"O ADESTRADOR DE PAPAGAIOS" ou
(O caso edificante de uma meritória corporação)
I - A TERRA
O senhor Abelardo Farral era um razoável funcionário da Prefeitura Municipal de Santa Clara do Bosque, onde, apesar de ter cursado um dia, ou melhor, várias noites, alguma obscura escola de direito da região, exercia a tarefa de Chefe do Arquivo Central. Levava uma vida relativamente confortável com mulher e duas filhas, já que além de hábitos austeros, tinha uma fonte adicional de honorários fazendo, com considerável competência, o que mais gostava: adestrar papagaios.
Essa ave, embora não fosse nativa da região, tornara-se comum em muitos lares por emulação do gosto pessoal de um antigo patriarca da cidade. O município, relativamente próximo à capital, sempre cultivara, por sentimento de obrigação vinculado ao nome, a presença de muitas áreas verdes, parques e jardins botânicos, e até um pequeno "zoológico".
Há cerca de uma década de quando se passa a nossa história, em inflamado discurso na Câmara Municipal, o então prefeito havia lançado as bases da atual "Escola Superior de Biologia de Santa Clara do Bosque". Nas suas palavras, presenciadas pelo Chefe da Secção de Protocolo do MEC (1) , filho da terra, essa seria a semente da futura "Universidade Ecológica", realizando a vocação natural da cidade e tornando concreto o sonho dos seus eméritos fundadores que, dizia: - "...nos primórdios da nossa história, já anteviram a importância vital da biodiversidade para o futuro que se avizinha, para a soberania nacional, e como resgate da missão transcendental de Santa Clara do Bosque."
(1) Antigo Ministério da Educação e Cultura.
"E preciso ver com certa moderação os anúncios sempre presentes de "uma nova era". Algumas pessoas, ou por deslumbramento ou por conveniência, estão sempre anunciando um novo porvir ou mudanças extraordinárias no horizonte. Muitas vezes, são apenas eternos entusiasmados com a última novidade.
II - O HOMEM
Muitas outras coisas poderiam ser ditas sobre esse extraordinário evento e suas consequências para o município, mas a nossa intenção é, mais que tudo, relatar a fabulosa carreira do Dr. Farral que, pelas suas habilidades, foi várias vezes convidado para palestras e demonstrações para alunos do curso de biologia. Suas apresentações sempre despertavam grande curiosidade e a ninguém pareceu muito estranho quando, uma semana antes de terminar seu mandato de prefeito, o primo "Fredão" o contratou como professor regular da Escola. "Fredão" era seu primo por parte de mãe, da qual herdara o apelido que passara a usar como sobrenome. De batismo chamava-se Abelardo de Souza Aranha, mas esse sobrenome fantasia, não só oferecia melhor sonoridade como evitava a desagradável referência a um artrópode. Tornou-se sua marca predileta e tinha uma origem pitoresca de que a família se orgulhava, relacionada à forma especial de tratamento recebida por sua mãe quando jovem na empresa inglesa em que trabalhava. Um caso quase idêntico às origens do termo que identifica os tradicionais forrós nordestinos.
"Nem tudo que vem do estrangeiro é elogioso ou bom".
A sua carreira acadêmica ganhou, efetivamente, importância quando, cerca de um ano depois de contratado, propôs a criação de um curso específico de adestramento de papagaios. O Titular de Ornitologia, Professor Edgar, a princípio, desconversou mas, meses depois, aproximando-se a eleição para Diretor, à qual se decidira concorrer, lembrou-se que a família Farral contava com mais de doze funcionários votantes. Além disso, o Sr. Farral havia cuidado pessoalmente de desprogramar o papagaio da Dona Matilde, bibliotecária do departamento, que havia adquirido o hábito absurdo de repetir obsessivamente: "Deguinha, Deguinha !"
"Há decisões importantes que, sabe Deus como, percorrem caminhos obscuros."
O curso obteve um sucesso muito maior do que se poderia esperar, em parte porque era tido entre os alunos como extremamente pitoresco e, talvez, porque o Sr. Farral, que logo se tornou Dr. Farral, desenvolveu uma irrefutável demonstração de que se tratava de um campo profissional extremamente promissor. Essa argumentação se baseava em um exercício matemático simples ligado à conhecida longevidade dos papagaios. Havia evidências de que um certo percentual de pessoas, anualmente, adquiria papagaios como animais de estimação e, portanto, em relação ao número de proprietários, menos longevos, a população de papagaios crescia. Além disso, ao sobreviverem aos seus primeiros donos, os herdeiros, frequentemente, desejariam reestruturar o vocabulário dos seus animais de estimação o que, somado a outras mudanças eventuais de ambientes, conferia uma média estimada de 2,8 treinamentos por ave. Note-se, que o dedicado mestre havia criado um conjunto de pequenos vocabulários especializados que poderiam servir de roteiro básico para diferentes condições de vida ou preferências pessoais. Por exemplo, não ficaria bem ao papagaio do Sr. Álvaro, da funerária, assobiar "Aquarela do Brasil", como costumava quando o recebeu da viúva de um seu cliente. Teria que ser reeducado para o uso de expressões sóbrias e, até mesmo, para um apropriado silêncio quando da presença de fregueses.- "Sim, dizia o nosso especialista com sabedoria, porque o silêncio não deixa de ser uma espécie sutil de linguagem".
Seus fascículos de vocabulários foram reunidos e publicados pela Editora da EBISCLA (Escola de Biologia de Santa Clara do Bosque) sob o título original de "Os Psitacídeos e a sua Circunstância". À capa, com grande espírito, estavam presentes caricaturas de diversos papagaios nas mais variadas vestimentas: fraque, roupas esportivas, uniformes de médico, mecânico, juiz de direito e outras. O termo "psitacídeo", a bem da verdade, foi uma exigência da Comissão Editorial, a quem cabia zelar pelo prestígio científico da publicação.
Mas a sua carreira acadêmica não foi sem percalços. Algum tempo depois foi surpreendido pela exigência do Conselho Diretor de que todos os professores efetivos, para se manterem no cargo, deveriam comprovar, em tempo hábil, seus títulos acadêmicos. Assim, o Dr. Farral viu-se na contingência de ter que defender uma tese.
A primeira hipótese que lhe ocorreu foi elaborar um estudo comparativo do comportamento dos papagaios machos, que falam, com as fêmeas, que não falam. Foi dissuadido pelo seu orientador que o alertou quanto ao perigo dessa idéia: não era coisa politicamente correta e poderia ser interpretada como uma forma dissimulada de defender fundamentos de diferenciação biológica favoráveis aos machos. Embora o Dr. Farral argumentasse que era um fato interessante, inclusive porque na companhia da fêmea os machos também se calam, o Dr. José Prudente pensou bem e achou melhor não arriscar. Para que, disse-lhe, com tanta coisa inócua para estudar ele iria comprometer-se e comprometê-lo, com um estudo de alto risco, que poderia deixá-los em maus lençóis? Havia trocado idéias com Dona Carmem, sua esposa, com forte liderança na Comunidade Acadêmica, que o escutara com um ar meio desconfiado. Depois, comentou laconicamente: - "Só vendo". Positivamente, não era uma boa opção.
"As virtudes do medíocre, como descreveu Ingenieros, estão mais nos seus temores do que nas suas realizações"
Depois disso, chegou a estudar seriamente a sugestão da Dra. Solange, psicóloga da escola de suas filhas que, sabendo do seu interesse em desenvolver uma tese acadêmica, demonstrou-lhe que no imaginário popular brasileiro, o papagaio, essa ave tão nossa, desenvolve um papel de alter ego, o que pode ser claramente observado através das "piadas de papagaio". A irreverência, a malícia e a improvisação próprias do papagaio, enquanto personagem mítico, representariam, segundo a Dra. Solange, a forma como todo brasileiro se vê ou, mais precisamente, gostaria de se ver. Não desejando arcar com o ônus social dessa irreverência, o brasileiro projeta e realiza, simbolicamente, a sua aspiração inconsciente através do arquétipo "papagaio". Através dele, diz o que gostaria de dizer e, por condicionamento social, reprime.
"Teorias psicológicas são sempre muito sedutoras mas, como disse Descartes: não há absurdo tão grande que algum filósofo um dia não tenha dito. E, acrescentaríamos nós, de forma convincente
Depois de colecionar cerca de duas dúzias de piadas de papagaio como material de pesquisa, o Dr. Farral chegou à conclusão que era melhor reprimir mesmo, já que esse não era seu ramo e, afinal, devia fazer uma tese sobre os próprios papagaios e não sobre pessoas que gostariam de ser papagaios. Sua conclusão, aparentemente, foi precipitada pelo fato de que dois colegas foram às lágrimas de tanto rir quando viram suas anotações e o Prof. Prudente simplesmente não acreditou, pedindo-lhe para tirar uma cópia xerox que pretendia ceder ao barbeiro, emérito contador de piadas.
Finalmente, depois de muitas marchas e contra-marchas, estruturou sua tese desenvolvendo-a em quatro capítulos. O primeiro era uma introdução histórica sobre o papagaio entre os homens, citando sociedades antigas em que este se fizera presente e o ponto alto era uma vigorosa catilinária contra os romanos que, segundo alguns livros, serviam línguas de papagaio como iguarias em banquetes e orgias diversas. O ilustre professor concluía que tal desprezo pelos limites do razoável só poderia resultar, como de fato resultou, no desmoronamento do império. Já o segundo capítulo era de fundamentação científica, descrevendo a anatomia e características gerais do aparelho fonador que permitia aos pscitacídeos reproduzir os sons captados no ambiente. Retirou-o de dois livros, um de anatomia comparada e outro de ornitologia e, embora não tenha compreendido muito bem algumas gravuras e explicações fisiológicas, pareceu-lhe estar suficientemente claro para abrir a discussão do terceiro capítulo. Este representava a tese propriamente dita, pois continha a descrição e os resultados da sua experiência de campo. O Dr. Farral testara em quatro papagaios jovens o tempo de aprendizado de um conjunto de palavras constituídas de um igual número de oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas. Apresentava diversas tabelas de tempo para cada palavra e, através de uma série de cálculos de médias aritméticas em dias e horas, concluía que os papagaios aprendiam mais rapidamente as paroxítonas, com pequena diferença em relação às oxítonas e significativa diferença em relação às proparoxítonas. Fechava com uma bem cuidada bibliografia elaborada pessoalmente por Dona Matilde.
"Alguém já disse que um cachimbo dá ao sábio tempo para pensar o que vai dizer e ao idiota algo para enfiar na boca. As pesquisas não são diferentes."
A defesa da tese constituiu-se em um dia memorável da vida do professor, toda a família e muitos amigos presentes. As palavras elogiosas proferidas pelo Prof. Edgar o emocionaram e, afinal, estava cumprida, em tempo hábil, a sua obrigação acadêmica e garantido o prestigioso posto que fizera por merecer. Poderia, inclusive, passar a orientar a pós-graduação de jovens que desejassem especializar-se como profissionais de adestramento de papagaios. E assim seria.
Entretanto, teve, também, alguns dissabores inesperados. Quando a diretoria do Centro Acadêmico foi assumida por alguns alunos filiados ao PV do B (Partido Verde do Brasil), estes investiram ferozmente pelo seu jornalzinho contra a notória agressão representada pelo trabalho do Professor Aranha, como preferiam chamá-lo. Sua postura anti-ecológica era tão evidente, argumentavam, que até alterava seu nome, afastando-se, assim, do que talvez fosse o único elo que ainda mantinha com a natureza. Algumas frases o magoaram profundamente. Diziam: "O Professor Aranha considera os papagaios simples gravadores com penas. A quem o Aranha pretende enganar? Pior, a quem pretende favorecer transformando uma ave genuinamente nacional em instrumento de consumo capitalista? É preciso resgatar o respeito pela dignidade animal! Ou essa tarântula do ensino pensa que ficaremos de braços cruzados assistindo a transformação dos nossos papagaios silvestres em cópias baratas de personagens da Disney?
Repudiamos essa dominação a nível de relação Homem-Animal, tão própria do projeto neoliberal dos que exercem o poder nesta cidade. Um poder espúrio e ilegítimo, que não foi discutido com a sociedade civil e do qual o Professor Aranha se beneficia. Do seu nome só resta mesmo o veneno!"
Durante alguns dias o professor Aranha, digo, Farral, ficou arrasado. Tinha a impressão de que todos o olhavam com raiva ou piedade, conforme a opinião que ele supunha tivessem a respeito das acusações. Chegou a pedir uma sessão de desagravo no Conselho Diretor e, já que se tratava de Editorial não assinado, pensou em processar um seu aluno, "Cabeção", Presidente do Centro Acadêmico. Para sua surpresa, entretanto, descobriu que poucos haviam lido o referido jornal e, entre os que leram, muitos não tinham entendido do que se tratava. Acontece que os "Verdes do B" haviam debatido longamente a evidente incoerência apontada por uma das suas facções mais radicais, a "Falange Clorofila", de se usar fartamente papel, colaborando para a destruição das florestas. Após cerca de dois meses de argumentações e contra-argumentações em que se empenharam as quatro facções, os doze membros do partido votaram e prevaleceu a proposta conciliadora: o jornal seria mantido com uma tiragem de apenas cinco exemplares, uma para o mural e outras quatro que deveriam circular de mão em mão minimizando, assim, a destruição, até que se encontrasse uma solução melhor. A transmissão verbal da pauta e, principalmente, dos editoriais foi considerada inviável. Os "Clorofilas" acabaram concordando, desde que o papel fosse depois reciclado, coisa que a facção sanitária se comprometeu a fazer. Assim, graças a toda essa austeridade em matéria de papel, o Dr. Farral pode, com ar distraído, simplesmente deslocar um cartaz da exposição de orquídeas para cima do exemplar do mural, retirando-o depois e diminuindo em, no mínimo, 20% as chances de alguém ler aquelas injúrias.
"Quando uma proposta parece ser a intermediária, geralmente é aprovada"
Durante alguns anos, o Dr. Farral ministrou tranqüilamente suas aulas, foi licenciado na Prefeitura, onde não era mais o chefe dos arquivos e, quanto ao adestramento de papagaios na atividade privada, passou a fazê-lo através de uma microempresa da esposa, já que o regime de dedicação exclusiva na EBISCLA não lhe permitia ter, oficialmente, outra fonte de renda. O município acabou por se transformar em uma certa referência regional para a aquisição dessas aves e isso reforçava os argumentos do mestre a respeito dos aspectos promissores da atividade. Até mesmo "Cabeção", seu desafeto do PV do B, passou pelo curso e recebeu o seu certificado embora insistisse, aderindo à nova tendência de flexibilização do partido, que os eventuais papagaios sob sua orientação só seriam treinados em sons naturais, ou seja, de outras espécies animais do mesmo ecossistema. Seu ponto de vista era uma versão purificada da "teoria das circunstâncias", já que um papagaio poderia imitar outros pássaros e aves em geral, até mesmo rugir, silvar, guinchar, etc, mas estaria submetido à extrema degradação quando passasse a reproduzir sons humanos. - "Esse modelo antropocêntrico superado, dizia ele, deve ser substituído por um outro em que os estudos efetuados a respeito dos papagaios não sejam instrumentos de opressão como hoje, mas revertam em benefício do próprio papagaio, a nível de aperfeiçoamento das suas possibilidades biológicas."
Um fato singular viria a exercer influência inusitada na vida do professor Farral. Certa ocasião, encontravam-se na cantina da EBISCLA três ou quatro jovens entre auxiliares de ensino e pós-graduandos e, como estivesse presente o bem sucedido adestrador de papagaios de que nos ocupamos neste relato, surgiram alguns comentários sobre as dificuldades de carreira sentidas por todos. Alguém fez referência aos pontos de vista do Dr. Farral sobre mercado de trabalho e, de certo modo, todos admitiam que eram fundamentados mas, por alguma razão, os frutos imaginados não estavam sendo colhidos. Dificilmente algum deles tinha a oportunidade de adestrar um papagaio e, quando o fazia, era muito mal remunerado.
Sônia, uma estagiária de psico-biologia que estudava o comportamento sexual das aves, comparando a fidelidade conjugal dos pombos - mesmo dos pombos-correio - à atitude liberada das galinhas, abrindo mais uma latinha de cerveja comentou: - "O problema é que a profissão não é regulamentada". Houve um assentimento geral e alguns logo aduziram argumentos a essa tese: havia a indiferença das pessoas que, sem qualquer preocupação, deixavam que seus papagaios adquirissem vocabulários caóticos, casuais e freqüentemente, impróprios; havia os que, amadoristicamente, adestravam-nos de forma inadequada e, pior que tudo, outros profissionais que, sem a formação devida, invadiam essa área específica de competência. Alguém lembrou que até mesmo o Zoológico Municipal de Santa Clara do Bosque, embora possuísse um número razoável de psitacídeos, deixava-os aos cuidados de qualquer funcionário sem qualificação e supervisionados por veterinários sem especialização. O Dr. Farral deu testemunho de que nenhum deles havia passado por seus cursos. Foi consenso que essa situação era injusta, agredia o direito adquirido dos profissionais de formação na área e, além disso, configurava um risco de graves consequências para os papagaios. Alguém deveria fazer um trabalho para unir a classe e reivindicar seus legítimos direitos e, embora nada fosse dito nesse sentido, ficava claro que a liderança natural para uma missão dessa envergadura só poderia ser o mais prestigiado profissional do ramo.
"Direitos, como o amor, surgem por razões que a própria razão desconhece."
O Dr. Farral saiu dali fortemente impressionado pela conversa ocorrida. Na verdade, até ingressar na carreira acadêmica sentia-se prestigiado em ser um bom funcionário público e respeitado adestrador de papagaios mas, agora, freqüentava um ambiente em que todos se consideravam, com ou sem razão, pessoas brilhantes. Todos desfilavam permanentemente a sua importância, capacidade renovadora e de liderança. Muitos, como forma de melhorar a sua posição relativa, não perdiam oportunidade de tecer comentários depreciativos sobre outros membros da mesma comunidade acadêmica ou, em se tratando de amigos, apenas suavemente críticos. O Dr. Farral tinha sensibilidade suficiente para imaginar as referências de que seria alvo. A hipótese de se tornar um líder de classe rodopiou por alguns dias na sua cabeça e encontrou o seu rumo. Em uma segunda-feira, procurou pessoalmente ou por telefone os colegas daquela primeira conversa, mais uns poucos acessíveis e da sua confiança e marcou uma reunião após o expediente no departamento. Eram, ao todo, oito pessoas e seis compareceram.
"Quando os fatos não concordam com a teoria, a tendência é procurar mudar os fatos."