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O que vale um Nobel? O Prémio Nobel da Paz foi atribuído ao ex-Presidente norte-americano Jimmy Carter, pelo reconhecimento de "décadas de esforços incansáveis" na busca de "soluções de paz para conflitos internacionais, para consolidar a democracia e os direitos humanos e promover o desenvolvimento económico e social". É evidente que todo este arrazoado quer dizer "não concordamos com a política americana actual". Coitado do Carter, ganha um prémio que afinal representa um recado para um terceiro! Esperemos agora que, ao menos, Jimmy Carter lhe faça jus e não passe a fazer a "paz" do Shimon Perez e do Coffi Annan... |
Fernando Cruz Gomes
O "Nobel" da nossa angústia
Quando, ainda tamanhinhos, ouvimos falar em Prémio Nobel da Paz... começámos, desde logo, a entender que se tratava de algo sublime. Um Prémio para enaltecer feitos notáveis nos variados domínios da busca da Paz. Por essa altura, a Paz era algo que se associava só à "guerra" - nesses tempos "fria" entre as duas grandes superpotências. A pouco e pouco, porém, baralham-se as ideias. Começam a matraquear-nos o cérebro as manigâncias dos "espertos do mundo" que até sobre o Prémio Nobel... da Paz expendem conceitos que são quase de... guerra. É trágico. É duro. É, afinal, o baralhar de conceitos e de filosofias que nos foram enraizados pràticamente desde o berço. Há quem diga, agora, que o Prémio Nobel da Paz, neste ano de Cristo, atribuido ao ex-presidente norte-americano Jimmy Carter... teve em mira, afinal, criticar o actual presidente George W. Bush. É que a Carter deram o prémio pelo reconhecimento de "décadas de esforços incansáveis" na busca de "soluções de paz para conflitos internacionais, para consolidar a democracia e os direitos humanos e promover o desenvolvimento económico e social". Para alguns dos analistas que costumamos seguir, este arrazoado parece querer dizer "não concordamos com a política americana actual". Se assim é - e nada nos diz o contrário - é de ter pena do Carter. Dão-lhe o prestigioso prémio para, através dele, lançarem um recado a um terceiro! É preciso ter azar! Talvez por isso, há quem faça a pergunta sobre "quanto vale um Prémio Nobel"? A verdade é que, para a maioria dos recipientes... vale cerca de um milhão de dólares e este milhão... é pouco mais que nada quando se trata de galardoar alguém que esgrime conceitos e expende opiniões em busca de uma Paz séria e consistente. Para nós, seria até extremamente difícil escolher alguém, no emaranhado de situações que se vão conhecendo, que merecesse ser galardoardo com o Nobel da... Paz. Difícil senão impossível. O dinheiro, no conceito de muitos, é o deus último. Aquele a quem mais se sacrifica. Aquele que é, afinal, o "ente supremo" a quem importa agradar. Por isso, a corrida ao dinheiro, o esmagamento de tudo e todos para o atingir, quanto mais depressa melhor. O jogo perene de interesses que tem na mira apenas e só o dinheiro. Quer ele seja dólar ou euro, petróleo ou armas. O dinheiro não tem cor nem som. É. Conta-se. Nem que para tanto seja necessário vender a alma, ceder o impossível, jogar o jogo da mentira, enredar países e pessoas. Se isso der dinheiro...! Não sabemos - cada vez sabemos menos - se o Prémio Nobel da Paz tem ou não um critério uniforme ou se vive à sombra dos que fazem parte do comité muito fechado que o vai dispensando. Que vai abrindo mão da fortuna do magnata Alfred Nobel... que, mercê de artefactos que davam, também, para a guerra... deixou toneladas de dinheiro, aumentadas em cada ano que passa graças à cuidadosa (?) gestão que dessa fortuna vãp fazendo. O que sabemos é que, por vezes, o critério... esbarra em conceitos que mais parecem políticos. E como em política, segundo os entendidos, o que parece... é, vamos nós lá saber a que santo temos de rezar para saber ao certo a verdade. Repugna-nos aceitar que alguém dê um Prémio destes a uma personalidade como Carter, para dar "um raspanete" ao sr. Bush. Mas lá que parece... parece! A Paz constrói-se, dia após dias, nas famílias, com um mínimo de meios de subsistência, com a democracia a raiar no sol de cada um, com esforços para que seja transparente a conquista dessa Paz que se pretende estender a todas as Nações da terra. O ex-presidente Carter fez tudo isso? Combateu o bom combate para alcançar essa... Paz? E se a resposta for sim... será que o sr. Bush está a fazer o mesmo? Estará a dar-nos razão para sermos americanos quando um dos génios do mal fez a derrocada mais célebre de obras construidas pelos homens... sem nos tirar, também, a razão para chorar quando tantos milhares de inocentes caem no Afeganistão? - São perguntas inquietantes, nós sabemos. Perguntas inquietrantes para as quais nem respostas encontramos. O Prémio Nobel da Paz... vale o que vale. Mas é, para além disso, incentivo a novos actos de valor intrínseco a favor dessa mesma Paz. Será que os mais novos - sejam eles políticos ou não - se revêem nos conceitos que outorgaram o Prémio Nobel da Paz ao sr. Carter? - Por nós... não o sabemos. E o pior é que tudo isto nos angustia, em altura como aquela em que vivemos em que a guerra - às vezes "quente", o que é dramático - campeia um pouco por toda a parte. É que a guerra beija o Afeganistão, tuteia a Palestina, vive paredes meias com a Indonésia e ainda não deixou a tchechénia. São pontos a mais. São vozes de sangue cada vez mais audíveis. Sobretudo porque também há cada vez mais quem admita que... armas só para alguns, porque para outros... é preciso fazer a guerra (com armas, claro) para que esses as não tenham. Gostávamos todos de ter, há dias, levantado as mãos aos céus - em época de "Thanksgiving" - a agradecer a Paz. Mas ainda não foi este ano. Fernando Cruz Gomes |
Orlando Castro
Bush deu o Nobel a Carter
O ex-presidente democrata norte-americano Jimmy Carter (James Earl Carter Junior), laureado com o prémio Nobel da Paz 2002, não tem dúvidas. Aliás, quando se olham ao espelho (se é que isso é coisa que existe na terra do tio Sam) os americanos nunca têm dúvidas e, penso, julgam que raramente se enganam. É por isso que Bush não tem dúvidas quanto ao ex-amigo dos EUA que dá pelo nome de Saddam Hussein e entende que é preciso mandá-lo desta para melhor. E é por isso que Carter afirma, sem ponta de dúvida, que se fosse membro do Congresso teria votado contra a autorização dada ao presidente Bush para usar a força no Iraque. Esta coisa a que chamam Nobel, sobretudo na sua categoaria da Paz, tem muito que se lhe diga. Desde logo porque, ao longo dos anos, tem privilegiado todos aqueles que usaram o dinamite para dar razão à força. Nobel, apesar de ter inventado o dinamite, queria (penso eu) dar - isso sim - força à razão. Seja como for, Jimmy Carter ganhou. E porquê? Ora, nem mais. Porque, segundo o presidente do Comité Nobel para a Paz, Gunnar Berge, o prémio "pode e deve ser também interpretado como uma crítica à política da Administração actualmente no poder nos Estados Unidos em relação ao Iraque". Curioso é atentar em alguns dos comentários dos que, hoje, fazem política neste Mundo que vamos tendo. O chanceler alemão, Gerhard Schroeder, congratulou-se que os "esforços de mediação" de Jimmy Carter tenham encontrado um tal reconhecimento. Nem mais. O presidente português, Jorge Sampaio, disse que a atribuição "foi uma bela recompensa para quem, nos últimos 20 anos, teve um grande empenhamento na luta pelo respeito dos direitos humanos e pela paz, inclusivamente na questão de Timor-Leste". Nem mais. Durão Barroso, considerou "justa" a atribuição do prémio, acrescentando tratar-se do "reconhecimento da mensagem humanista que Jimmy Carter soube dar durante e após a sua presidência, especialmente no domínio dos direitos humanos". Nem mais. O Alto Comissário para os Direitos Humanos da ONU, Sérgio Vieira de Melo, sublinhou o "esforço incansável" de Jimmy Carter pela paz e os direitos humanos. Nem mais. O ministro dos Negócios Estrangeiros cubano, Felipe Pérez Roque, manifestou a "grande satisfação" do seu país com a escolha de Jimmy Carter, que (por acaso) em Maio passado efectuou uma visita histórica a Cuba. Nem mais. Na Noruega, sede deste comité, o primeiro-ministro Kjell Magne Bondevik disse estar "feliz" com a escolha, mas o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Jan Petersen, declarou-se "um pouco espantado" com as críticas feitas à Administração norte-americana e aos países que a apoiam. Nem menos. Em contraste, o Canadá aplaudiu implicitamente os comentários de Berge, frisando que a escolha de Carter constituía "uma mensagem clara a favor do multilateralismo". Nem mais. A Casa Branca, por seu lado, recusou entrar na polémica e responder ao presidente do Comité Nobel, afirmando apenas que "foi um grande dia" para Jimmy Carter e que o presidente George W. Bush lhe tinha telefonado para o felicitar. Nem mais... nem menos. O presidente afegão, Hamid karzai, dado com um dos favoritos para o prémio deste ano, mostrou bastante "fair play" ao declarar que o seu rival norte-americano "merecia o prémio mais do que ele". Nem mais. Tenhamos, contudo, alguma calma. Se desta vez George W. Bush deu uma decisiva ajuda para que o seu compatriota vencesse, não faltarão ajudas para que, num dos próximos anos, seja este Bush (e porque não so seu pai, com vasta obra feita na Guerra do Golfo?) a vencer o Nobel. Não faltam exemplos (como aqui se escreveu no Café Luso do dia 30.10.2001 sob o título «Guerra com Nobel se paga», a propósito da atribuição do prémio a Koffi Annan) que nos indicam que vale a pena fazer a guerra quando se quer chegar ao Nobel... da paz. Com menos possibilidades, mas não necessariamente fora da corrida (vejam-se os exemplos de Yasser Arafat, Mohamed El Sadat, Menachem Begin, Shimon Peres e Yitzhak Rabin), estão nesta fase do campeonato Saddam Hussein e Osama bin Laden. Mas nunca fiando... Orlando Castro |
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