Almoçava com amigos num tasco perto da faculdade. A conversa estava alegre. Não seria alheio a isto o facto de as canecas de vinho estarem bem perto de ficar vazias. As nossas vidas cruzavam-se nestes encontros, bem regados. Partilhavamos o nosso dia-a-dia à mesa, à boa maneira portuguesa. Rotina nossa. Boa, julgo.
Mas hoje havia de ser diferente. Não me limitaria a pagar a minha parte e a ir embora para as aulas. Algo iria contrariar o que eu julgava ser certo. É pouco o que eu tomo como certo nesta vida, ainda assim a vida passa o tempo a pregar-me partidas como esta.
Saia eu, de coração ao alto, do tasco, quando sou abalrroado por uma velha. Cigana, obeservei então. Abalrroado é verdadeiramente o termo. Como se de um camião TIR se tratasse aproximou-se de mim e desatou numa lenga-lenga neurótica e confusa. Parecia possuída o diabo da mulher. Não havia maneira de parar aqueles murmúrios ensurdecedores. Não me assustou. Supreender é a melhor palavra. Completamente desamparado tentava perceber o que se estava a passar. Ela tentava, sofregamente, agarrar-me as mãos. Instintavamente evitava-o. Sabia que devia fazê-lo. Não sei porquê, mas devia. Lá acabei por entender que pretendia ler-me a sina. Acedi. Acalmou-se. Como se um peso tivesse saído dos seus ombros. Havia conseguido o que queria. Porquê eu? Porque a deixei fazê-lo? São perguntas para as quais, nesta vida, não obtive a resposta. Sem drama. Julgo que apenas me deixei levar. Para longe. Para muito longe. Para lugares para onde, eventualmente, nunca tinha ido, mas que me acabaram por marcar.
Segurou de uma forma firme mas delicada as minhas mãos. Ao primeiro contacto perdi o temor. Fascinei-me. As suas mãos calejadas inspiraram-me confiança. Com uma voz rouca mas perceptível, ouvia-a. Não com os sentidos, mas com o coração. Olhava-me, por vezes, nos olhos. Sentia que vagueava pela minha alma. Pensamentos íntimos que agora já não o eram. Segredos que deixavam, a cada segundo que passava, de o ser. O futuro desenhava-se nas minhas mãos, nos meus olhos, no meu respirar, no meu sorriso nervoso. Ela entendia-o.
Pôs um ar sério. Eu imitei-a.
"O menino é um maroto..."
Sorri. Não podia deixar de o fazer.
"Vai ter uma vida bem vivida. Com quatro filhos, segundo o que as mãos me dizem."
"Não me diga!... E a mãe deles? Vê alguma coisa?"
"Vai-lhe ser difícil encontrá-la. Mas não se preocupe que a encontrará. Os caminhos serão tortuosos, mas vão ter a um local feliz. É bonita, pelos vistos. Bem bonita. E alta. Muito alta. Vai causar inveja aos seus amigos."
Era tudo bom demais para ser verdade. Provavelmente por isso não o seria. Eu sabia-o. Mas ela continuou.
"Os estudos é que parecem atribulados, não é?...", acenei com a cabeça a confirmá-lo, "...vão tomar o rumo do sucesso, não se preocupe. O menino vai ser doutor, mais cedo do que pensa. Tenha é mais cuidado consigo, porque a sua saúde não é de ferro. Um dia cai numa cama e nunca mais de lá sai se assim continuar. A vida, se calhar por isso, não vais ser muito longa. Até aos 67. Bem vividos, parece que Deus assim o quer. E vai ser, quase sempre, muito feliz. Mas com uma vida tão curta não seja timido. Arrisque mais um pouco que Ele proteje os audazes. A sua inteligência o guardará de muitos dissabores, mas deixe a emoção traí-lo um pouco..."
Estava boquiaberto. Não porque me estivesse a ver, mas sentia-o. Tonto.
Tão depressa como chegara junto a mim, desaparecia, agora, por entre os carros e as pessoas que passavam na rua. Nem tive tempo para lhe agradecer. Para lhe fazer outras questões. Para saber outras razões. Para conhecer a sua razão. A sua lógica. Desliguei.
Não mais me lembrei do episódio. Não mais fiz por recordá-lo. Não havia porque lhe dar importância. Achei piada. Foi engraçado. Fim de assunto. Teorizá-lo, dar-lhe relevo não valia a pena. Todos os meus eus concordaram. Sem dificuldades. Há coisas que simplesmente perdem o encanto ao tentar entendê-las. Este permanece graças ao mistério. Ao facto de não ser razoável. Nem tudo pode estar dentro dos parâmetros que definimos como normais. Não que sejam anormais. Não. Apenas diferentes, insólitos.
II
Um carro vinha a grande velocidade em sentido contrário. Uma chatice. Desgovernado, completamente desgovernado, embateu em mim violentamente. Cruel. Sem hipótese de salvação. Um instante. Foi o que bastou. Sem sofrimento e sem demoras. Sem recurso ou uma segunda oportunidade. Simples. Como tudo o que vivi. Sem grandes complicações.
III
Uma luz ao fundo do túnel. Imagens e imagens. O filme da minha vida. Recordações. Fim. Disto, pelo menos. Pairo, agora. Sobre tudo e sobre todos. Não sou melhor ou pior do que era. Diferente, só isso. Mas tenho tempo. Muito tempo. Uma eternidade pela frente. Para pensar e repensar. Para mudar? Não. Reflectir sobre o que fizemos não muda nada, mas conforta-nos. Alivia-nos a alma e ajuda-nos a fazer um pouco melhor na próxima vez.
Terá Ele sido injusto comigo? (Arrependo-me da questão.) Terei eu sido justo comigo? Vivi como quis, mas exigi pouco. De mim mesmo e dos me que rodeavam. Existi (define-me melhor os sentimentos) como quis. Não me arrependo de ter passado uma vida com a Sofia. Gostava dela, mas, agora vejo, não a amava. Fui mau. Para ela, essencialmente. Acomodei-me ao que consegui. Tive preguiça de querer mais. Procurar custa. Imenso!!! Preferi poupar uns trocos a saltar com cordas nos pés de pontes de onde não se via o solo. Preferi vestir um fato a uma t-shirt velha que ela gostava. Não corri quilómetros por amor. Escolhi estar no meio do trânsito a levar os putos para a escola. Irresponsável? Imaturo? Não. Definitivamente, não! Não posso é viver aos 20 como se tivesse 50, nem o contrário. Cada coisa a seu tempo. Eu precipitei-me. Não voltaria a fazê-lo. Pelo menos pelas mesmas razões. Uma amizade é algo que nos emociona. Uma grande amizade faz-nos felizes. O amor tira-nos do sério. Eu nunca saí do sério. Fui um tipo alegre, mas pacato. Muito metido na minha vida. Tão metido nela que acabei por não a viver da forma que devia. Ou pelo menos que devia tentar. Formado aos 22, casado aos 24, enterrado aos 51. Resumo. Pequeno, mas revelador. Não esperava isto de mim. Mentira. Eu podia esperar, mas Ele penso que não.
E agora?
IV
As nossas vidas são segundas oportunidades. Chances de fazer melhor. Ou diferente, pelo menos. Assim o fiz. Assim o quis fazer. Tinha tido tempo para decidir fazê-lo. Graças a Deus!
Hoje, por hoje, sou um tipo normal. Discreto. Não faço grandes ondas. Mas aproveito o que o mundo me dá. E não me limito também a ficar por aí, busco sempre mais. Não olho para trás muitas vezes. Amo. Tudo e todos.
Ela segura-me nas mãos, de uma forma decidida, mas doce. Com a sua voz rouca, sussura ao meu ouvido: "Amo-te. Só isso.". Olhei-a nos olhos e dei-lhe um beijo. Sem dizer uma palavra que fosse.
Formado aos 23, casado aos 29, enterrado aos 67. Resumo pequeno, mas revelador. Profundamente revelador.
Não fiz nada de mais. Não faço nada de mais. Aproveito as oportunidades, porque nunca é tarde. Mas no fundo, quanto mais cedo o fizermos melhor! Não é?!