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Crónicas
Ana Pintão |
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EXPO 98Neste ano de tantos sucessos para Portugal a Exposição Mundial 1998 não foi concerteza o menor. A Expo foi uma festa que reuniu não só a lusofonia da cultura e artes mas também a cantante, dançante, passeante, gastronómica e aquela que aprecia uma paródia. Saímos todos para dançar ou passear ao longo de um Tejo com uma cara nova, de uma faceta desconhecida até para os Lisboetas, para comer uma tosta e beber um gin no longínquo Peter`s, agora subitamente aqui tão perto. Estavamos curiosos, ficámos mais informados. Na maioria ficámos orgulhosos com a obra feita. Os desempenhos estiveram à altura do Portugal ordeiro, civilizado, amável e culto que gostávamos de ser. Atravessámos os 17 Km da ponte Vasco da Gama que é linda e voltámos apreciando a chegada a uma Lisboa mais moderna e de repente maior, quase desconhecida; circulámos pra cima, para baixo e para os lados na magnífica Estação do Oriente de Calatrava ; observámos de vários ângulos a brilhante pala de Siza Vieira no Pavilhão de Portugal, acotovelámo-nos na penumbra para assistir, só mais uma vez, ao Aqua Matrix; acorremos para ver passar uma insólita peregrinação que serpenteava entre vulcões de água coloridos onde se refrescavam as crianças gritando divertidas e ribeiras com ondas onde mergulhavam os pés encalorados estrangeiros; fizémos longas e pacientes filas para ver o Oceanário, o Pavilhão da Realidade Virtual, a vista da Torre Vasco da Gama ou, coisa esperada neste país, o do Conhecimento dos Mares que a todos nos maravilhou. Os pavilhões internacionais em contraste com os da Expo de Sevilha foram considerados por muitos visitantes (sobretudo os espanhóis) mais discretos e menos espectaculares. Fizeram particular sucesso, com fila proporcional, os de Espanha, Suécia, Argentina, Japão, EUA, Canadá, entre outros. A nível nacional destacou-se o bonito pavilhão de Macau que registou grande afluência justificada pela nostalgia da perda iminente do ultimo bastião da nossa lonjura. Os restaurantes internacionais, como seria de esperar também neste país, tiveram grande procura e noite após noite os visitantes, e muito particularmente os Lisboetas disfrutaram de uma inusitada variedade e alegre companhia. O do México, com a simpatia habitual e picante dos seus habitantes e cozinhados, o Francês picante só no preço mas óbviamente bem apresentado, o salero, paelhas e tapas dos vários restaurantes Espanhóis foram obrigatórios, a magnífica carne do Uruguai, o bife de rena da Noruega ou de canguru da Austrália, a informalidade da feijoada Brasileira com todos inclusivé música ao vivo. Entre a lusofonia tiveram particular sucesso as cachupas de Cabo Verde. O bailado, o teatro, a música clássica, o circo, a magia, a arte equestre, a pintura, tudo aconteceu durante a Expo, mas foi a música ligeira e popular a alma da festa. Os mega concertos, alguns com mais de 100 mil pessoas na Praça Sony, atraíram jovens e menos jovens, tendo-se dançado com Betânia, Caetano Veloso, Rui Veloso, Pedro Abrunhosa, Silence Four, Luís Represas, Amélia Muge, Simone, Cesária Évora, GNR, Delfins, Tito Puente, Raul Marques e os amigos da Salsa, Mafalda Veiga, Nuno Bettencourt, etc, etc, só para referir alguns dos que eu fui ver. Os palcos mais pequenos com Jazz, blues, fado ou música regional também registaram muita animação. A música da América do Sul e de África fez-nos abanar até de manhã entre salsas, sambas e merengues nos bares ou nas discotecas. Os adolescentes pulavam sobre as mesas do Bugix os ritmos das suas músicas (em Português quem diria?) e as crianças arrastavam-se pela animação de olhos esbugalhados para o salto gigante, o fogo de artificio ou a famíla de gigantes salsichas (preservativos) azuis, até caírem para o lado de sono e terem de ser carregadas pela família junto com os chapéus, cadeiras de cartão armáveis e o precioso livro de carimbos que provava termos viajado tão longe quanto pode o engenho humano como dizia Camões. Havia muita gente que veio do Brasil de propósito, muitos Cabo-verdianos, Angolanos, Guineenses. De S.Tomé, Timor e Moçambique menos. Os estrangeiros parece que também gostaram mas nós (lusófonos) divertimo-nos muito e aprendemos alguma coisa.
Bebamos um copo de vinho pela Língua Portuguesa e por Saramago!A notícia da atribuição do Nobel da Literatura 98 a José Saramago encheu-nos a todos de orgulho e alegria. Só mesmo um milagre podia salvar a nossa Língua de cair no esquecimento e ser substituida pelo inglês ou pelo espanhol. Parece que esse milagre aconteceu! O Nobel tem a importância que tem, e que é, justificada ou injustificadamente, bastante grande! A nossa literatura chamou a atenção do mundo. O Sueco Presidente do Comité do Prémio Nobel quis homenagear Saramago, os nossos escritores e a nossa Língua falando em Português! É a oportunidade de revitalizarmos os nossos meios de comunicação marcando a utilização do Português, nas escolas, nos jornais, no trabalho. A defesa da Língua Portuguesa não se trata de uma cruzada por qualquer objectivo imperialista ou paternalista, nem sequer uma demarcação de território ou segregação, é apenas uma personalidade que se protege, uma raíz que se defende, uma capacidade de expressão própria que se individualiza, uma correia muito antiga e importante de transmissão de conhecimento. Muitos de nós queriam felicitar Saramago e expressar-lhe a sua simpatia. Portugal em Linha organizou um local onde todos o pudessem fazer. O livro de Parabéns a José Saramago reuniu muitas mensagens de todo o mundo lusófono e não só (Colômbia, Espanha, Canadá, Austrália, etc) em 17 páginas que foram entregues ao escritor juntamente com a homenagem que Portugal em Linha lhe fez. A 10 de Dezembro de 1998 celebrámos com os escritores e músicos lusófonos a entrega do Prémio Nobel numa grande festa da língua portuguesa.
"Speaker`s corner" ou "Conversas livres" No mesmo dia 10 de Dezembro celebrou-se o cinquentenário da assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Juntando os nossos esforços aos de outros pelo mundo fora, Portugal em Linha desencadeou uma campanha de solidariedade para com Timor-Leste e de denúncia dos graves acontecimentos que se tem verificado. Afinal somos 200 milhões! Temos voz! Falemos, cantemos, mostremos ao mundo que existimos e pretendemos conviver de uma forma válida, democrática, solidária e humana. Vivemos em harmonia. Mas uma harmonia que contrasta com as culpas de um passado não tão longínquo e com um presente pouco florido pois há guerra em Angola, guerra na Guiné, mortos e desaparecidos em Alas, repressão em Timor-Leste, pobreza em S. Tomé, exploração laboral e más condições de vida dos Cabo Verdianos, distanciamento e crime organizado em Macau, fome e corrupção no Brasil, droga em todo o Portugal, destruição em Rabo de Peixe e no resto dos Açores, pedofilia na Madeira, falência dos pescadores de Leixões, miséria para os produtores de porcos e vacas do Alentejo, Ribatejo e Estremadura, bairros da lata em Lisboa, favelas no Rio, barracas no Sal. Enfim tantas tristezas e desventuras que toda a nossa solidariedade e harmonia tem de ser posta em prática. Cada um é responsável e capaz. Todos juntos podemos muito. Se há alguma área em que nós, lusófonos, temos valor acrescentado é exactamente na área dos direitos humanos e na tolerância racial. Falo de termos abolido a pena de morte antes de todos. De maioritáriamente nos darmos bem entre as várias etnias e cores do que resultam tão bonitos frutos numa linda miscigenação. De sermos todos mais ou menos pobres ou remediados (com raras excepções). De não sermos santos mas sermos individualmente e intrinsecamente bons. Desafio qualquer outro povo que diga sons diferentes a mostrar tão boa, tolerante e bonita gente! Gostemos mais de nós porque merecemos! Entre vários comentários de grande indignação salientámos alguns que transmitem a boa vontade e extraordinária empatia que se manifesta hoje em dia entre os lusófonos. "O MUNDO NÃO É MAIS UM LUGAR SEGURO PARA OS DITADORES" Renato Lineu de A. Mello Rio de Janeiro, RJ Brasil A VIDA CONTINUA...APESAR DE VOCÊS. "AS PALAVRAS VIVEM!...NÃO SE PODE UM RIO PARAR..." Amaury da Silva Rego Rio de Janeiro, RJ BRASIL Mas continua tudo na mesma. Porquê? Interesses económicos à frente dos interesses humanos. Esta é a resposta. Pedro Pinho Póvoa de Varzim, Portugal Se bem analisarmos veremos que os seres humanos perderam o algo mais que os diferenciava dos outros animais: a razão e o amor. A razão deveria nos ajudar a distinguir o certo do errado. Matar é errado! Amar é certo! tereza cristina pereira barbosa Florianopolis, SC Brasil É tempo da hipocrisia internacional ceder às legitimas aspirações da paz de povos inteiros e do respeito pelos seus básicos Direitos Humanos, como a vida e a liberdade. O Direito Internacional do respeito por todos os povos e pela sua livre escolha de modo de vida, da liberdade e da paz de que tanto as ditas nações civilizadas proclamam, tem que finalmente sobrepôr-se às conjunturais conveniências económicas. Sérgio passos Avelar, Leiria Portugal Sofremos com a repressão a que estão sujeitos, queríamos tanto que a liberdade e autoderminação chegassem finalmente até ao vosso território. Condenamos vivamente os massacres ocorridos. É justa a vossa luta. Somos humildes cidadãos que choramos por vós com a esperança que as lágrimas se tornem um rio e este chegue ao mar e vos inunde com a nossa amizade e solidariedade. E que alguém veja! Um abraço desde Lisboa. Ana Maria Pintão Lisboa, Portugal A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante. José Saramago (Discurso efectuado ao receber o Prémio Nobel em Estocolmo) Lisboa, Portugal e Lanzarote, Espanha Ana Pintão - Lisboa, Portugal E-mail: anapintao@mail.telepac.pt |
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