Havia algo de denso e angustiante nos olhos marejados de Lívia. Todos percebiam, quando a viam vaguear __ arrastando suas gastas sandálias japonesas__ pelos corredores daquele cortiço. Porém, ninguém se importava em saber o que se passara com ela. Não havia vizinho algum que soubesse o seu sobrenome, de onde vinha, se tinha familiares ou se fora casada. Ela vivia no seu mundo, entre aquelas quatro paredes do seu quarto. Aprendeu a conversar com as samambaias, travesseiros e os pombos que invadiam seu aposento nas primeiras horas das manhãs. Às vezes um amigo a visitava, mas tudo era muito discreto. Creio que nenhum condômino, algum dia, notara a sua presença.
Lívia balançava-se na cadeira com os braços cruzados sobre o ventre , esperando os primeiros silvos da chaleira. Olhava para a parede engordurada sobre o fogão. Por que nunca se preocupou em limpá-las ?
Lembrou do seu amigo. Precisava revê-lo.
- Você sempre agiu dessa forma perante a vida. Nunca preocupou-se em jogar o desnecessário no lixo. Agora, não venha se lastimar ! Por mais que você queira remover todas as mazelas que vivenciou, você nunca conseguiria eliminar as cicatrizes. O mesmo acontece com aquela parede suja de gordura. Você pode limpá-la milhares de vezes , porém, a sujeira sempre estará por baixo. E voltará à tona assim que a tinta envelhecer.
Lívia escutava o amigo, enquanto seus olhos fitavam o teto cuja argamassa cedera. Ele tinha razão. Já era tarde demais.
Com um dos cotovelos apoiados sobre a mesa, Lívia tomava o seu chá; cujo vapor quente embaçava seus óculos. Pegou um pano de prato xadrez, que cobria a cesta de pães, e limpou as duas lentes. Enquanto fazia movimentos circulares sobre as superfícies dos óculos, recordou-se da sua mãe.
"Você acabará sozinha, se persistir nessa idéia de se casar por amor. Aproveite essa chance, menina! Aceite o pedido do comendador."
Lívia não sabia por que lembrava dessas palavras agora. Durante o tempo que conviveu com a sua mãe, alimentou um sentimento que se fundia em ódio, desprezo e frustração. Um sentimento que só os filhos fracassados são capazes de sentir pelos pais.
Quando viu o caixão de sua mãe desaparecer sob a argila, sentiu-se aliviada. Nunca mais teria que ouvir as suas idiossincrasias. "Agora vou viver a minha vida".
Lívia levantou-se e colocou a xícara dentro da bacia com água. Pegou o pano de prato, que agora estava sobre o seu ombro, e enxugou as pálpebras ressumadas. Sentiu saudades de sua mãe.
Numa tarde de Domingo, Lívia resolveu limpar os armários. Tirou a vassoura que conservava a porta do móvel escorada e aspirou o cheiro de mofo. Tinha poucos vestidos. Oito ao todo. Ela não era vaidosa.
Abriu uma das gavetas e pegou uma caixa de papelão amarela com estampas florais. O movimento brusco ao se agachar estalou os ossos da coluna. Dirigiu-se para a cama. Sentou sobre o colchão de molas, desengonçada.
Naquela caixa, ela guardava todas as lembranças que fazia questão de não esquecer: fotos antigas de seu pai, as últimas cartas que recebera de seu irmão caçula, um cartão de natal de um antigo namorado, uma pulseira que ganhara da tia na época da colação de grau e alguns documentos de sua mãe. Olhou para a cadeira de balanço e teve uma visão de seu pai.
"Nunca abandone seus sonhos. Lute, Lívia, lute! O tempo pode enferrujar o corpo, mas nunca a alma. Procure seus irmãos, peça ajuda aos vizinhos. Reaja!"
- Eu sou feliz , papai. Eu sou feliz! - Lívia era orgulhosa demais para admitir que havia fracassado.
Depois de suas palavras, o quarto voltou ao silêncio mordaz. Olhou para a cadeira, seu pai já não se encontrava. Levantou-se trêmula e apertou o interruptor. O quarto continuava escuro. Foi à janela e olhou para a avenida. Viu carros e pessoas transitando, freneticamente, de um lado para o outro. Também viu um ônibus abarrotado de pessoas que voltavam do trabalho. "Eu sou feliz, papai..." - pensou, olhando agora para as samambaias que ficavam próximas da janela. As folhas estavam ressecadas e mereciam ser aparadas.
Um acesso de tosse fez com que Lívia acordasse no meio da madrugada. Seus pulmões já estavam fracos. Sentia-se sufocada. Seus sentidos estavam limitados e o caminho para o banheiro era um desafio. Um cruel desafio para uma velha senhora de sessenta e oito anos. Na terceira tentativa de se levantar, ela tropeçou e caiu no piso gelado do quarto. Travou uma dolorosa luta com ela mesma.
Quando achou que estava conseguindo, a coluna traiçoeira a jogou de volta ao chão. Permaneceu ali
até os primeiros raios do sol incidir sobre a sua cama. Quando acordou, um pombo cinzento a fitava com curiosidade, inclinando a cabeça para os lados.
- Levante-se.
Lívia olhou para o alto e viu o rosto do amigo. Nos seus olhos, ela não via piedade.
- Ainda bem que você veio me visitar. Olha o estado lamentável que me encontro.
Você pode me ajudar ?
Minutos depois os dois conversavam, enquanto o chá era fervido:
- Você precisa de um médico.
- Não é nada tão grave. Coisa de velha.
- Como não é nada grave! Você está com os pulmões saturados de secreção, a coluna já não a sustenta com segurança. Até sangue você tem urinado!
- Queria morrer... - Lívia olhava para chama que envolvia a chaleira.
- Nunca mais fale isso!! - seu amigo mostrava-se indignado. - Só Deus pode decidir o momento. Está me ouvindo ? Só Deus decide a hora da nossa passagem.
- Deus está sendo muito cruel comigo. Eu diria até que sádico. Minha vida já não dá mais frutos. Sou uma velha caquética cuja única função é dar comida para os pombos.
Seu amigo balançou a cabeça e retirou-se do aposento.
- Não vai tomar o chá?!
Nas últimas semanas o quadro da saúde de Lívia se agravara. Seus ossos rangiam e as tosses tornaram-se constantes. Agora só se alimentava de biscoitos de maisena e chá. Não tinha força para se manter em pé. Seu único percurso era o da sala para o fogão. Na cadeira de balanço, ela esperava pelo o amigo todas noites. Onde estaria ele agora?
Numa noite de terça-feira, Lívia preparava um chá de carqueja contra gases estomacais, que passaram a incomodá-la nesses últimos anos. Pôs a água na velha chaleira para ferver e acendeu o fogão de barro. Pegou o saquinho com as ervas e cheirou. Tossiu, pigarreou e cuspiu no chão. Decidiu esperar na cadeira de balanço.
Com os calcanhares apoiados no chão fazia movimentos na cadeira, que balançava de trás para frente. Isso a relaxava.
Acabou adormecendo. Lívia teve um sonho. Talvez, um sonho bom.
Sonhou que estava com a família reunida numa bela casa branca. Viu os irmãos, sobrinhos e os seus pais. Seu irmão caçula estava tão crescido... "Meu Deus, como a vida passa rápido!"
Sua irmã primogênita pedia o seu auxílio na cozinha. "Você nunca foi prática nessas coisas...".Na porta da cozinha sua mãe a encarava com seriedade. Aproximou-se e deu-lhe um presente.
"Uma aliança!!"
Como um insight, Lívia subia, agora, as escadas do imenso casarão. Viu um corredor. Havia várias portas. Escolheu uma e entrou. Um homem a esperava envolto num lençol de seda vermelha. Os lençóis flutuaram em sua direção, massageavam seu corpo dos pés a cabeça. Aproximou-se da cama e o observou :
"Você ?!".Espantou-se ao ver seu ex-chefe da obsoleta repartição pública que trabalhara. Ele vestia um terno cinza e fumava um charuto, cuja fumaça espalhava-se pelo quarto.
Ela odiava aquele homem que tanto fê-la sofrer. Assustou-se ao perceber que seu ex-patrão tinha olhos de pombo. Tão vermelhos, tão inquisidores. Teve medo e afastou-se. A fumaça tomava conta do ambiente. Tropeçou em vários móveis. Ou seriam pessoas?
Tentou abrir a porta. Não conseguiu. Teve mais um ataque de tosse e desmaiou.
Quando acordou, Lívia já não estava sozinha. Jovens rapazes ,de capacetes e botas de borracha, vasculhavam seu quarto. Tudo estava destroçado. A antiga chaleira virara carbono. Seu quarto, uma imensa caixa de cinzas. Pela janela, observou uma multidão de curiosos que se aglomeravam ao redor do caminhão dos bombeiros.
- O que aconteceu aqui ? - perguntou a um dos rapazes fardados. Não obteve resposta.
Perdera a privacidade. Indignou-se quando um loiro alto atravessou o seu corpo sem pedir licença. Talvez aquela tenha sido a maior violação que sofrera na vida. Sentiu-se impotente, invadida e renegada.
- Fora daqui !! - berrou com toda a força que lhe restara.
Tudo em vão.
Caminhou sobre as cinzas do quarto, observando os estragos causado pelo fogo. Não tinha mais vestidos, vassouras ou panos de prato. Chorou quando viu a sua estimada cadeira de balanço carbonizada. Sua cama transformara-se num esqueleto de molas. As samambaias ainda pareciam incólumes.
- O que vocês estão olhando ? - dirigiu-se ,agressiva, para os curiosos que apareciam na porta do aposento.
Uma velha, com rolinhos nos cabelos, atravessou o quarto sorrateiramente e com cautela, pegou o jarro com as samambaias.
- Não !! As samambaias, não... - Lívia estava impotente. Nada poderia fazer.
Observou tudo a sua volta. Nada lhe restara. A parede sobre o fogão estava negra. O fogo deixara suas marcas até o teto. Agora, ela sabia o que acontecera.
Um acidente com a chaleira havia provocado tudo aquilo enquanto dormia.
Atravessou a porta e olhou para os corredores do velho prédio. Não viu ninguém. Caminhou pelo cortiço, sem sentir dor alguma na coluna ou nos pulmões. Sentia-se tão leve. Adiante, viu seu velho amigo. Ele estava acompanhado.
Lívia pôs as mão no rosto, com espanto.
Sua mãe a esperava de braços abertos.