Contos Portugal  - O Ponto de Encontro da Lusofonia

Oscar Mourave


Um conto de Natal


Cinco eram as bolas que restaram, nada mais. Lembro-me que montar a árvore na minha infância era o ponto mais interessante do Natal. Na família não havia o culto ao Menino - embora houvesse um pequeno presépio de seis ou sete peças -, era a árvore em todos os seus elementos o objecto de nossas preocupações e anseios. Minha mãe saía cedo - levando-me com minha irmã - em busca de um galho ou árvore bem seco. Fora assim em Foz do Iguaçú, foi assim em Manaus por muitos anos, no Rio de Janeiro nunca pois na altura o Natal já havia se convertido em memória familiar. Nos recentes anos não havia árvore, nem presépios, somente uma reunião familiar a lembrar o passado que fora.

Mas esse ano não resisti. Busquei numa dessas ordinárias lojas de Shopping Center uma dessas ordinárias árvores de Natal. Achei uma que envolvia algum interesse. Levei-a para casa e corri ao armário onde estava esquecida a caixa com os enfeites de natal. Cinco eram as bolas que restaram, não mais, e do presépio nada. Olhando os enfeites percebi que a cada ano em que foram usados alguns se quebraram, a cada ano iam diminuindo como se estivessem antecipando o seu desaparecimento material e anunciando-me a sua condição de memória futura: recanto da infância, pretérito sensível. Aqueles enfeites em que eu depusera meu olhar em nada lembravam o Natal onde minha mãe, meu pai e nós sonhávamos com um futuro absolutamente diferente desse em que habitamos agora. Naquela época sou mesmo capaz de afirmar que o futuro não tinha importância em nossa vida, pois o que mais necessitávamos estava presente, éramos nós mesmos: a família, a gata Danada, o cachorro Kojak e no quintal os muitos patos e galinhas. Para nós o Natal era assim... com muitos bichos e a família. E mais ninguém. Mas devo dizer que era somente isso também. Não havia mais que indicasse a data se não fosse aquela árvore. Nada de muito especial na mesa. E os presentes nem sempre existiram... mas lembro perfeitamente da sensação de felicidade e de triunfo de minha mãe ao contemplar o seu objeto: transformava uma velha árvore seca e morta num pequeno monumento de Natal prateado com tintas spray , colorido por bolas de vidro espelhadas e adornado na base com um simples presépio de seis ou sete peças.

Pensei nisso tudo enquanto olhava aquelas cinco bolas de natal restantes. Olhei-as e devolvi à sua caixa logo em seguida, para guardá-las de onde nunca deveriam ter saído. Depois fiquei pensando comigo, à noite, sozinho vendo o noticiário da CNN que o Natal era o passado e revivê-lo agora era exercício de afetação da memória, e que a reunião na casa de minha mãe seria novamente burocrática em suas felicitações e patética nas suas representações: a aparente felicidade do casamento de minha irmã, mais um sucesso profissional de meu irmão e as juras de futuros brilhantes por parte dos convidados. O Natal é isso nos meus dias de hoje. Tomei mais uma taça de cabernet, pus a camisa e peguei os presentes.
Desliguei a CNN. Deixei a luz acesa e parti.

Oscar Mourave - Rio de Janeiro, Brasil
E-mail: menau@clix.pt




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