- Vamos beber mais um copo? Pergunta difícil e aliciadora para quem a recebe neste momento tão confuso. Um rapaz situado entre o tempo de crescer e o de viver, que tenta sobreviver ás contradições da vida, aceita o convite. Difícil resposta. O descontrolo é tanto que optar por ficar ou ir jamais é questionado pela pequena parcela da mente sóbria.
Os seus amigos, perdidos nas pequenas e imediatas conversas de café, bebiam ao som da música, abrandando e aumentando a bebedeira consoante os sons e ritmos lhes aceleram a disposição. O convite foi ouvido ao acaso através dos fios de conversa da teia de diálogos do bar, e mais dois aceitam. Amigos sedentos da novidade migratória de procurar outros lugares e aventuras, aceitam, emborcando antes, mais umas poucas garrafas do liquido tão poderoso e suculento: o néctar dos deuses modernos.
As escadas na saída do bar mais parecem uma pintura a óleo feita por um miúdo de cinco anos, tal era a bebedeira circundante dos espíritos em partida. Os automóveis lavados e envernizados pela goma da chuva esperam quietos pelos condutores que se aproximam em frenesim. As portas batem, picam-se os pedais e os cavalos de lata hibernados, acordam do sono e iniciam o seu galope incerto pelas estradas, rumo ao paraíso nos montes verdes rurais. A música abafa o relinchar dos motores e a conversa perde-se e encontra-se por entre o gole de cerveja e a passa do charro. O tempo pára para a viagem se mover, e os relógios
controladores são postos à parte da vida, como se tudo se quedasse estático e o único movimento fosse as rodas molhadas e furiosas a rodarem. As luzes são baças, escondidas pelo brilho opaco da lua sobre as nuvens e a agua ao cair feria a percepção a que os sentidos foram habituados. Nada importa. Tudo fica à parte, é só absorvido o que sentem e não o que vêem.
Entram no ultimo circuito que dava acesso à tão conhecida cabana dos pequenos prazeres. Um trajecto incerto, esburacado, ideal para um bom cavalo selvagem lusitano perseguir as sereias inspiradoras do seu amor. Passam os caminhos amazónicos e encontram o planalto virado para a aurora prestes a nascer, ensombrado pelo continuar do monte, rumo ao ocaso.
Uma pequena cabana plantada nos limites do planalto, virada para os montes em frente, é a visão circundante e apetecível dos jovens energéticos que desmontam as celas e correm para o abrigo misterioso. As suas portas, sem trincos e de uma madeira há já muito habitada por organismos sedentos da sua fome, barram o acesso do paraíso para o céu, e, nas imediações, um pequeno terreiro decorado pela arte da experiência, fazia gosto aos olhos, de tal forma que, os corpos se enraízam na terra e se tornam em máquinas fotográficas vivas. Lá dentro, em contraste com o esverdeado escuro da paisagem no exterior, as luzes aprisionadas em velhos e antigos castiçais, mordem as sombras, fazendo com que as trevas imperceptíveis das formas se tornem simplesmente definidas e autenticas. Os velhos utensílios de uma geração agrícola morta assombram o lugar. As mesas e bancos familiares decoram o espaço entre paredes, e ao fundo, um montão de objectos inimagináveis para as suas mentes corrompidas pelo belo e estético modernismo, buscam a beleza genética das formas puras e esquecidas nos arquivos da memória embriagada. Uma pequena estalagem, em que outros tempos serviam mulheres e cerveja sem gás, era agora um refugio nocturno que caminha, talvez a passos largos para as pedras, para o cimento, para as luzes, para o néon, para as cores viciantes da cidade.
A música toca, e é o ponto X dos seus tesouros, a companheira dos bons e maus momentos, que eles a devoram como um belo manjar depois de duas semanas num hospital. A bebida aparece em cima do balcão de madeira, remendado com apetrechos de ferro, como publicidade na televisão na hora nobre, e o bar sorri-lhes cintilante, com suas cores e formas puras, esteticamente rudimentares, mas poderosas. Os grandes bancos individuais, colocados na parte exterior do balcão, proporcionam um merecido descanso esperado. De bocas abertas, beijam o gargalo das garrafas, e o primoroso liquido desce rumo á foz no estômago. As conversas iniciam-se a um ritmo tal que só alguns as conseguem domar, e o Cabelos de Mel, o mais bêbado deles todos hoje,
delira e busca apoio nas paredes que parecem seguras, atirando para fora da gaveta palavras com cheiro a álcool e vomitadas do estômago.
Nós, mais o anfitrião e sua namorada, perdemo-nos em conversas sobre sonhos que desejamos e confrontos expressivos sobre gostos e atitudes de vida.
Tudo se desmorona com a visão do amigo nauseabundo. Os seus olhos foscos buscam a compreensão possível de quem, por no momento não se conseguir compreender a si próprio, o consegue compreender a ele. A sua mente está afogada em barris de cerveja e proporcionam ao corpo um banho turco com todos os seus componentes. Seus pés, entrelaçam-se no ar, que parece repleto de arbustos impenetráveis numa floresta densa nos confins do imaginário. As pernas tremeluzem exalando descontrole mas, a força vinda sabe-se lá de onde, apoiam-nas, como estacas, que seguram um barco em reparação na areia de uma praia.
A música sobe de intensidade. O som torna-se cada vez mais louco e excitante para os ouvidos embriagados, semicerrando os olhos por consequência, que parecem estrelas a morrer. As conversas, tornam-se cada vez mais confusas e desfiguradas, perdem-se em labirintos de frases inacabadas, desgovernado os assuntos, caindo a compreensão numa tremenda confusão.
As investidas ao exterior iniciam-se, as barragens avisam abrir, os fechos e botões anunciam uma fuga da cela. Os rios de urina ameaçam inundar as superfícies carregadas de cheiro e orvalho. A vontade é mais forte que a força, e os três saem, escolhendo cada qual o seu lugar de despejo. Inicia-se então, aquilo que de mais natural e fisiológico se lhes avisa , a descontracção pelo prazer de expelir o que se consumiu.
Na orla da pequena clareira circundam árvores, mais ao centro, mesas decoram o espaço com o um tom ferrugento. Um pequeno caminho, descaído do terreiro circunda todo o espaço correspondente à cabana e, virada para o mar, um arvore entrelaçada e enamorada de um azevinheiro, serve de cortina para a luz da lua, que agora se deita em pequenas nuvens, como se fossem toalhas estendidas num areal de praia, e espera assim o sol para se bronzear. Um grande ramo pende um pouco da arvore e aponta
o poente e as sombras da montanha. Um baloiço está amarrado ao ramo, por cima de um declive de terra mais ou menos acentuado, e é a guloseima de um deles, que sem demora se encavalita nele, impulsionado o corpo para a frente, avançando no ar cortante como se de um pássaro em aulas de voo se sentisse. Os outros, percorridos pelo frio hipnótico regressam para dentro, e voltam depois, deparando-se novamente com a imagem do pêndulo humano, em movimento a tocar o céu com a ponta dos sapatos. A arvore ricocheteia e solta gemidos de amor, enquanto o azevinho envolto na sua beleza disfarçada, espera o momento certo de cravar os espinhos a quem os importunasse no seu leito romântico.
O quadro esta pintado. O espectáculo de circo rural começou, e os famosos trapezistas, movidos por sonhos de infância, anseiam
demonstrar as suas qualidades de artistas. Todos experimentam. O Cabelos de Mel, que pouco mais se consegue segurar a pé, desfruta o prazer de olhar para o simples baloiço, filho da árvore, casada com o azevinheiro.
Como sempre, a emoção leva á razão e a razão à inteligência, a inteligência à ideia e a ideia à prática: melhorar o baloiçar do
baloiço. Então, passa a empurrar outro , que busca impulsão no cimo do declive, empurrando as costa do que está sentado até ao fim da inclinação, parando no caminho mais abaixo. A aventura torna-se agora mais febril e vivida. O corpo no baloiço atinge o espaço do ar impossível, e os pés tocam por pouco o sovaco do braço da arvore, onde apoia o baloiço, fazendo-lhe cócegas, tentando agradecer à arvore a ajuda na brincadeira. O Cabelos de Mel, atordoado pelo passeio às nuvens, quer agora ser o motor de impulsão do próximo voo. Dá uns passos atrás. Alguém se senta no baloiço. Prepara o corpo para o arremesso. O outro toma lanço como um touro numa arena a dirigir-se para o pegador. Olha para o amigo observador. Dá mais um gole de cerveja. A actividade exige combustível. A sua respiração embebeda o vento. Olha em frente. Procura um alvo e o centro. O 100. Encontrou-o
e fica a uns milhões de anos luz. O lançamento toma contagem decrescente. O amigo incentiva-o e avisa-o do perigo disfarçado. Ele
ouve, memoriza , mas arquiva-o longe do momento. Inspira fundo. O ar entra-lhe nos pulmões como soldados a entrar num castelo para uma invasão. Sente-se forte e quer conquistar a muralha. Dá um grito de revolta, estonteante, e inicia a corrida. Nobre cavaleiro. Acompanha à frente de suas mãos as costas do baloiçante. As pernas parecem dois pêndulos a baloiçarem-se em sentido inverso um do outro. Os corpos iniciam a descida. Um sobre terra e outro sobre o ar. O momento da descolagem é próximo. Milésimos de segundo e o foguete é impulsionado para o ar, separando-se da carcaça que não o pode acompanhar. O momento crítico da separação surge de rompante. O motor de impulsão voa em flecha sob o baloiço e o foguete é arremessado para o ar.
O lançamento foi um sucesso. O foguete alcança o espaço entre eles e o resto de tudo. A foto é tirada. O ar é rasgado por pés cortantes e atingem o clímax da emoção. Sucesso! A carcaça separou-se no momento certo e desaparece. Desaparece. Não consegue parar no momento certo.
Já não existe? Foi desintegrada pela atmosfera? Não. Ela sumiu. Caiu uns passos à frente dentro do precipício.
Atenção! - dizem os técnicos - algo de errado aconteceu!? Uma falha na descolagem correu mal! Onde está o Cabelos de Mel?!
O pânico é lançado. Correm para a ravina e espreitam para as profundezas do desconhecido. Esperam ver tudo bem com ele. E vêm. Ele está lá em baixo encaixado nas pedras como se fizesse parte da escultura. Um corpo mole com vida fundido num complexo amontoado de outros corpos inanimados, geme, não se sabe bem se de dor se de regozijo pela excelente função no lançamento,. O sorriso aparece-lhe então nos lábios e as palavras saem pelo desabrochar da sua boca:
«ei pá! Estou todo partido!». Mas não está. Ele levanta-se. Parece um homem das cavernas a sair da sua gruta para ir à caça. Ele está salvo e não sentiu nada. A sua auréola protectora permaneceu em seus objectivos. Sucesso! Aplausos! O lançamento foi realizado com êxito.