Contos Portugal  - O Ponto de Encontro da Lusofonia

Diana de Moura


Atrás das cortinas do pensamento


"L'essentiel est invisible pour les yeux"...
Antoine de Saint Exupery

Foi com a mãe. De Cascais, decidiu-se a acompanhá-la. O avô morreu, e os filhos agora querem repartir o pouco que mobiliva a casa. Vão quase em pé de guerra contra a desgraçada da madrasta que peca apenas porque tenta sobreviver. Ela vai. Sem muita emoção. Os anos tiraram-lhe a sensibilidade em relação às pessoas. Acredita que elas são movidas apenas por interesse.
- Não me reconheço, no retrato que eu projectei para mim. Pensa arrepiada pela sua frieza.
- Eu que acreditava em tudo, eu a sonhadora, a romântica.
O medo, a revolta, a impotência, a solidão, a infedilidade, tiraram-lhe a capacidade de sentir. No passado a obsseção de ir a Penela um dia, alfinetava-a. Enchia-a de alegria. Agora...Não. Vê a Baía de Cascais ficar para trás. Tomaram a Marginal. O mar parece coberto de diamantes. Os barquinhos coloridos dos pescadores dão sombra á areia douro enquanto se repousam. Quando a noite vier, de novo vão para o mar, pescar sonhos. E ilusões.
- Num ponto longe de Portugal... Pensa o pescador.
Passam o mosteiro dos jerónimos. Devia ser divino viver nele. Até ela seria levada a meditar com tal ambiente.
Param em Coimbra. Almoçam num restaurante que o pai costumava frequentar e cinco horas depois chegam. Pouco ou nada mudou. A mãe tem as chaves da casa de azulejos verdes. É lá que a família se reunirá. Na sala de visitas a fotografia dos avós parece dar-lhes as boas vindas. Olha-a. Quando a mãe achou que ela se transformava numa rapariga bonita, dizia sem cessar que era a úncia filha retrato dela. Sem saber porquê sempre rejeitou a tal comparação, e olhava-se na avó, realmente a sua reencarnação, que o doutor Rui um dia com espanto constata:
- Meu Deus Lina, a tua filha é igualzinha à tua mãe.
Qualquer jovem ficaria ofendida por ser comparada à apagada mulher de aldeia, mas ela sentia uma ternura intensa pela ideia que desde pequenina tivera. Quando olhava aquela fotografia, que fazia parte da sua rotina, reconhecia-se na tristeza pensativa dos olhos da avó.
Anos depois, em Oliveira de Frades, a mulher do doutor Juíz, costumava dizer á mãe, que sempre tinha reparado na menina que passava á sua porta, depois da escola. A menina dos olhos tristes, como ela dizia. Sem saber que era a sua filha. Eles não sabiam é que tinha um mundo inteiro dentro do pensamento dela. Que lhes dava a ilusão de tristeza.
Sempre pensou que era feia. Não porque lho fizessem sentir. Mas ao realçarem a beleza celestial, dos irmãos deduziu que ela não tinha nada de comparável. Com frequência a mãe falava da fase bébé dela, a arrastar-se tanto pelas rochas, que a pele da sua cocha se tornou tao rugosa que parecia pele de cobra.
- Que horror. Pensava ela. Olhava-se no espelho, e não gostava do seu corte de cabelo quadrado, que não ficava nada bem em cabelos encaracolados. Por isso, deixou-os crescer, pensando que com o peso eles esticariam.
A mãe. Coitada. Está com o ar abatido, e sente vontade de a envolver nos seus braços. A mãe. Às vezes pensa que ela tem prazer de ver as vidas dos filhos, frágeis. Como se dessa maneira fosse vingada pelos próprios problemas que eles lhe tinham dado, a ela, a mãe gloriosa, vítima, sobrevivente de tantos dramas... Mas agora na sua fragilidade compreende que a vida também não lhe foi fácil. A mãe no fundo era uma sobrevivente numa família que não funcionava. A jovem mimada educada para vencer, encontrou um caminho cheio de espinhos, o qual ela tentou o melhor que pode, atravessar. Arranhou-se ela e aos filhos. Que não estavam preparados para feridas. Na superfície as cicatrizes desapareceram. E tudo parece normal... Tem vontade de a aconchegar nos seus braços e trazer-lhe os carinhos perdidos. A casa dos azulejos verdes traz-lhe um pouco a bondade da avó, senão como explicar a súbita vontade de compreender...e de se sentir boa?
No quarto da avó uma mala velha devia estar debaixo da cama. Como uma criança, não resistiu a espreitar para lá. Lá estava ela. Exactamente no mesmo lugar. Arrasta-a. Abre-a. Lá estão, as fotografias e os seus diários. A caligrafia dela não mudou. Parece que não evoluiu. Desfolha o livro amarelado. Os trabalhos de português fazem parte deles. Lembra-se desse, que a mãe, sua professora lhe tinha pedido para fazer como preparação para um exame. Que ela se divertiu a transcrever para o seu diário com proporções fenomenais para ela naquele tempo. Ainda sente o vestido de bordado inglês, branco, e muito curto, na pele dourada por um sol selvagem:

Penela, é uma aldeola, no fim do mundo, de construção granítica e rodeada de penedos que povoaram a minha infância de fantasias vindas do oriente. Ir a Penela, é recuar sem paragens no tempo, até á idade medieval. Sem monumentos e sítios de importância, os pequenos cantos com pequenos nadas, obrigam um sonhador os seus olhos baixar a terra firme. E deliciar-se com a maravilhosa simplecidade da vida. Nenhuma estação de caminho de ferro, nem estrada importante. Pequenas ruas e atalhos, calçadas empedradas duras e tortuosas. Uma capela do Santo António, com um alpendre, tão antiga que não se lhe conhece as origens, uma igreja, e uma outra capela chamada de nossa sr. da Piedade. O alpendre é a parte mais airosa desses lugares de Deuses, de mortais e rituais. Nos domingos, os homens mulheres e crianças esperam pela palavra sagrada. E quando a missa acaba é lá que o padre conversa com a sua paróquia. Depois no adro, os habitantes da aldeia, dancam ao som dum acordeão.
Os muros cobertos de trepadeiras e musgos, bordados de acacias e mimosas, são passarelas dos passarinhos que saltitam, em liberdade. Com frinchas e brexas oasis dos lagartos e das lagartixas, que cândidas se estendem cá fora para apanharem longos banhos de sol, sem qualquer receio.
Gosto de lhes vêr o peito latejar. Parece um quadro pintado que toma vida.
Penela exerce um fascínio áqueles que a deixam porque sempre a ela retornam. Como se ela lhes oferecesse uma paraiso perdido. Os burros e os cavalos são ainda o meio de transporte. As mulheres como na idade média, sentam-se neles de lado. O que me causa uma extraordinária admiração.
- Como é que elas não caiem?
Um dia experimentei, e tive que me agarrar com todas as forças ao pescoço do cavalo. Só as jovens se atrevem a ser practicos e montarem-nos de maneira normal. No verde negro dos bosques misturam-se carvalhos, nogueiras,castanheiros e pinheiros, arbustos, giestas e fieitos. E aromas. Rosmaninhos que os enamorados queimam nas festas do Sao João. Uma camionete, que vem de penedono a vila mais próxima, passa uma vez por dia, trazendo de volta os consumidores que se foram divertir á feira. Os homens para fugirem à guerra colonial, à ditadura de Salazar e à pobreza, fogem para França, Canadá, e outros lugares no mundo.
As mulheres ficam em casas frias e pobres, cheias de fome e com muitos filhos. A vida do campo, traz-lhes em troca, uns míseros tostões, batatas, castanhas e centeio. De vez em quando, há o luxo de um ovo ou de carne salgada que uma vizinha mais afortunada lhes dá para encontrarem um lugar no paraíso. Como única actividade social, têm as festas religiosas e a igreja.

Tenho três anos . Ninguém repara em mim. Hoje é a matança do porco. Não o quero vêr. Vi os homens à volta dele a atarem-lhe as pernas. Lá fora o grito é dilacerante. Cá dentro, o meu irmão debate-se na sua dor. Ele adora animais e é-lhe insuportável tamanha crueldade. Eu e a Lininha fraternizamos com eles e choramos também. A minha avó, não sabe o que fazer... Parecemos uma sinfonia autêntica. O choro é contagioso.
- É só um porco. Diz-nos ela.
Eu, sem querer, deixei de comer carne. E assim tornei-me vegetariana... Sempre que via um bife, imaginava o pobre animal pendurado de cabeça para baixo, na rua, rodeado por homens com grandes facas.
Enquanto que o sangue, escorre para um grande balde,que depois é cozido,e se transforma aos meus olhos,em esponjas vermelhas. Como é que alguém consegue comer essa massa vermelha?
Horas depois, as mulheres na cozinha, preparam as carnes em vinhas de alho, dentro de uns grandes potes de barro, e uns dias mais tarde fazem chouriças. O encher das tripas, fascina-me. Gosto de ver os dedos ágeis das mulheres a introduzirem as carnes numa espécie de funil, com um pescoço mais grosso que o normal, e vêr aos poucos a tripa a tomar forma.
Gosto de as ver a serem fumadas, penduradas em vigas em frente das enormes chaminés, das cozinhas. Eu divirto-me a fazer arcos de fogo com um pau em brasa que roubei à lareira.. Caminhos de mil estrelas, que desenho em frente dos meus olhos extasiados. A avó diz que se continuo a brincar com o fogo faço xixi na cama. É tarde, porque sinto as minhas pálpebras pesadas. Sinto a minha cabeça a despenhar-se no meu peito. Sinto-me a ser transportada para a minha cama. Acordo quando sinto os lençóis molhados e frios. A avó tinha razão. Sinto a culpa em mim. No meu sonho eu estava sentada no meu bacio a sentir-me tão bem. A tia Alicinha muda-me e adormeço aterrorizada que o acidente aconteça de novo. No meio da noite, ela abana-me:
- Pára de roer os dentes! Sussurra, irritada.
- Que triste ser repreendida por actos que são fora do meu controlo. De novo volto ao mundo das estrelas, esperando não fazer xixi, nem roer os dentes. E sonho. Com princesas encantadas, e anjos e nuvens. E asas, que me transportam aonde eu quero. Sou mais leve do que o ar, e voo ate me cansar. De voar.
O Cocorico do galo acorda-me. O raio de sol brinca no meu nariz. Na casa, o sobrado de madeira, encerado pela minha tia, e depois polido com a ajuda de bocados de velhos cobertores, sente os passos do meu avô. O cheiro do café cevada espalha-se no ar. Ouço-o dizer á minha avó, que vão ter uma boa colheita de vinho. Ela deve estar a lavar louça porque enquanto fala o barulho de pratos estala. Depois ouço o avô a descer escadas e sei que está a preparar o cavalo no estábulo. Corro para a janela enquanto espero que eles apareçam na porta:
- Avôzinho, leva-me contigo. Vais regar os campos?
Para mim é uma autêntica ciência, vêr a água a ser despejada desses enormes tanques, e a galgarem os regos cavados ao longo das culturas de milho, batatas, videiras...
- É muito cedo filhinha, volta para a cama com os anjinhos.
- Dê-me a sua benção, antes de se ir embora.
O meu avô entra no estábulo de novo e eu salto as escadas para cair nos seus braços.
- Vais-te constipar, diz ele, enquanto me redopia no ar e depõe um beijo na minha testa, rito que me descansa.
Volto para a cama e adormeço com a tia Alicinha a acariciar a minha pele de seda, como ela diz. Um dia adoptei-a. Era ela no mundo a pessoa que eu mais adorava. Como eu era pequena e ninguém reparava em mim, era sem preocupação que frequentemente comentários como este aconteciam:
"A Lininha sem a avó morria de dôr. Adoram-se."
Outras vezes era a vez do Jo:
"O avô apodrece o neto de mimo. Adora-o."
A minha sensibilidade ressentia-se:
- E eu? Só me sabem dizer que tenho pele de cobra, a rastejar pelo pátio enquanto que imploro pelo amor da minha mãe: "eu queio a minha mãmã?"
Comecei a revoltar-me e a opor-me à submissão. Inventei um amor eterno que me acompanharia até ao fim da minha vida: a minha tia. E assim eu ia desfolhando página a página um conto em Penela, no qual eu era a principal protagonista.
A tia Alice era a mais nova da família. Foi a única que não foi mandada para o internato, estudar. O meu avô, tinha vendido muitas das suas terras para dar um curso a 5 filhos, esperando que estes depois contribuissem com os estudos dos mais novos. Não se esperava, que mais tarde eles estariam mais preocupados com as suas vidas, do que participarem na educação da irmã. Pelo contrário usavam os serviços dela pedindo-lhe, em troco de um ou outro vestido, que tomasse conta dos bébés que eles iam tendo. Era uma jovem bonita e esbelta. Uma face bordada de caracois negros. Eu invejava-lhe os ganchos de plástico coloridos que ela usava. Flores de mil cores. Irmã do sr. Médico e de professoras, vivia com amargura um ambiente de estudantes, que procuravam nela apenas amizade, mas sentimentalmente preferiam jovens com a mesma longitude intelectual. Os rapazes do campo, também não lhe interessavam. Apaixonou-se em silêncio pelo Fernandinho, que seguia em Coimbra o curso de advocacia. E que via na Alicinha a doce amiguinha de infância.
Em Penela, há um sítio, que me atrai. Afastado da aldeia, um aglomerado de rochas, é chamado de o "castelo" , porque nele vive uma princesa moura, que só aparece em noites de lua cheia, á espera que o princípe a venha libertar do feitiço. É aí o ponto de encontro. A tardinha, corremos a vêr quem chega primeiro ao sítio encantado. E depois competimos com o medo. Primeiro subimos ao ponto mais alto, espreitando as cavidades escuras, esculpidas na rocha granítica. Depois aventuramo-nos a descer uma delas. E a seguir túneis, chamam-nos e tentamos escutar o choro da princesa. É quando um dos nossos amigos imita um fantasma que ressoa, duma voz horrível que nós fugimos, esmurrando joelhos na tentativa de escalar, o que tinhamos descido, o mais rápido possível.
Sinto-me triste pela princesa, que quero encontrar. Por isso exploro as rochas, apesar de sentir como elevadores a subirem e a descerem no meu estómago, quando me atrevo a entrar no seu ventre de novo, a sós. Quando me escapo da casa da bisavo, que fica perto. Convenço-me que a moura não aparece porque não gosta que um grupo de meninos barulhentos, lhe invada o seu território. Tenho esperança que o meu nome tenha relação com princesas do oriente, e por isso me sinto quase da família. E talvez ela faça uma excepção. O chisto brilha. Milhares de espelhos minusculos, brincam a recolher a luz do dia. Um lobo uiva. Ouvi o avô dizer, que de vez em quando aparecem uns sapatos com os pés neles. Única parte do corpo que eles não conseguem comer... E sinto que tenho asas, quando um pássaro, irrompe de um ninho escondido.
A princesa moura atrai-me e ao mesmo tempo apavora-me. Mas um impulso irresistível, faz-me sempre voltar.

Diana de Moura - Halifax, Canadá
E-mail: diana@portugal-linha.pt




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