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Quo vadis Portugal? É verdade, os portugueses bem se podem perguntar para onde vai este país. Os portugueses, que já formam bicha no sapateiro para fazer mais uns furos no cinto, ficaram a saber que o dinheiro afinal não é assim tão escasso e que uns milhões de uma certa Universidade serviram para financiamento pessoal ou partidário de um certo Ministro. Coisa difícil de provar porque ou os cheques caem nos bancos como em saco roto ou o levantamento do sigilo bancário nem sempre funciona. De qualquer forma o Ministro diz-se vítima de "lobbies", que não nomeia, que o querem derrubar. Hoje como há dois anos, quando outro Ministro, hoje na oposição, jogou o mesmo jogo sob cerradas críticas da então oposição, hoje no governo... Quem disse que a História não se repete? Em Portugal tudo é possível. No meio de tudo isto o que sobra para os portugueses? O Euro 2004 vai de vento em popa, a Federação de futebol vai bem obrigado, o Jardel afinal é capaz de ainda ser bom rapaz, vamos ter TGV para Espanha e uma nova basílica em Fátima e, com sorte, ainda vamos dar uns tirinhos para o Iraque... Que podemos mais querer? |
Fernando Cruz Gomes
Quando Portas for primeiro-ministro...
Um café gostoso. Daqueles que se saboreiam, à roda dos amigos, e do qual falamos, depois, todos os dias, a toda a gente que adrega de passar na nossa esfera de acção. De facto, já nos fazia falta. Sobretudo aos que, longe da terra, sentem que a amizade e a solidariedade ainda são palavras que têm em si o cerne de algo que vale a pena preservar. Vamos então a isto? O António J. Ribeiro já pôs a água a ferver. E a cafeteira está à espera... E enquanto espera... vamos conversando. Quo vadis, Portugal? De facto, acho que alguma coisa tem de ser feita para travar, especialmente, a onda de pessimismo que nos avassala. Um pessimismo que come connosco à mesa, que se enrola connosco nos lençóis da cama e que, no fundo, no fundo, até é capaz de ir connosco para o "outro lado da rua" quando o tempo dos tempos se finar... O nosso pessimismo é atávico. Vem-nos do berço. Quando viajamos - os que viajam - o país que somos fica longe... e nós fungamos a saudade. Só que mais alto do que a saudade... está o pessimismo. O nacional-pessimismo, alicerçado no fundo em toda uma série de razões que a razão, às vezes, desconhece. Mas, de facto, os portugueses bem se podem perguntar para onde vai este país. É que não há razões algumas para deixar de ser pessimista. Ou antes, nós não as vemos. É que os partidos que governam Portugal... no fundo, também não acham essas razões. E pior é que eles têm de dar a cara, mostrar que está tudo bem, que não há mal que nos chegue, que estamos mais ou menos no limiar do tal Paraíso. Pois... mas bem lá no íntimo, todos os ministros sabem que não há que fugir. Vamos ter de apertar o cinto, mesmo que ele já esteja apertado até demais. E mesmo que haja "manobras de diversões" tipo Universidade Moderna... até chegamos a pensar que tudo isto não passe de uma "cortina de fumo" para fazer esquecer outras coisas ainda piores. Porque... aqui para nós que ninguém nos ouve, eu até acredito que tenham passado uns quantos milhares de contos para a conta da tal Amostra. Eu até acredito. Mas isso é só uma amostra... do que se passa em todo o Portugal. O facto - se é que de facto se trata - é que Paulo Portas é da Direita. E a Direita... não pode passar! Fosse ele da Esquerda, navegasse ele nas águas do mar vermelho... salvo seja... e a história já tinha passado à História. A este propósito, e enquanto o António Ribeiro culmina a hercúlea tarefa de fazer café para tanta gente... deixem-nos raciocinar sobre o que se passou com o Pinochet quando ele foi a Londres. É que a Madrid já tinha antes ido o Fidel Castro! Deixem-nos fazer vir ao de cima no bestunto pensador as figuras de Hitler, Salazar e Mussolini - e nem todos são iguais, nós sabemos... - e chamar à baila os epítetos com que lhes cobrem a memória! Pois. Mas há também Estaline, Enver Honxa, Tito. Os milhões que uns mataram para se perpetuar no poder... são capazes de ser os mesmos milhões que os outros mataram para ficar por lá. Assim sendo... todo o nosso raciocínio fica enovelado! Sim, em novelos de muitas linhas que nem sempre vão dar a lado algum. Ah o Café! Para falar no Paulo Portas! É um rapaz cheio de talento. Quando Jornalista... mexeu com muita gente. Atirou às malvas preconceitos e pruridos e chamou, muitas vezes, os bois pelo seu verdadeiro nome. Por essa altura... talvez ele nem sonhasse em vir a ser, um dia, o "todo poderoso" Ministro da Defesa de um país como o nosso à beira mar plantado! Ser jornalista - pelo menos cá pelas nossas bandas... . - é sinónimo de "teso". Exacto. Teso, no sentido de não ter dinheiro. E vai daí criam-se, às vezes, uns certos biscates, quer seja em artigo que se escreve a louvaminhar este e aquele (sem assinatura, claro) ou uma empresa qualquer de sondagens... que se agarra a uma certa Universidade ou a uma certa Fundação. Na sequência do processo... passam-se dinheiros de um lado para o outro. E nem é a troco de favores. É para pagar serviços. É para aguentar... a tal máquina que faz andar a... máquina. Só que, na nossa querida Política à Portuguesa, andamos todos a cantar loas à Democracia, uma senhora muito prendada e bela. Andamos todos a falar na separação dos valores. O Estado-governo não tem nada a ver com o Estado-Justiça. Então... e agora, não era melhor deixar marchar tudo até que a Justiça se cumpra. Até que a Justiça esgote os seus trâmites. Até que a Justiça... o seja?! O pior é que o Ministro se diz vítima de certos "lobbies". Ora aí é que está o problema. Então esse Ministro - para mais Jornalista - não sabe que em Portugal não há "lobbies"?! Alguém acredita que haja grupos de pressão a fazer com que o medicamento X entre no mercado nacional... ou que a auto-estrada tal passe por aquela zona e não pela outra... ou que o helicóptero a comprar seja do modelo MX e não do XM?! - Claro. Toda a gente sabe que isso não é possível... em Portugal. E que o ministro Paulo Portas foi longe demais quando afirmou que há poderosos "lobbies" que o querem derrubar. Longe demais vai já este arrazoado. Longe demais o caféque nos foi servido. Longe demais, afinal, o andar à volta de um ponto, dar três cambalhotas no ar e não sair do mesmo sítio. Foi isso que fizemos nesta prosa de fim de estação. E é isto, afinal, que o sr. Portas - um rapaz todo puxado das canetas... e "prafrentex" - tem estado a fazer. Não há seis meses. Mas... há mais de seis anos! Quando ele for primeiro-ministro - escrevam isto que dissemos, para nos chamarem nomes, mais tarde - é bom que se não esqueça do que está a passar. E que se lembre que a História se repete. Hoje como há dois anos, quando outro Ministro, hoje na oposição, jogou o mesmo jogo sob cerradas críticas da então oposição, hoje no governo... Pois! Fernando Cruz Gomes |
Orlando Castro
A baderna da Moderna
Portugal continua (e não adianta mudar de Governo ou de Oposição) a ser um país gerido por quem tem (ou, pelo menos, parece ter) dificuldades em contar até doze sem ter de se descalçar. Digamos que, afinal, por muito que se vire o disco... a música continua a ser a mesma. É pena porque, digo eu, os portugueses mereciam algo melhor. Um pouco melhor. A desculpa de que a nossa democracia ainda está em fase de crescimento já não pega. E não pega porque são os próprios políticos que não querem que ela cresça, são eles que apostam tudo o que têm (e o que não têm) para que ela continue mal de modo a que, de uma forma geral, se pense que somos todos cegos e que, afinal, eles têm um olho. E se o têm são, pensam, os reis desta república... das bananas. Mesmo as novas gerações de políticos não escapam a este defeito de fabrico. Quase todos eles não sabem fazer mais nada do que, a mando de quem manda, dizer mal das ideias dos outros e avançar com a teoria de que é preciso pôr em prática a tese do olho por olho, dente por dente. É isso que lhes pedem Francisco Louçã, Carlos Carvalhas, Paulo Portas, Ferro Rodrigues e Durão Barroso. E nenhum deles se lembra que, a ir para a frente essa tese, acabaremos todos cegos e desdentados. E então, depois de se descalçarem, entenderam que o principal problema do nosso país é o caso Moderna, até porque o Jardel já aí está pronto “ dizem “ para voar sobre os centrais. A economia está bem, os impostos estão a baixar, as reformas a subir, a saúde está óptima, o ensino melhor ainda, o crédito à compra de casa continua em alta, a inflação está em baixa, assim como o défice do Estado. E se é assim, convenhamos que era preciso arranjar alguma coisa com que passar o tempo. E, com uma socialista originalidade, a Esquerda descobriu (honra lhe seja feita) a única coisa que, de facto, preocupa os portugueses: a baderna da Moderna. Creio que este caso é, ou poderia ser, um paradigma da sociedade portuguesa, tal a forma como os Poderes Públicos (da Presidência da República ao Parlamento) trabalham para os poucos que têm milhões em vez de, como manda a Democracia, trabalharem para os milhões que têm pouco... que têm cada vez menos. O caso Moderna vai, como é óbvio, acabar em águas de bacalhau. Serão punidos alguns peixes (relativamente) miúdos mas, como sempre, os tubarões passarão incólumes e até talvez venham a ser condecorados por altos serviços prestados à Pátria. Este é um assunto que atravessa a sociedade política portuguesa desde o Bloco de Esquerda ao CDS/PP, pelo que a justiça ficará, mais uma vez, limitada ao acessório. O essencial vai passar à história, com ou sem demissão do ministro Paulo Portas, com ou sem comissão de inquérito, com ou sem ajuste de contas, com ou sem zanga de comadres. É claro que os portugueses não vão aprender a lição. Deixaram de ter Fado, Futebol e Fátima para, numa versão mais europeia, serem voluntariamente obrigados a comer «Big Brothers», «Jardeis» e «Modernas». Parece, na verdade, um país de faz de conta. Seja como for, penso que Paulo Portas não se deve demitir. E porquê? Porque ou há moralidade ou comem todos. Se houvesse moralidade deveriam ser demitidos todos. Todos os que estão no Governo e todos os que estão na Oposição. Mas como moralidade é coisa que não existe, vão todos continuar a comer à grande e à francesa. Ou seja, à nossa custa. Sim, porque quem paga os milhões da Moderna, do Euro 2004, da canina lealdade ao tio Sam etc. somos todos nós. Nós, os tais milhões que têm pouco. Até um dia. Orlando Castro |
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