Contos Portugal  - O Ponto de Encontro da Lusofonia

Diana de Moura


Gone but not forgotten


O céu encoberto, por nuvens espessas faz o outono parecer deprimido. Para escapar a monotonia, ela pede ao Kicas:
- Porque não vamos até aquela cidade aonde viveu esse português que deixou marca artística na residência do Churchil?
- Queres dizer, Hantsport...
- Isso mesmo.
Uma pequena localidade, orgulhosa do talento dum homem, que vive ainda em cada alma dos seus cidadãos, resolveu num acto de fraternidade e reconhecimento, dar a conhecer ao mundo aquele que os tocou com a sua sensibilidade, e que embelezou a vida duma vila com tradição marítima. O cidadão lembra momentos ternos desse português, e orgulham-se da herança que ele lhes legou: a sua vida, aqui e além-mar, os seus sonhos e sobretudo um grande sentido de humor. Chegaram e o Kicas pergunta a dois trabalhadores que se encontravam junto a um poste de electricidade:
- Bom dia, pode-me dizer aonde é o museu Churchill?
- Sigam em frente. "You cannot miss the big gates".
Efectivamente viram os dois grandes pilares de granito. As árvores em arcos de ouro, alinham-se até à casa.
- Parece abandonada, inquieta-se a Anaid. Pensas que é esta a casa?
Tenta espreitar o interior pelas janelas e reconhece um compartimento, que tinha visto na televisão.
- Que pena, estar fechada para a estação!...
O Kicas tira um prospectus que se encontrava atrás dum vidro e com um ar decidido vira-se para ela:
- Vou telefonar a um destes nšs.
- És doido...
Tarde demais. Havia uma cabine telefónica mesmo ao lado e ouve um bocado da conversa, enquanto ainda espreitava para o interior:
- She came all the way back from Portugal, to see his paintings.
- Oh, meu Deus, no que ele me esta a meter...
5 minutos depois um homem de cabelos de prata, aparece.
-This is our portuguese lady, he says smiling. E então numa pausa, interroga-a
- Do you understand Inglish?
- Sim, sim, diz o Kicas...como se ela não tivesse o uso da palavra.
O sr. abre a porta, e antes de mostrar o que quer que fosse, agarra como se sempre a conhecesse, pelo braço, e diz-lhe como se falasse do melhor amigo:
- Acima de tudo, tinha um grande sentido de humor.Condu-los até a cave, aonde uma caricatura em ruínas trazia dum tempo passado, uma ironia:
- "Canadian members of Parliament who increase their salaries without permission may have been laboring under the impresson that they were working for an insurance company." - Francisco da Silva

A cave parecia envolvida em mistério, e figuras mitológicas segredavam. Percorrem a casa e toda ela tinha as impressões de Francisco da Silva esse jovem que por alguma razão desconhecida, deixou o seu país natal. Nascido em 1841, respondeu ao chamado do mar e nele encontrou o sonho que sempre o perseguiu até à morte. Hantsport era nessa altura um lugar no seu apogeu. Nela construiam-se navios para toda a parte do mundo. Nela Francisco da Silva encontrou segurança afectiva e material.
Era amado e apreciado na sua comunidade. Mas o seu espírito sonhador, nunca o abandonou e foi na pintura que ele se exorcisou. A saudade transportava-o a outros portos, aos seus...Os seus talentos eram admirados pelos visitantes da próspera família, do senador Churchill.

Na propriedade de Churchil a sua sensibilidade respirava em tudo o que poderia transportar a sua alma: nos jardins, nos muros, nas fontes a cantarem em cristalinos repuchos, em esculturas, no mobiliário e talvez na árvore que abençoa um manto de folhas douradas e para euforia da Anaid, misturadas com castanhas. A infância dá um salto de repente ao seu presente:
- Um castanheiro grita em português. Tenho a certeza que foi o Francisco que o plantou... O senhor de cabelos de prata olha-a sem reservas apesar de não perceber a língua lusa nem o seu entusiasmo. Ela tenta provar uma castanha...
- Iac, cospe, a matéria horrivelmente amarga. Mas guarda uma castanha juntamente com uma folha "d'erable", para recordação.

Francisco, era um homem concernado pelos problemas sociais/políticos da sua época.
O grande humorista que ele era ficou imprimido nas suas telas:
"Settlement of fisheries dispute". Ah, o Tobim estaria em sarilhos se o Francisco fosse da nossa época, pensa Anaid. Como temas escolhe o Canadá, produtor de matérias primas, e sociedade agrícola explorada, e os Estados Unidos, industrializado e muito mais sofisticado. Viveu trabalhou amou.
No dia 13 de Fevereiro de 1864, comprou uma terra situada na rua Willow. No ano seguinte casou com Elizabeth Arnold, na Igreja Baptista de Hantsport. Annie Elizabeh, nasceu seguindo-se de May Alice e James, Rosella e Della, William e Gerald Otis. Como Francisco da Silva, a Anaid sente uma alegria/triste, separadas por um espaço aquático, que como ele tenta povoar com navios mágicos. Como ele, sente reconhecimento pelo país que escolheu e a recebeu e a nostalgia sempre presente, de viver longe daquele outro jardim a beira-mar que lhe deu o seu primeiro beijo.
Imagina-o sentado no seu banco de madeira enquanto pensa e pensa...Talvez no mesmo arco-iris, colorido e diáfano da mesma infância. Para sempre enfeitiçados e cativos. Com ele, sente a saudade. Imagina-o a trazer telas e oleos da "E. Churchill et fils" e nos intervalos dos seus múltiplos trabalhos, trazer os mundos distantes que ele sonhava voltar a pisar. Ela, sentada no banco de madeira que Francisco construiu, pensa no homem: ancorou, num porto seguro, e nasceram-me asas na cabeça...
- "I was titting in the woodshed a tinking and a tinking", recordava com saudade Jessie Bordem, o homem gentil e bom, na sua frase favorita em mau inglês e com um delicioso sotaque português, quando parava para falar um bocado ao amigo que encostado ao muro de cal branco, influência do seu passado, meditava..

No cemitério de Riverbank numa pequena placa, na campa aonde repousa para a eternidade, uma frase simples e bela: "Gone but not forgotten". .

Diana de Moura - Halifax, Canadá
E-mail: diana@portugal-linha.pt




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