QUANDO O PRESIDENTE DA REPÚBLICA VISITOU MONCHIQUE POR MERA CURIOSIDADE
(conto incluído no livro "Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade", de António Manuel Venda - Editora Pergaminho, Portugal, 1996)
Até que a morte o levasse, Pedro Aquilino nunca haveria de esquecer a noite em que o macaco clunâmbulo lhe serviu o licor de amoras silvestres. Por esses tempos Monchique parecia caminhar para a perdição, depois de tudo o que acontecera a seguir ao aparecimento das rameiras francesas do negro Jean Pierre. Haviam chegado com a companhia petrolífera, atraídas pelo dinheiro que na certa começaria a abundar na região. E foram elas, mais do que a própria companhia, que em menos de nada fizeram a vila acordar do longo sono de indiferença em que caíra muito tempo antes. Tanto que o presidente da câmara, quando se deu conta do estado das coisas, mal-disse a hora em que decidira autorizar a exploração de petróleo no largo da feira a troco de um cinema, dois hotéis e um estádio de futebol.
- Valha-nos Glória Garcia! - gritou ele nos paços do concelho.
E depois fechou-se no gabinete e nunca mais ninguém o viu. Tiveram de ser convocadas eleições antecipadas e, consumado o acto, foi construído um gabinete para o novo presidente, pois o antigo passava o tempo todo o mandar papelinhos por baixo da porta. E neles avisava que era sua intenção ficar desterrado a autoflagelar-se, para se redimir da decisão que tantas desgraças tinha trazido.
No dia em que um inspector francês apareceu em Monchique mais a polícia judiciária e prendeu Jean Pierre por crimes de lenocídio, pensou-se que a vila iria ficar livre da praga que a invadira. Mas uma viúva da Perna da Negra, que em tempos tinha sido emigrante no Luxemburgo e que por isso se desembaraçava bem com o francês, tinha outros planos. Meteu-se a caminho da estação de Sabóia no seu burro rameloso, e antes que as rameiras tomassem o comboio convenceu-as a voltarem para Monchique. Ao pé da viúva, Jean Pierre era um santo. Por ordem dela, as rameiras tentaram seduzir os exploradores de petróleo em pleno dia. No entanto, quando chegaram ao largo da feira, tiveram de retroceder face à pestilência que se libertava das perfurações. Os trabalhadores, com a pressa de chegarem ao petróleo, tinham-se distraído e rebentado com uma conduta de esgotos.
A viúva, mesmo assim, não se deixou abater. Organizou as rameiras em equipas e mandou-as atacar nas lojas e nos serviços públicos o que, ao fim de três dias, acabou com a paciência da confraria feminista da vila. As preces em louvor de Glória Garcia começaram a suceder-se e à rua saiam procissões onde até havia flagelos. E tudo perante o olhar divertido da viúva, que percorria a vila montada no burro para recolher o dinheiro e os relatórios dos capatazes. Tinha contratado meio-dúzia de proxenetas marroquinos que se desenrascavam à custa de um manancial de gestos obscenos que atraía amalucados sexuais de todo o Algarve e até do sul de Espanha. A maior parte acampava pela serra, porque os hotéis ainda estavam em construção.
Um dia o espectáculo da chegada das rameiras a Monchique repetiu-se. Ainda o Sol estava a nascer, quando entrou na vila uma velha de aspecto fantasmagórico e corpo lânguido, conduzindo um carro de besta puxado por um elefante trôpego que morreu no fim da viagem.
- Ao que isto chegou! - ia a velha dizendo. - Ao que isto chegou!
Ao lado dela, um macaco clunâmbulo, que se deslocava num carrinho de madeira, quase que vomitava os bofes para acompanhar o andamento. E atrás seguiam dezenas de mulheres todas bem preparadas para a vida, o que atraiu logo a atenção dos exploradores, dos visitantes amalucados sexuais e também de muitos homens da vila.
A velha mandou armar uma tenda enorme numa parte do largo da feira que não estava a ser explorada. E instalou-se aí mais a comitiva. O letreiro luminoso da entrada principal dizia "Bordel de Glória Garcia - Serviço Gratuito", e isso foi o bastante para que a afluência de clientes não demorasse a acontecer. A tenda passou a estar sempre cheia, tanto que os fornecedores de bebida viam-se e desejavam-se para satisfazerem as encomendas que o macaco clunâmbulo ia fazer a Portimão no carrinho de madeira. Mesmo sem pernas, ia-se arranjando bem. Por esses dias o padre, o novo presidente da câmara e uma representante da confraria feminista foram falar com a velha e pediram-lhe para deixar a vila, pois com a viúva já tinham problemas suficientes. E avisaram-na também de que não podia usar o nome da grande Glória Garcia no letreiro. A velha escutou-os atentamente, enquanto o macaco clunâmbulo lhes servia um licor de amoras silvestres, e depois mandou-os embora com um gesto repentino ao qual eles se sentiram incapazes de desobedecer. E ainda lhes gritou:
- Eu cá uso o nome onde me apetecer, porque sou a própria Glória Garcia! Fui eu que fiz desta terra o que vocês agora estão a desfazer!
A notícia do regresso de Glória Garcia correu célere e chegou a Lisboa, onde ela era motivo de aprofundados estudos em algumas universidades. Glória Garcia, dizia a lenda, tinha vivido na zona de Monchique no começo dos tempos, quando as coisas não tinham nome definido. E fôra ela que transformara aquela terra sem âmago, habitada por hominídios e bicheza satânica, numa região aprazível com pessoas feitas à imagem de Deus, animais domésticos, bichos de selvajaria passiva e flores que perfumavam o mundo segundo determinadas regulamentações do calendário. Glória Garcia era adorada na vila e todos os anos ia uma procissão até ao alto da Fóia, que era o sítio onde se pensava que ela havia desaparecido e onde lhe tinham construído uma ermida.
Em pouco tempo afluíram a Monchique muitos historiadores, sociólogos, misticistas e bruxos, todos a quererem estudar o caso da lendária Glória Garcia. Mas a sua presença revelou-se infrutífera, pois perderam-se nos serviços gratuítos do mulherio. Das terras mais distantes chegaram pessoas que começaram a ocupar os hotéis mesmo inacabados, e a vila passou a aparecer diariamente nos orgãos de informação. Tanto que até o presidente da república, Pedro Aquilino, roído pela curiosidade, decidiu também ele visitar a vila para conhecer a famosa Glória Garcia.
Pedro Aquilino chegou a Monchique a meio de uma tarde cálida de Agosto. Nem o calor nem o mau-cheiro do cadáver do elefante, que continuava abandonado à entrada da vila, o fizeram retroceder. E assim foi recebido nos paços do concelho pelo novo presidente da câmara. O antigo, de quem já ninguém se lembrava, resolveu dar sinal de si e voltou a mandar papelinhos por baixo da porta, desta vez com saudações democráticas.
- Ah, têm dois presidentes da câmara! - comentou Pedro Aquilino. - E nem assim arranjaram tempo para mandar enterrar o desgraçado do elefante!
Depois da recepção oficial, Pedro Aquilino foi encontrar-se com Glória Garcia. Nessa noite, em consideração ao presidente da república, ela deu folga às mulheres, o que acabou por causar alguns problemas. Os cinco ministros que sem ligarem à recomendação do primeiro-ministro acompanhavam a comitiva presidencial fartaram-se de protestar, e depois pegaram numa das viaturas oficiais e foram para o ataque para Vilamoura. O chefe do protocolo ainda tentou ocultar o sucedido aos orgãos de informação, mas não serviu de nada. O telejornal da noite abriu com essa notícia e deu a entender que fôra o presidente da república que os dispensara. Pedro Aquilino estava nessa altura no meio do encontro com Glória Garcia. Tinha cara de estar bem disposto, mas assim que o informaram da notícia da televisão começou a sentir-se mal e acabou por desmaiar.
Em pouco tempo, o médico presidencial fez Pedro Aquilino recuperar os sentidos. Não era nada de grave, apenas uma indisposição passageira. No entanto Glória Garcia insistiu para que ele tomasse um pouco do seu licor de amoras silvestres, que segundo ela prevenia complicações futuras. Pedro Aquilino aceitou e Glória Garcia fez sinal ao macaco clunâmbulo para que fosse buscar a bebida. O bicho obedeceu e daí a pouco, quando já estava de volta deslizando sobre o carrinho de madeira e trazendo numa bandeja o cálice de licor de amoras silvestres, ouviu zurrar junto à entrada.
Era o burro rameloso da viúva da Perna da Negra. O macaco clunâmbulo deu com o desgraçado a chorar umas lágrimas descomunais, e sentiu tanta pena dele que procurou consolá-lo. Os dois lá se entenderam num dialecto animalesco, e foi dessa maneira que o macaco clunâmbulo ficou a saber que a viúva da Perna da Negra perdera toda a clientela, por causa da concorrência do bordel de Glória Garcia. Tanto que tinha mandado embora os proxenetas marroquinos e as rameiras francesas. E além disso tinha ainda descarregado o seu mau-humor em cima do burro, o que fizera com que ele fugisse e viesse ali procurar amparo. Mas o macaco clunâmbulo não podia fazer nada por ele, e assim limitou-se a convencê-lo a ir ver se o director do canil da câmara o podia ajudar. E depois foi servir o presidente da república, sem sequer suspeitar que algumas das lágrimas do burro tinham caído dentro do licor.
- É do bom! - disse Glória Garcia.
Pedro Aquilino concordou, ao mesmo tempo que pousava o cálice já vazio na bandeja. E depois começou a dar cambalhotas. Foi esse o primeiro sinal do seu destrambelhamento. A partir daí deixou de falar e nunca mais ninguém conseguiu ter mão nele. Foi exonerado do cargo de presidente da república e abandonado ao seu destino, tanto que ao fim de algum tempo era apenas mais um dos que pedia pelas ruas de Monchique, pois até de o reformar se esqueceram.
Quando soube que a viúva da Perna da Negra desistira do antigo negócio do negro Jean Pierre, Glória Garcia ganhou um ar de felicidade repentino. Ficou alguns instantes em silêncio, como que a reflectir, e depois disse ao macaco clunâmbulo:
- Bem, parece que aqui não temos mais nada a fazer.
A tenda foi desarmada nesse mesmo dia e, perante a surpresa geral, Glória Garcia abandonou Monchique mais as mulheres e o macaco clunâmbulo. Muita gente seguiu-lhes todos os movimentos até à ermida da Fóia, mesmo no ponto mais alto da serra, e aí viu que se elevavam no ar e que se afastavam cada vez mais. Tanto que em pouco tempo aquele bordel voador passou a ser apenas um ponto escuro no firmamento. Ninguém queria arredar pé, à espera que acontecesse um novo milagre, e só à noite, quando o carrinho de madeira do macaco clunâmbulo caíu do céu em cima da cabeça do novo presidente da câmara, é que houve quem começasse a regressar.
António Manuel Venda - Monchique, Portugal
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