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Portugal em Linha - O Ponto de Encontro da Lusofonia

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19.12.2001
Portugal vai mudar?
Depois de termos assistido aos jogos de tibieza política por parte dos partidos da oposição na Assembleia da República fingindo querer assumir alternativa ao governo, eis que o povo português demonstrou no dia 16 o verdadeiro poder da democracia. Portugal não vai bem, toda a gente o sente. O povo sente-o. E exerceu o seu poder. Estas eleições autárquicas vieram demonstrar (finalmente?) que em democracia os governos sobem ao poder ou caiem dele conforme a vontade do povo e o povo português deu ao governo um sinal claro de que não está satisfeito com a sua política. O problema é que, se calhar, o povo português vai ter que enfrentar um desafio ainda maior nas próximas eleições legislativas: inventar outro partido que seja, de facto, alternativa a este governo...
Maria Miguel FerreiraMaria Miguel Ferreira

Worst case scenarium

Desculpem-me o título em inglês, mas desde domingo à noite que só me ocorre o seguinte: então e se António Guterres for reconduzido na liderança do partido, após o congresso? E se ele for o único líder possível, o candidato socialista às próximas eleições legislativas?

A convocação de eleições antecipadas é já a solução mais provável, na sequência da também provável dissolução da Assembleia da República, uma das opções prevista na Constituição da República Portuguesa. Jorge Sampaio terá que decider. As eleições poderão decorrer lá para Março ou Abril, mas é preciso dar aos partido (leia-se ao PS) o tempo necessário para realizar o seu congresso e meter ordem na casa.

É, pois, importante equacionar cada hipótese e avaliar todas as consequências, neste jogo de xadrês político.
Quem será o próximo secretário-seral do PS? Quem será o candidato socialista ao Governo? Esta é a questão relevante, porque o candidato social-democrata já nós conhecemos. E só conhecendo o candidato socialista podemos começar a calcular as hipóteses reais de um governo social-democrata, para o bem ou para o mal.

O jornal "Público" noticiava terça-feira, dia 18, que os militantes e dirigentes socialistas aguardam com expectativa a decisão de António Guterres quanto a uma possível renúncia ao cargo de secretário-geral do partido e à recandidatura como primerio-ministro. Que sentido fará uma nova candidatura de Guterres, quando a principal leitura da ida às urnas dos portugueses foi o claro cartão vermelho dado à política de concessões e de avanços e recuos que o governo tem conduzido, como pudemos verificar uma vez mais no caso da taxa de alcoolémia, onde foi vergonhosa a capitulação de mais um lei, face aos lobbies instalados. António Guterres fez interpretou bem os resultados das autárquicas. Que sentido faria, agora, recandidatar-se ao governo de Portugal?
Quanto ao segundo grande derrotado nestas eleições, João Soares, qual o será o seu futuro político? Esta também é uma pergunta relevante, porque o seu poder de encaixe desta derrota só será conhecido depois de percebermos o que planeia o seu partido e o que planeia ele para si mesmo.

António Vitorino é um dos nomes falados para vir ocupar o vazio de poder deixado (?) por Guterres. Nomeado número dois do Governo, demitiu-se por causa de uma notícia falsa publicada sobre as suas contas e exilou-se em Bruxelas. Vê-se agora confrontado com a pressão de membros do PS para equacionar a hipóteses de abandonar o que tem sido um mandato brilhante como comissário europeu.

Ferro Rodrigues, figura popular e capaz de conquistar a simpatia do eleitorado, é outro dos ex-ministros apontados para o cargo.

Numa altura em que a questão do carisma se coloca, sobretudo quando o outro candidato provável é Durão Barroso, acusado de grande falta da tal qualidade inata, Fero Rodrigues poderá a ser a escolha pacífica, se o partido assim o entender. Por ele, tudo indica haver disponibilidade.

Fala-se ainda em António Costa, dotado de inegável faro político, Vítor Constâncio, o homem da economia, Jaime Gama, escolha já noutras ocasiões recusada pelo PS.

Outros nomes vagueiam pelas bocas, como sempre nestas ocasiões, e ninguém está livre de surpresas, como se pôde provar no domingo, 16.

Para já, teremos um Governo "de Gestão". Isto significa que não pode executa acções governativas de carácter político. Estamos limitados a uma paz podre, a uma calma aparente, que permita apenas o funcionamento das acções protocolares e administrativas. Na melhor das hipóteses, em Março pedem-nos uma opinião.

Maria Miguel Ferreira

P.S. Os votos de Boas Festas e de um feliz 2002 a todos os colaboradores e leitores do Portugal em Linha!
      Orlando CastroOrlando Castro

Cá se fazem... cá (às vezes) se pagam

As últimas eleições viraram do avesso as cores dominantes das nossas autarquias. Já no tempo de Cavaco Silva se registara algo semelhante. Infelizmente, digo eu, Portugal continua a ser dominado por duas cores muito semelhantes. O avesso da rosa dá laranja e o o da laranja dá rosa. Convenhamos que são cores (diria, antes, tonalidades) muito limitativas do do arco íris.

Seja como for, importa saber se Portugal vai mudar. Importa, sobretudo, saber se vai mudar para melhor.

Creio ser certo que a mudança vai ser efectiva, tal como creio que vai mudar para melhor. Explico. Os portugueses, apesar das limitativas escolhas partidárias, deram sinal que estavam fartos deste «ziguezaguiante» socialismo do tipo todos a monte e fé em Deus.

Como é típico, passou-se dos oito para os oitenta. Mas, se calhar, a voz do povo é a voz de Deus...

Quanto à qualidade na, ou da, mudança tenho sérias dúvidas. Acredito, contudo, que o país vai mudar para melhor. E vai porque, convenhamos, é difícil (se bem que o PSD nos surpreenda muitas vezes) fazer pior.

Registo, igualmente, que tal como o PS meteu tudo no mesmo saco, também os portugueses mediram os autarcas socialistas todos pela mesma bitola o que, penso, foi injusto para alguns deles.

Se no saco socialista (neste caso não é, com certeza, azul) couberem desde Álvaro Cunhal a Ramalho Eanes, passando por Vasco Lourenço e Augusto Cid, não admira que os portugueses tenham dito «basta».

Acresce, no caso do Porto - por exemplo, que pacientemente os eleitores esperaram pela oportunidade de dizer a Fernando Gomes: Cá se fazem, cá se pagam. E, para terem a certeza de que a justiça popular não iria errar o alvo, colocaram também no mesmo saco os bons (embora poucos) autarcas socialistas que comandavam as juntas de freguesia.
Fernando Gomes enterrou o PS no Porto e, diga-se, levou consigo camaradas que nada tinham a ver com a sua ambição ministeriável... ou outras.

O terramoto que varreu os socialistas reflecte, aliás, o facto de o PS dar mais importância às ideias de poder do que ao poder das ideias. Lisboa, Coimbra, Porto e Sintra são exemplos disso.

E, neste contexto, o PSD pouco mais teve que fazer do que esperar pelo suícidio político dos socialistas. Em alguns casos lá teve de disparar uns «tiritos». A maioria dos «tiros» disparados contra o PS partiram dos próprios socialistas. Que o diga Fernando Gomes.

Assim, os portugueses disseram o que não queriam o que, convenhamos, não é o mesmo que dizer o que queriam. Ou seja, Durão Barroso não tem as favas contadas e corre o risco de estar a contar com ovo que está no cu... de um galo.

Não me admira, por isso, que os portugueses voltem daqui a dois ou três meses a dar a vitória aos socialistas. Guterres e companhia (ainda) têm tempo para mostrar que entenderam a mensagem dos portugueses e, sobretudo, tempo para acordar.

Em qualquer dos casos, vira-se o disco e toca o mesmo. À Esquerda, os comunistas continuam a ver a banda passar... para a direita, e os bloquistas continuam a ensaiar soluções alternativas a... Garcia Pereira.

À Direita continua o David a lutar contra Golias. Mais uma vez sou obrigado (e faço-o com satisfação) a reconhecer a razão (ou, pelo menos, a razoabilidade) das teses de Paulo Portas. Isto é: para tudo continuar na mesma, entre o rosa e o laranja, entre o laranja rosado e o rosa alaranjado, o melhor é falar com o José Maria Aznar.

Orlando Castro

Na próxima semana: Emigrantes: portugueses ou estrangeiros?


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Comentários

Exaurido. É a palavra que me ocorre. O País está exaurido políticamente e não se revê nos grupos dos actuais políticos e nas formas que têm encontrado de pretensamente conduzir o País à modernidade, na sua assumpção como Europa.
Tudo tem falhado, da economia à educação. A viragem do voto nas autárquicas foi disso expressão. O gesto do Primeiro Ministro, ao resignar nas suas lideranças, interpretou-o. E perante o sucedido, os comentadores opinam, mais uma vez, no quadro dos interesses partidários e não dos interesses do País: a grande preocupação agora é saber se é o sr. A ou o dr. B que vai assumir esta ou aquela liderança e de que forma vai conduzir o seu partido a uma vitória mitigada nas eleições - anunciadamente antecipadas - ou mesmo se, na tentativa de conseguir a maioria necessária, os centro-esquerda ou os centro-direita se vão coligar com os extremo-esquerda ou extremo-direita - mas para, mais uma vez, tudo continuar na mesma, pois não acredito que se consigam maiorias em qualquer lado da bipolarização a que se chegou. Reparemos no entanto que a deslocação lenta e de poucos centímetros do voto do eleitorado, se deu na área do centro. Fugiu um pouco, por inibição, dos fantasmas da esquerda anti-fachista e do já fraco abraço cunhalista - em Lisboa, o exemplo e bandeira - mas também não caíu nos braços do portas dos jaguares e dos fatos de corte inglês, como se viu.
Paira agora na região do centro, quasi equilibrada, espectante, balançando. Sabe, está consciente, de que não foi feito ainda o essencial para mudar o País, para o trazer para a frente da Europa - promessas a que a esperança o agarrou - apesar das suas simpatias francas com a esquerda, talvez não tão evidentes com a direita . É a altura - sabem de quê? do grande acordo entre os dois partidos do País em que esta massa da população votante se procura expressar, para a maioria parlamentar que viabilize as soluções para mudar a sociedade portuguesa - na reforma profunda dos seus sistemas fiscal, educativo, económico, social que todos querem. Basta haver liderança que o assuma e acordo de coligação que o viabilize. É que, a não ser assim, receio, no curto prazo, que até nem mesmo o Aznar vai querer os depauperados restos deste País, mesmo de mão beijada.
Mudemos pois, será bem melhor.
José M. Freire da Silva


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