"O ADESTRADOR DE PAPAGAIOS" ou
(O caso edificante de uma meritória corporação)
III - A LUTA
A reunião, bastante informal, teve apenas um toque de cerimônia ao ser aberta pelo Prof. Prudente que, logo em seguida, precisou retirar-se para atender compromissos particulares, deixando o Dr. Farral, "a pessoa mais indicada" para o que se estava por discutir, na condução do encontro. Este, após uma rápida referência histórica ao desenvolvimento dos cursos especializados na EBISCLA, reproduziu, em poucas palavras, as preocupações manifestadas por vários dos presentes no encontro da cantina. Ao expor as diversas questões e argumentos, tomava o cuidado de referir sempre: "como disse fulano", "conforme lembrou sicrano", olhando para o próprio. Ao citar a Srta. Sônia, que fizera o diagnóstico de vácuo normativo na profissão, esta tomou a palavra e falou por cerca de quinze minutos sem muitas vírgulas, o que fazia justiça ao seu fôlego de antiga nadadora, embora portasse um cigarro pendente no canto da boca a maior parte do tempo. Um acréscimo aqui ou ali por outros participantes e estava claro o que deveria ser feito. Na segunda feira o Dr. Farral procuraria transformar os registros de ex-alunos seus em um cadastro ou, como insistia um dos colegas, um "mailing list" que seria a clientela potencial do I Congresso Nacional de ..., e aí começaram as dúvidas: seria fonopsitaciologia ou fonopsitaciatria? Acabou havendo consenso que o primeiro termo referia-se ao estudo propriamente dito, com um enfoque nos padrões considerados normais, enquanto o segundo atendia ao sentido de intervenção corretiva como ocorria, por exemplo, nas reprogramações de vocabulários. Quando tudo parecia resolvido optando-se pelo uso associado de ambos os termos, surgiu uma nova objeção: o prefixo fono era limitativo! Particularmente Sônia, a estagiária, insistiu muito nesse ponto: embora os padrões comportamentais vigentes privilegiassem os atributos e habilidades fonatórias dos papagaios, isso não deveria ser considerado isoladamente e a ave deveria ser vista como um todo. Portanto, num enfoque mais amplo, era preferível simplesmente retirar o prefixo.
Houve algum debate, já que havia argumentos contrários voltados para o prognóstico de uma certa descaracterização da atividade: era preferível ser preciso do que vago, marcar mais fortemente a especificidade da profissão. Sônia considerou isto como um resíduo de resistência positivista inteiramente dissonante com os novos paradigmas científicos e sociais. Venceu a teoria holística, retirando-se o prefixo e prevalecendo a tese de que quando este fosse aplicado se estaria referindo às sub-especialidades predominantes, mas não exclusivas, dentro da psitaciologia e psitaciatria. A partir daquele instante, todos ali passaram a ser psitaciólogos e/ou psitaciatras.
"O uso do vocabulário da moda confere uma força quase irresistível aos argumentos."
Depois de cinco ou seis meses de preparativos, ocorreu o Congresso. Foram obtidos diversos patrocínios: duas farmácias, sendo uma homeopática; a indústria de goiabada do Sr. Albano; a loja maçônica através do seu semanário "O Universo"; o principal restaurante da cidade "O Galo Dourado"; a sanduicheria"Emilio's"; a danceteria "Pink & Blue"; etc. O "Depósito Central", de produtos agro-pecuários, forneceu as pastas e crachás; o Primeiro Cartório, do Sr. Ismar, as canetas e blocos de anotações, completando o material dos congressistas. Quanto à Prefeitura, depois de muitos minuetos diplomáticos, concedeu autorizar o Salão Nobre para a cerimônia de abertura e de encerramento, onde Fredão e o então prefeito teriam que dividir, civilizadamente, o mesmo palco.
Dois conferencistas convidados, infelizmente, não puderam estar presentes: Amyr Klink porque estava navegando pelas bandas da Polinésia, e um cacique sugerido por Dona Carmem, que precisou comparecer a Genebra numa reunião patrocinada pela UNESCO. Isso foi muito lamentado por diversos participantes pois, como é sabido, embora os índios usem penas de pássaros nos seus ornamentos, o fazem de forma perfeitamente harmoniosa com a natureza.
Foram substituídos, na medida do possível, pelo próprio professor Farral e por Sônia que, usando o farto material do seu trabalho com pombos e galinhas, apresentou uma interessante palestra e anunciou que estava preparando um protocolo de pesquisa para estudar papagaios, periquitos e araras. Fredão, escalado para presidir essa mesa, comentaria depois, com alguns tapas sonoros nas costas do primo: - "Beleza Belardinho! Vai ser um verdadeiro Kama Sutra das aves. Afinal, elas não são aves trepadeiras à toa!".
Em "Temas Livres", os mais variados assuntos foram enfocados no memorável evento: métodos de treinamento; sistemas de alimentação; gaiolas modelo; terapias alternativas para diversas moléstias próprias dos psitacídeos e até uma proposta psicanalítica para papagaios com distúrbios de conduta ou neurose de ajustamento.
O ponto alto, no último dia, foi a reunião de fundação da Associação Brasileira dos Adestradores de Papagaios - ABRAP - e ato contínuo, a sua Assembléia Geral que elegeu a primeira diretoria, encabeçada pelo Dr. Farral e definiu os objetivos a serem alcançados no próximo biênio com as idéias subjacentes a todo o esforço de arregimentação desenvolvido: uma comissão se encarregaria de elaborar um projeto de lei que criaria o CREAP (2) e o COFAP (3) , pilares da regulamentação profissional tão necessária. Apesar dos objetivos serem praticamente consensuais, alguma turbulência leve sempre houve no debate.
Um veterinário gaúcho, que apresentara uma pesquisa sobre os efeitos do mate na prolixidade dos papagaios, protestou quanto a abrangência nacional de um órgão criado em Santa Clara do Bosque. A dificuldade política, como outras menos explícitas, foi contornada com a inclusão de seu nome na chapa como Vice-Presidente da Região Sul. Cada região do país tinha a sua Vice-Presidência; havia um Conselho Deliberativo e outro de Delegados Estaduais; Conselho Fiscal com três titulares e três suplentes; a Secretaria e a Tesouraria possuíam os níveis de Geral, Primeira e Segunda; havia várias Diretorias, como: Científica, de Divulgação, Relações Institucionais, Relações Internacionais, Legislação, Defesa de Classe, Eventos, etc; foram criadas cerca de quinze Comissões Científicas, com três membros cada; uma Comissão Eleitoral, outra de Ética, além de mais quatro Comissões Especiais ou Extraordinárias: a de Estatuto, outra já citada para a criação dos Conselhos de Classe, a terceira denominada de "Consultiva" e, finalmente, uma "de Apoio". Assim, todos os interessados puderam ser incluídos para alguma contribuição e os Vice-Presidentes Regionais ainda puderam levar uma pequena reserva de postos a serem preenchidos com colegas da sua confiança.
(2) Conselho Regional dos Adestradores de Papagaios.
(3) Conselho Federal dos Adestradores de Papagaios.
"O número de galhos deve ser estabelecido de acordo com a oferta de macacos."
Os dois principais jornais do município, "A Folha de Santa Clara" e o "Diário do Bosque", mantiveram boa cobertura durante o Congresso e apresentaram até algumas entrevistas. Apesar dos protestos de vários palestrantes quanto ao conteúdo publicado que, segundo eles, não correspondia satisfatoriamente ao que haviam falado, isso serviu para dar destaque e importância ao evento.
Quem mais protestou, mais uma vez, foi o representante gaúcho ao ler a transcrição da sua entrevista. Ele havia sido abordado por uma "guria" de óculos, calça rancheira e um bloquinho de papel amarelo, que desejava saber sobre a dieta estimulante por ele descrita no seu tema livre. Ela lhe perguntara como fazia para os papagaios tomarem chá mate e se os veterinários prescreviam essa dieta. Ele respondeu: - "Nós, lá no Sul, só usamos na ração e não creio que muitos veterinários estejam recomendando porque ainda não se inteiraram dessa técnica". Quando abriu o jornal viu a manchete: "Dieta natural para papagaios" e, em seguida, um texto informava que um especialista gaúcho estava dando chá mate para os papagaios do sul, mas só para os de raça grande. Complementava com algo do tipo: "Entretanto, não conseguiu explicar porque os veterinários não recomendam essa dieta, atribuindo o fato à desatualização e ao desconhecimento que têm da técnica inteira". Ficou bastante furioso e depois de alguns comentários impublicáveis, arrematou: - "A guria, aquela, é louca! Como a dieta não havia de ser natural? Só se lhes desse de comer borracha!".
"Há sempre o risco de alguém confundir Pires de Oliveira com pratinho de azeitonas."
O Dr. Farral, habilidosamente, evitou que episódios menores prejudicassem os seus novos contactos com a imprensa já que, avaliando corretamente, precisaria dela para obter alguma notoriedade em benefício do projeto proposto. Esses contactos renderam-lhe, inicialmente, até a abertura de uma coluna dominical no Diário do Bosque onde publicaria conselhos básicos sobre o trato com papagaios, sempre complementados pela orientação principal: só o seu adestrador está plenamente habilitado para fazer isto ou aquilo.
A coluna foi batizada de "Fala, meu Louro", mas cairia, rapidamente, em um impasse: enquanto a Associação defendia a tese de que só um AP poderia responsabilizar-se por ela, o Sindicato dos Jornalistas não admitia que ninguém assinasse matéria no jornal sem ser habilitado, ou seja, formado em jornalismo e comunicações. Assim, a seção "Fala, meu Louro" do Diário do Bosque acabou não falando mais, nem com AP (4) nem com jornalista.
A gestão da diretoria eleita foi, nos quase dois anos que se seguiram, bastante profícua. Havia grande dificuldade em reunir os seus membros, parte deles sequer manteve sua anuidade em dia mas, o seu principal fundador, com algum auxílio de dois ou três membros mais próximos, trabalhou incansavelmente. Na verdade, teve considerável prejuízo financeiro porque, viajando com frequência e dedicando-se a contactos considerados importantes para a entidade, reduziu o tempo disponível para atender seus clientes, alguns dos quais passaram a recorrer a ex-alunos seus. Percorreu Estados da Federação fortalecendo a estrutura associativa, compareceu a palestras e, principalmente, revendo e ajustando continuamente o trabalho executado pela Comissão de Regulamentação, tentava todos os apoios políticos necessários ao projeto. Nesse sentido, ajudou-o, especialmente, Fredão, agora como Deputado Federal.
(4) Adestrador de Papagaios.
O Dr. Farral superou, sobre tapetes em Brasília, a milhagem marítima de Fernão de Magalhães; tomou galões de cafezinhos; preencheu protocolos a perder a conta; foi apresentado a inúmeros políticos, ficando terrivelmente intrigado com um fenômeno inexplicável: alguns, com quem nunca estivera, o cumprimentavam efusivamente em alguma sala de espera, como se fossem amigos de infância e outros, às vezes o mesmo, declaravam imenso prazer em conhecê-lo quando lhe eram apresentados pela quarta ou quinta vez. Seja como for, ele foi adquirindo certo traquejo em transitar por aqueles gabinetes e corredores, acostumando-se às oscilações bruscas de "status" no tratamento recebido.
Finalmente, graças a uma feliz coincidência, chegou o dia que o Professor tanto esperava. Fredão havia contratado através do seu gabinete uma AP - neste caso Assessora Parlamentar - sobrinha de um dos principais líderes do partido governista e, graças a essa casualidade, foram programadas audiências com o Ministro do Trabalho e, nada mais nada menos que com o próprio Presidente da República. Havia chegado o momento. Seria, agora, possível expor com clareza e objetividade o pleito mais do que justo de toda uma categoria profissional. E expor, realmente, a quem decide. O Dr. Farral sentiu todo o seu esforço recompensado. Preparou-se, cuidadosamente, dedicando todo seu tempo à elaboração de uma versão atualizada dos fatos e dados que havia coletado, seus mais fundamentados argumentos ilustrados em um bem apresentado relatório e reunidos em uma pasta. Seu primo havia apresentado o projeto de lei regulamentando a profissão de "Adestrador de Papagaios" mas, sem dúvida, só com um decidido apoio do executivo a proposta se viabilizaria. Providências a nível ministerial, ainda que provisórias, criariam fatos consumados tão ou mais importantes quanto a própria lei.
Na verdade, a audiência com o Presidente da República foi sofrendo protelações, tropeçando em calendários, e acabou não ocorrendo. Entretanto, no Ministério do Trabalho que, afinal, era quem respondia efetivamente pelo assunto, as coisas foram mais fáceis.
Em uma manhã de terça feira, conforme agendado, o Dr. Farral desceu em Brasília e dirigiu-se à Esplanada dos Ministérios, onde seria recebido. Prudentemente, chegou cerca de quinze minutos antes da hora e, após cumprir todos os procedimentos de identificação, foi-lhe indicada uma sala onde, pacientemente, esperou por hora e meia. Consultou, diplomaticamente, a recepcionista sobre a demora e esta, depois de inteirar-se, novamente, do que se tratava, ingressou em uma porta próxima e voltou, momentos depois, pedindo-lhe só mais um minutinho. Breve, saiu pela porta um simpático jovem que lhe estendeu a mão:
-"Desculpe, doutor. O nosso Chefe de Gabinete deveria recebê-lo, mas não está presente no momento. Posso lhe ser útil?".
O ilustre professor explicou que tinha uma entrevista marcada com o Ministro para tratar de um projeto de regulamentação profissional mas ficou, então, sabendo que o mesmo havia sido chamado de última hora ao Palácio e ficara muito aborrecido em não poder estar lá para essa conversa, ainda mais considerando a sobrecarga em que se encontrava a sua agenda.
"É provável que entre os temas a serem despachados em Palácio até se encontre a regulamentação da Psiqui...,Psiu, ...".
O Dr. Farral completou: "Psitaciatria e Psitaciologia". O jovem agradeceu a intervenção e garantiu que o Ministro estava extremamente sensibilizado para esse assunto mas, infelizmente, essas coisas evoluem sempre com alguma lentidão devido às complexidades legais e à própria falta de agilidade, tão comum aos órgãos da administração pública.
"O Senhor sabe" - acrescentou - "como são esses burocratas! Mas com o empenho que o Ministro tem tido..., tudo é possível. Acho que o Senhor pode aguardar alguma novidade para breve, principalmente tratando-se de assunto que não envolve verbas que, como sabe, estão escassas nesta crise. Ou envolve?"- perguntou.
O Dr. Farral confirmou que não e o jovem, com ar decidido, levantou-se e, mais uma vez, estendeu-lhe a mão:
- "Muito bem, fico-lhe muito agradecido de ter vindo e, por favor, aguarde notícias nossas."
Entregou-lhe um cartão do Gabinete e apoiando, gentilmente, a mão nas costas do ilustre professor, conduziu-o até a porta.
Foi a última vez que o nosso persistente personagem compareceu a Brasília, deixando, a partir daí, as coisas por conta do primo deputado que, conforme havia prometido, acabou por dar entrada no Projeto de Lei, já que assinava todos os que lhe propunham desde que o nobre colega assinasse, também, o seu, ou melhor, o do primo "Belardinho". Ir à votação já era outra coisa, mas o Dr. Farral passava a dispor de dois instrumentos poderosos que comprovavam a situação promissora em que se encontravam os planos elaborados pela diretoria da Associação e futuros Conselhos de Classe: o protocolo do Ministério do Trabalho e o protocolo de entrada do projeto no Congresso Nacional.
Na segunda gestão houve uma certa dificuldade em compor a chapa única para os cargos mais próximos. Alguns companheiros de confiança como, por exemplo, Sônia, alegaram escassez de tempo, já que sua clientela recente, em grande parte herdada do próprio professor, tomava-lhe a maior parte das horas disponíveis. Ela estava, inclusive, obtendo excelentes resultados com uma nova técnica lingüístico-analítica de preparação de casais de papagaios para a procriação.
Já para os cargos secundários e regionais, comissões e etc, embora nem sempre houvesse resposta à correspondência, o Presidente optou por repetir os nomes. Foram cumpridas todas as exigências estatutárias e regimentais e iniciou-se um novo biênio na Associação. Esse segundo mandado, entretanto, não contaria com o mesmo consenso que o anterior. Vários colegas já passavam a criticar abertamente o que consideravam uma certa inabilidade do Presidente em obter as conquistas tão esperadas pela classe e alguns, mais contundentes, chegavam a por em dúvida a validade das viagens freqüentes e aparentemente pouco produtivas, parecendo-lhes que o Dr. Farral utilizava a entidade para autopromoção e, quem sabe, obter vantagens de cunho pessoal. Não estaria ele, na verdade, interessado em algum cargo político?
"Aqueles que não contribuem mas esperam usufruir dos resultados, sentem-se sempre motivados a oferecer sua colaboração crítica. É pena que, embora sabendo tudo que deve ser feito, não o façam."
A maioria dos críticos, entretanto, considerava apenas o fator inabilidade atribuindo-o, em grande parte, à confiança ingênua depositada pelo Dr. Farral no seu primo deputado que, na opinião deles, não tinha uma sincera adesão à causa. Embora muito do que era dito não chegasse nem perto dos ouvidos do Dr. Farral, ele tinha consciência de que era preciso responder com resultados às ansiedades de regulamentação vividas por todos e, por sorte, algumas novidades vieram ajudá-lo.
Assumia a Prefeitura, novamente, um aliado muito próximo de "Fredão" e que, por diversas razões, não se furtaria a atender a um pedido do deputado, ainda mais que este também não se furtaria a produzir algumas emendas orçamentárias para o município. Era o "Dr. Julião", antigo assessor jurídico e que, apesar do seu metro e sessenta de altura, tinha esse nome de batismo mesmo, dispensando o costume arraigado de levar ao aumentativo todos os nomes de figuras ilustres na cidade. Ainda assim, muitos acreditavam que seu nome verdadeiro fosse Júlio. Isso dava um certo trabalho ao próprio, pois sempre que alguém mais cerimonioso dirigia-se a ele como Dr. Júlio tinha que ser corrigido. Em contrapartida, o ex-prefeito seu amigo, sempre chegado aos trocadilhos, havia confundido ainda mais as coisas quando, após um coquetel, disse, ao estilo que lhe era característico, em pleno palanque:
-"Este é um político articulado, sem extremismos mas contundente. Não é à toa que seu nome é Joelhão".
Depois de eleito tudo ficou mais fácil pois, aos mais prudentes, bastava expressarem-se por "Sr. Prefeito".
Considerando que o projeto de regulamentação profissional dos adestradores de papagaios, mais propriamente denominados, como sabemos, psitaciólogos e psitaciatras, estava tramitando de forma tão promissora no Congresso Nacional e no Ministério do Trabalho, o Dr. Julião concordava em adiantar um pouco as coisas em Santa Clara do Bosque. Afinal, era a terra mãe dos mais eminentes mestres do ramo. Baixaria um Decreto Municipal, seguido de Mensagem à Câmara, antecipando as medidas de âmbito federal que estavam por vir.
Decreto e Mensagem reproduziam, após um enunciado introdutório, basicamente as proposições de regulamentação presentes no projeto de Lei Federal. A primeira parte, dedicada a uma espécie de glossário, definia a terminologia utilizada. Depois, seguiam-se os capítulos: I -Das finalidades; II- Das Atividades Profissionais; III- Da Representação de Classe e suas Atribuições; IV- Das Penalidades; V- Das Disposições Transitórias. Terminava, como de praxe, revogando as disposições em contrário e fixando a data de publicação para plena vigência. Seguiam-se, anexas, 15 (quinze) Normas Regulamentadoras de conteúdo predominantemente técnico.
"O mundo já foi mais simples. Deus, mesmo, baixou apenas dez mandamentos e, ainda assim, não têm sido tão respeitados."
Aparentemente, nada fora esquecido. O Capítulo das Atividades Profissionais, por exemplo, entre outras coisas, estabelecia que a profissão era privativa de cidadão brasileiro no pleno gozo de seus direitos. Prudentemente, distinguia o cidadão brasileiro nascido no Brasil do cidadão brasileiro de origem estrangeira. Este deveria submeter-se a exame de língua e "acento" linguístico, protegendo, assim, as aves brasileiras do ridículo de serem adestradas com sotaque. Era previsto, também, e por razões óbvias, um teste de conhecimentos em MPB (5) . Por ocasião da elaboração desse item ocorreram muitas dúvidas de como agir no caso de eventuais profissionais portugueses. Deveriam ser beneficiados com equivalência plena? Acabou-se por decidir que não, pelo menos para o exercício da fonopsitaciatria, já que o adestramento de um papagaio nacional com sotaque português causaria grande estranheza. Além disso, considerando-se o conhecido caso dos dentistas brasileiros, seria uma forma de justa retaliação, não cabendo queixa em termos de reciprocidade.
Um dos aspectos mais relevantes era a criação do "Alvará" obrigatório para todos os papagaios, com o recolhimento de uma Taxa de Registro Municipal. Esse documento tornava-se indispensável e deveria ser renovado periodicamente, após uma certidão emitida por profissional AP devidamente habilitado. A periodicidade variava conforme estivesse o papagaio registrado como "Pessoa Física" para uso exclusivamente doméstico, ou como "Pessoa Jurídica" no caso de aves presentes em estabelecimentos comerciais, por exemplo. As taxas eram diferenciadas e o uso indevido ou clandestino de um "Pessoa Física" fora do ambiente doméstico era passível de multa. Havia, ainda, a modalidade de "Exibição" só permitida para profissionais do ramo e que, como forma de incentivo, eram isentos de ISS (6) .
(5) Música Popular Brasileira
(6) Imposto Sobre Serviços.
As diferentes categorias de papagaios e suas respectivas taxas criavam algumas pequenas dificuldades de controle, resolvidas através dos atestados de nascimento e de óbito de cada ave, além dos procedimentos de renovação de alvarás, todos devidamente emitidos por um AP habilitado.
O primo Fredão alertou logo o Dr. Farral para o fato de que a tramitação legislativa em Santa Clara do Bosque, embora mais promissora do que no âmbito federal em matéria de prazos, seria sempre relativamente morosa. Era, segundo ele, da natureza parlamentar. Enquanto isso, porém, o decreto iria cumprindo o seu papel e, mais importante que tudo, o município daria um exemplo de pioneirismo extremamente útil como efeito demonstração.
De fato, a Mensagem à Câmara parecia andar a passo de tartaruga bêbada e o Decreto, por sua vez, embora despertasse alguns questionamentos jurídicos, representava um considerável consolo para amenizar as fadigas de tantas lutas. É verdade que nos aspectos coercitivos previstos encontrava-se alguma dificuldade: tudo indicava haver elevada sonegação fiscal, com emissão de alvarás muito abaixo de todas as estimativas demográficas da população de psitacídeos no município. As tarefas de fiscalização eram especialmente penosas por duas razões, uma de natureza teórica e outra prática. A primeira, mais alegada no caso dos papagaios "Pessoa Jurídica", prendia-se ao fato de um dos vereadores de oposição insistir em argumentar pela ilegalidade do decreto e da própria ABRAP como órgão fiscalizador. A segunda, de ordem prática, era que em não havendo uma regulamentação equivalente para os cães, supostos proprietários de papagaios utilizavam-se destes para rechaçar as tentativas de fiscalização doméstica no caso dos papagaios "Pessoa Física". O que, porém, mais magoava o Professor Farral na sua conhecida integridade eram as insinuações de que alguns psitaciólogos e psitaciatras davam seu nome para a emissão de certificados sem cumprirem, efetivamente, as tarefas profissionais que lhes cabiam.
Bem ou mal, a legislação foi sendo aplicada em Santa Clara do Bosque. Muitos meses se passaram e, segundo observações dos amigos e, principalmente, familiares mais chegados ao Dr. Farral, este parecia estar se tornando um tanto apático. Já não tinha o mesmo entusiasmo e disciplina nos afazeres, começou a permanecer longos períodos em casa, participar pouco das reuniões acadêmicas e nunca mais viajou. A esposa, que já sofria vendo-o assim e havia esgotado seus costumeiros recursos para animá-lo, acabou por fazer o diagnóstico antes mesmo do médico a que ele comparecia sempre com queixas pouco relevantes: o velho mestre da psitaciatria estava com "depressão". Ele parecia não ligar muito para nada que ocorria fora de casa e nem mesmo com seu casal de papagaios prediletos. Quando estava com as filhas parecia tranquilo e manifestava alguma alegria acompanhando os assuntos escolares delas mas, frequentemente, pedia para dizer que não estava quando o telefone tocava. Não havia dúvida, o Dr. Farral entrara mesmo em depressão. Pessoas como Sônia, outros membros da diretoria ou o Prof. Prudente pareciam causar-lhe uma rejeição especial. Fazia qualquer coisa para evitá-los e a esposa logo compreendeu isso.
Muito empenho dela, alguma presença de antigos amigos ou familiares por quem tinha maior estima, visitas periódicas a um médico que o tratava com poucos medicamentos mas muita conversa, e o professor começou a reagir progressivamente. Não que retornasse às suas lides anteriores com a mesma operosidade mas, pelo menos, já não se esquivava delas e seu semblante, que deixara de ser melancólico, tinha uma expressividade normal. A esposa, às vezes, ensaiava uma conversa, com muitos rodeios, em torno das suas atividades associativas, mas o Dr. Farral rapidamente escapava para uma trivialidade qualquer. No mais, tudo foi voltando ao normal.
Um dia, ele teve uma entrevista muito estranha com Dr. Julião. Marcou uma audiência na Prefeitura em nome da Associação, mas compareceu sozinho. Depois dos salamaleques costumeiros e uma dose bem medida de rodeios, perguntou:
- "Dr. Julião, o senhor acha que a nossa regulamentação municipal pode lhe causar algum desgaste político?".
- "Nada significativo. Os que são contra não me apoiariam de qualquer forma, a maioria ignora e os que apoiam, como o senhor, têm uma atitude mais ativa. Portanto, o saldo é sempre positivo."
O Dr. Farral, com um ar estudadamente dispersivo, continuou:
- "Eu não sei, ...o senhor conhece as resistências que temos encontrado. Antes da legislação eu era muito respeitado como adestrador de papagaios, as pessoas ficavam felizes com o meu trabalho, pelo menos as que me procuravam. Agora, noto que mesmo os proprietários mais disciplinados conferem-me um tratamento distante. Às vezes, - disse sorrindo, - acho que até os papagaios me olham como uma espécie de oficial de justiça."
O prefeito já estava ficando um pouco inquieto com essa arenga:
- "Ora, doutor, são os ossos do ofício. O senhor está de parabéns pelo seu trabalho. Por falar nisso, ouvi dizer que foi cancelado o próximo Congresso da Associação previsto para Salvador. É uma pena mas, já sabe, se for preciso vamos repetir a dose aqui em Santa Clara mesmo."
- "É uma boa idéia - concordou o Dr. Farral mal disfarçando a contrariedade de ver mudado o rumo da conversa.
Depois de mais alguns rodeios e temendo o risco de ver o encontro cair no vazio, o professor voltou com decisão ao ponto anterior:
- "Pensando nos riscos políticos de uma vitória da oposição nesse assunto, Dr. Julião, e considerando que as coisas por Brasília parecem paradas, o que o senhor acharia de uma mudança de tática?...Poderíamos abrir mão das imposições por via legal e fazer um grande trabalho educativo e de divulgação das boas práticas profissionais nesse terreno. Talvez, não sendo uma imposição, houvesse maior receptividade e até valorização dos mais competentes."
"Uma vez posto o trem em movimento, fica cada vez mais difícil apear-se dele."
- "Acho que o senhor está enganado." - respondeu o prefeito rapidamente e depois, amenizando o tom - "O senhor é um idealista, está sempre procurando o melhor para a sua profissão. Mas, lembre-se de duas coisas: primeira, nem todos os psia..., nem todos os profissionais são bem sucedidos como o senhor; para eles é uma questão de sobrevivência e não concordarão com esse ponto de vista; segunda, a tradição legislativa brasileira não é essa. As coisas não podem ficar no vácuo do "faz quem quer" (7). Ou é obrigatório ou é proibido. É assim que funciona."
- "O senhor acha...", - iniciou o professor.
- "Não tenha dúvida, doutor. Se a legislação que sustenta a atividade de adestramento de papagaios não se mantiver, será substituída por outra proibindo. Os "verdes" adorariam!".
Em seguida, emendou umas piadas falando dos "verdes". Algo a respeito de que em Santa Clara, ao contrário do resto do mundo, eles não eram verdes devido às matas, mas sim aos papagaios. O Dr. Farral olhava mas seu pensamento estava distante. Só percebeu que deveria rir porque o Dr. Julião parecia fazê-lo com aquele jeito de quem espera solidariedade, típico dos contadores de piadas. Saiu dali meio entorpecido, olhar meio perdido mas, à medida que se aproximava da EBISCLA, ia ficando mais tranqüilo, mais bem humorado. Era a resignação. As coisas, afinal, não dependiam dele tanto como pensava.
(7) Expressão característica em Santa Clara do Bosque para designar o "laisser faire".
IV - EPÍLOGO
As novas eleições aproximavam-se rapidamente e, como das outras vezes, a chapa da situação era mais ou menos consensual. O presidente esboçou alguma resistência em concorrer à reeleição mas acabou cedendo. Verdade que já estava um tanto cansado da tarefa mas, por outro lado, aprendera a conviver com o cargo num nível mais moderado de dedicação e esse foi o argumento que apresentou à esposa a quem havia prometido evitar nova gestão. O fato é que, de um modo ou outro, a presidência ainda representava um elemento de "status" na vida do Dr. Farral do qual não se desprendera suficientemente.
Mas, nesse ano houve uma surpresa. Pouco antes do prazo estatutário final para a inscrição eleitoral, surgiu uma chapa de oposição denominada "Dignidade". Seu primeiro panfleto já era um ataque extremamente violento ao "continuísmo", à "acomodação", ao "conservadorismo", ao "Farralismo" e outros "ismos" da situação. Em algumas passagens, o texto insinuava a existência de "interesses" desonestos acobertados pela atual diretoria e esta era, por sua vez, praticamente identificada com a pessoa do próprio Professor Farral. O texto insistia na necessidade de renovação de quadros e propunha uma lista de pontos que definiam a linha de pensamento dos candidatos: piso salarial mínimo; maior agressividade jurídica, processando os proprietários de cães; jornada de trabalho reduzida; criticava a mercantilização da profissão defendendo o pagamento direto pelo poder público; anunciava a criação de uma tabela de honorários e terminava com uma série de exigências aparentemente relacionadas com o nome da chapa, porque falava em salário "digno", imagem "digna", atitude "digna", enfim, tudo muito digno. E terminava com uma exortação a "resgatar a dignidade profissional".
Embora o texto causasse um visível mal estar ao fundador e presidente da ABRAP, a maior surpresa ainda estava por vir. No dia seguinte, quando foi feita a inscrição, constavam nomes como, por exemplo, Sônia, candidata à Secretaria Geral e, como cabeça de chapa, de forma um tanto redundante, "Cabeção", seu ex-aluno e desafeto. Os procedimentos de inscrição foram atendidos mas, ao reunirem-se alguns membros da diretoria, foram levantadas objeções que, sob o impacto inicial não haviam sido lembradas. Na verdade, eram questões óbvias em qualquer entidade, tais como o fato de comporem a chapa pessoas que desde a fundação não mais quitavam as suas anuidades. O próprio candidato à Presidência, antigo líder do PV do B e atual fiscal municipal, jamais havia se inscrito na Associação. Poderia causar até certa má impressão, mas não havia outra alternativa: a chapa de oposição teria que ser impugnada para que se preservasse minimamente o estatuto. E assim foi feito.
"A lealdade é um atributo exclusivo de animais nobres: cães, cavalos e alguns seres humanos."
Novos panfletos surgiram denunciando a manobra sórdida pela qual o Dr. Farral pretendia se perpetuar no cargo e, poucos dias depois, a Folha de Santa Clara publicava uma longa entrevista com "Cabeção", aliás, Professor Michel, como lá era chamado numa referência ao seu posto de Assistente no Departamento de Ornitologia da EBISCLA. No intróito da matéria parecia tratar-se de uma sumidade acadêmica, embora o Dr. Farral nunca tenha entendido porque fora contratado pelo Professor Edgar. Havia sido péssimo aluno, pós-graduando pouco assíduo e desinteressado nas obrigações do magistério. Nada publicara além de algumas generalidades em boletins da EBISCLA.
"Alguém, com mais apetite, ou dentes mais afiados, poderá acabar comendo o quitute que você preparou."
Na véspera, alguém havia ligado ao Dr. Farral em nome do jornal perguntando a respeito das acusações que vinham sendo emitidas pela chapa adversária e se ele desejava um debate com os adversários na sede do jornal. Ouviu a resposta esperada: as acusações eram absurdas e tratava-se de gente estranha aos quadros da Associação. Não era possível explicar coisa alguma porque eram ignorados quaisquer fatos que pudessem representar atitudes escusas da atual diretoria. Era preferível manter as disputas internas da Associação livre de confrontos públicos que só se prestariam a denegrir a classe. Em virtude desse contacto, ao lado da entrevista com "Cabeção", havia uma nota da redação do jornal, sob o título: "Debate democrático". Dizia: "A redação deste jornal pede desculpas aos seus leitores por ter que apresentar uma matéria incompleta, sem que os diversos ângulos desta questão possam ser expostos como seria de nosso desejo. Na mesma ocasião em que elaboravamos a reportagem procuramos a diretoria atual da ABRAP, como nos cumpre eticamente fazer, para que apresentasse a sua versão dos fatos. Esta, infelizmente, através do atual presidente e candidato à reeleição, parece não partilhar das mesmas convicções democráticas, considerando que tais questões, como nos foi dito, devam ser mantidas longe da opinião pública. O Dr. Abelardo de Souza Aranha (56) alega ignorar as irregularidades aventadas pelos seus opositores, que ele considera pessoas estranhas à entidade, embora reconhecendo ser impossível apresentar explicações para essas acusações. Estamos certos de ter cumprido a nossa parte na tentativa de transmitir aos nossos leitores uma versão imparcial dos fatos."
O Dr. Farral e os dois ou três diretores que compareciam regularmente à Associação ficaram, durante algum tempo, discutindo o assunto num misto de perplexidade e revolta. Ora culpavam "Cabeção", ora a imprensa e, freqüentemente, a eles próprios. O Presidente, antes que outros o dissessem, não se cansava de dizer que fora ingênuo mas, às vezes, deixava escapar: - "Como fui burro!" - e em vão esperava que os outros o desmentissem. Finalmente, chegou o Dr. Heráclito, assessor jurídico, e a reunião se estendeu por algumas horas. Ele procurou tranqüilizá-los, a situação era delicada mas muito clara: não havia qualquer chance da chapa de oposição ser legalmente inscrita, a não ser que se rasgasse o estatuto. Quanto ao jornal, recomendava prudência. Ele mesmo faria contacto solicitando uma postura mais justa e, embora não fosse inteligente fazer qualquer ameaça, o simples fato de ser o Assessor Jurídico já lembraria as regras da Lei de Imprensa. Não era nem preciso citá-la, o que tornaria o contacto muito mais simpático. E assim foi feito.
Faltava pouco para a eleição mas, de fato, alguns dias depois o Dr. Farral foi procurado por um jornalista da Folha de Santa Clara que solicitou uma entrevista. Era um profissional mais amadurecido do que outros com que o professor já tivera contacto: seus trinta e poucos anos, cabelo bem aparado, óculos, paletó marrom sobre a calça "jeans", gravata, um fotógrafo e um iluminador ao lado. Conversou um pouco para descontrair o entrevistado, avisou-o que a gravação tinha a vantagem de poder ser parada e refeita sempre que fosse preciso, por isso podia ficar à vontade e disse-lhe, mais ou menos, o que pretendia perguntar. O experiente professor sentiu-se, realmente, mais à vontade e começou a responder às diversas questões colocadas. O jornalista fazia pequenas variações no modo de abordá-las obrigando o entrevistado, freqüentemente, a fazer negativas e correções ao iniciar sua resposta. O Dr. Farral procurava ser o mais claro possível, quase didático, embora ficasse intrigado com um hábito curioso do rapaz: ficava, o tempo todo, abanando a cabeça positivamente enquanto ele falava. Parecia concordar ou, talvez, ele estivesse dizendo exatamente o que o rapaz queria ouvir. Enquanto isso, a forte luz do iluminador era mantida periodicamente sobre o entrevistado, nem sempre coordenada com o uso do "flash". O Dr. Farral acabou por esquecer-se do fotógrafo, concentrado que estava em bem responder às perguntas que lhe eram formuladas. Só voltou a lembrar-se dele quando, mais para o fim da entrevista, tomou dos óculos para ler umas anotações que desejava citar. O entrevistador pareceu mais interessado nos seus óculos do que nas anotações, perguntando-lhe sobre eles, talvez porque também usasse óculos. Tomou-os nas mãos elogiando o material que o Dr. Farral garantiu ser tartaruga legítima. Pouco depois terminava a entrevista e o jornalista pediu ao professor que posasse para uma última foto usando os seus óculos e apontando para as referidas anotações. Agradeceu sorridente garantindo que a entrevista havia sido muito boa e o entrevistado voltou para casa sentindo-se aliviado.
Os dias que se sucederam, porém, não foram muito gentis com o professor. A entrevista fora concedida em uma sexta e a matéria foi publicada na edição de domingo. O Dr. Farral leu seu conteúdo, que tomava página e meia, com uma sensação de estranha irrealidade. Apareciam, na primeira parte, três fotos menores muito desagradáveis: em uma o professor estava coçando a orelha, em outra fazia uma careta de olhos esbugalhados e na seguinte aparecia com olhos e cenho cerrados, aparentando extrema arrogância. A matéria era precedida por uma pequena introdução sob o título: "Finalmente o Presidente da ABRAP fala à Imprensa". O texto comentava que o Dr. Abelardo de Souza Aranha presidia a Associação Brasileira dos Adestradores de Papagaios desde a sua fundação e, atualmente, estava envolvido num tumultuado processo de sucessão buscando impedir que opositores vencessem as eleições que se aproximavam. Dizia: "atendendo à nossa reportagem, o Dr. Farral, como é conhecido, procurou justificar os últimos fatos que vêm perturbando a vida da ABRAP."
Seguia-se uma transcrição relativamente fiel da entrevista dada, poucas omissões em relação às perguntas e respostas gravadas mas, a página seguinte era surpreendente. Lá estava uma foto maior do Dr. Farral abrangendo apenas parcialmente o rosto com os seus óculos de aro de tartaruga em primeiro plano. Ao lado, outro pequeno texto esboçava uma biografia resumida informando idade, atividades e alguns comentários a título de perfil. O "homem forte da ABRAP", como era chamado, seria um personagem no mínimo controvertido, possuidor de curiosas incoerências como: ser um AP de sucesso privado, embora mantendo vínculos com o serviço público; para implantar uma legislação municipal ter viajado inúmeras vezes a Brasília; e, a maior delas, dizer-se defensor da fauna enquanto usuário de óculos extraídos de animal protegido pela legislação ambiental.
A chapa adversária passou a usar, nos seus panfletos, cópias de recortes do jornal, particularmente a foto do óculos, dando ao Dr. Farral um tratamento que o caracterizava como uma espécie de "ecodelinqüente". Já na terça feira, após a publicação da entrevista, ele recebera na sua casa uma medida liminar, assinada pelo juiz substituto da Primeira Vara Cível de Santa Clara do Bosque, garantindo à chapa encabeçada por "Cabeção", aliás, Dr. Michel, o direito de concorrer às eleições. O Assessor Jurídico, Dr. Heráclito, explicou que a liminar não representava uma sentença reconhecendo a legitimidade da chapa "Dignidade", o que seria um absurdo, tão claras estavam as ilegalidades da mesma, mas era correta como forma de dar garantias aos opositores quanto a qualquer prejuízo irrecuperável, caso a eleição ocorresse sem a sua participação. O que valeria, realmente, seria o julgamento posterior do mérito da causa. O advogado da chapa de oposição havia feito um longo arrazoado, intercalando citações diversas que, aparentemente, nada tinham a ver com o assunto, frases de efeito por aqui e por ali, anexara uma porção de cópias de correspondências, os diplomas do curso de AP fornecidos pela EBISCLA aos membros da chapa requerente, assinados - "veja-se o absurdo" - pelo próprio professor que agora queria considerá-los inválidos e, por fim, vários recortes de jornais. O meritíssimo juiz substituto não tivera tempo ou paciência de ler e decifrar aquela arenga toda, mas reconheceu os recortes da "Folha de Santa Clara" e, considerando os "indícios de bom direito", concedeu a liminar. O Dr. Heráclito foi tomando todas as medidas e contramedidas costumeiras nesses casos e a eleição se deu. Sócios ou não sócios da ABRAP, em dia ou não com suas anuidades, nas diversas unidades do território nacional, todos votaram, já que outra liminar garantia esse direito "para que não houvesse constrangimentos" que pudessem ser colocados pela atual diretoria como parte interessada na demanda. O Dr. Heráclito disse que isso punha em risco a validade da eleição, mas teria que ser acatado.
Embora com margem menor do que a prognosticada, "Cabeção" venceu.
Os três meses que, estatutariamente, mediavam entre a data de eleição e de posse foram correndo sem que o quadro jurídico se definisse. Nem eram cassadas as liminares concedidas, nem era julgado seu mérito. O Dr. Michel já dava entrevistas como Presidente Eleito, embora, segundo o Dr. Heráclito, tudo ainda estivesse "sub judice" e fosse iminente um desfecho definitivo e favorável à chapa liderada pelo Dr. Farral.
- "Medidas liminares são medidas provisórias, de validade apenas temporária." - ele explicava.
O Dr. Farral, embora, bem ou mal, tivesse um diploma de Direito, já havia desistido de entender o que estava acontecendo. Assim, foi com pouca surpresa que recebeu, cerca de um mês depois da data prevista para a posse da nova diretoria, mais uma medida liminar. O advogado da chapa "Dignidade" havia feito outra das suas longas petições, anexara uma ata elaborada pela própria Comissão Eleitoral supostamente eleita, mais um elenco de citações e algumas fotocópias de jornais e solicitava posse imediata de todos os bens e recursos da ABRAP que deveria ser comandada, doravante, pela diretoria recém eleita e à qual o antigo presidente sonegava, indevidamente, os meios para fazê-lo.
"Quando a realidade jurídica se confronta com a realidade política, não vale a pena ter dúvida: é melhor apostar na realidade política."
O Dr. Farral assinou o recebimento, fez alguns telefonemas para outros diretores, ou melhor, ex-diretores e foi para casa. Quase não falou naquele dia, deixando a esposa preocupada com a possibilidade de outro período depressivo. À noite recebeu um telefonema de Fredão que se encontrava em Brasília e este, após pedir confirmação das notícias que alguém já lhe havia transmitido, falou num tom pouco habitual:
- "Belardinho, meu querido," - talvez fosse a convivência com a bancada carioca - "quero dizer uma coisa e, antes de mais nada, juro que estou sóbrio. Sempre fiz tudo que você me pediu desejando ser um bom primo mas, na verdade, tenho sido é um mau amigo. Vou dizer uma coisa de coração: se houver alguém na família a quem você odeie, deixe essas demandas judiciais em testamento, porque isso não termina neste século e, talvez, nem no próximo. Essa tal sentença definitiva não sai nunca. Esquece o assessor jurídico e acredita no primo Alfredo, mais novo que você mas menos puro e que, por isso, pode enxergar coisas que você não vê. Além disso, conheço bem esta nossa terra."
O velho professor sentiu um toque de emoção. Nunca Fredão falara assim. Tinha sempre aquele jeito dúbio na forma e no conteúdo, sendo difícil até saber quando falava sério e quando fazia troça.
- "Você acha, então, que esses processos não têm decisão para logo?"
- "Belardinho, duas coisas você pode ter certeza. Primeira, na nossa justiça predominam homens de fé inabalável: eles acreditam na eternidade. Segunda, na entrada de todo fórum deveria haver uma escultura do patrono: Pôncio Pilatos, com uma cuia e tudo, porque a maioria não perde a chance de lavar as mãos."
Alguns segundos de silêncio no telefone e Fredão arrematou falando, novamente, em tom de pedido:
- "Não fica magoado comigo mas, com sinceridade, esquece essa droga e vai cuidar da vida."
Depois do telefonema o Dr. Farral continuou muito calado. A esposa o observava apreensiva. Ambos dormiram pouco. Pela manhã, levantou-se e foi cumprindo a sua rotina do dia de trabalho até a tarde, quando chamou o Dr. Heráclito ao seu escritório e entregou-lhe tudo que previamente reunira em uma pequena caixa de papelão: um fichário de acrílico ordenado alfabeticamente, quatro pastas de arquivo, dois livros de atas, alguns blocos de papel timbrado, quatro pacotes de envelopes, dois carimbos e mais uns poucos papéis. Pediu-lhe que procurasse o tesoureiro da ABRAP para o mesmo fim e entregasse tudo para o Professor Michel. O advogado tentou iniciar uma análise dos próximos passos mas o professor não deu oportunidade dizendo-se de saída.
De fato saiu, foi cortar o cabelo, visitou, casualmente, alguns antigos clientes e retornou à casa mais cedo. Pouco depois, convidou a mulher para sair como não faziam a muito tempo e esta apressou-se em atender.
"Se tudo der errado, ainda resta uma solução: reserve um espaço para ser feliz."
Andaram durante cerca de duas horas, mãos dadas, conversando variedades e, vez ou outra, sobre as filhas. Passaram por vários dos jardins da cidade, tomaram sorvete, compraram doces e frutas para levar. Finalmente, o Dr. Farral entrou em uma locadora de vídeo, escolheu "O Exterminador do Futuro II" e levou para assistir com as meninas.
"Qualquer semelhança com fatos ou pessoas vivas ou mortas, se não for coincidência é, ao menos, desconhecida pelo autor. Se houver alguma tentativa de processo judicial, alegarei tratar-se de texto psicografado".