dizer que Portugal só passou a existir a partir do dia 25 de Abril de 1974. Orlando Castro |
| Na próxima semana: O papel da CPLP |
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