Crónicas

José J. Cabral
Portugal  - O Ponto de Encontro da Lusofonia


Urzela


Ainda não se conheciam os produtos sintéticos empregues hoje em dia, para tingir corais, matéria prima de alto valor comercial, utilizada na indústria de artigos de beleza que nessa altura andava em alta.
Quando já não restava nem mais um fiapo de Urzela na vizinha ilha de Sta. Luzia, decidiram pelos altos rochedos e penhascos abruptos de S.Nicolau, sujeitos á constante humidade de nevoeiros e orvalhadas, que de Novembro a Junho bafejam as regiões expostas aos alísios que sopram de norte e nordeste. Acertaram. De facto, na cota de 600 a 1000 metros, abaixo do efeito dos contra alísios, abundava esse líquen precioso, cujas propriedades permitiam o tingimento perfeito de corais.
A ilha passou então a ser procurada para importação desse produto. Os riscos da sua recolha nem sempre compensavam. O número de óbitos decorrente, de mortes tombadas em falésias escarpadas, atraiçoados por algum penhasco, dava conta do elevado custo humano, derivado da apanha de urzela. Mesmo assim, vinha a calhar. A fome, o grito das crianças, o desespero da dura realidade da fome falaram mais altos. Germano decidiu que ia apanhar urzela.
Nhâ Marê N'Tonha tentou persuadi-lo a renunciar á ideia. Sairia para as bandas de Fajã, não faltaria uma alma bondosa disposta a matar-lhes a fome. Na véspera vira uma canhota, vinda dos lados de Ribeira Chã, porfiar nos ares de Veríssimo com um corvo negro. Como dois sanguinários cavalos de batalha, atiravam-se um contra o outro, em ferozes investidas acrobáticas. Sobrevoaram Ribeira de Duque, cambaram na assomada de R.ª dos Calhaus pelejando. Era mau presságio.
Lembrou-se de ter visto no céu nuvens delgadas com aspecto de filamentos brancos, em finas franjas - cirros, habitualmente anunciadoras de mau tempo, mas que para ela significavam sinal certo de morte.
À noite, sonhou com uma grande festa num local que não podia precisar. Magnífico salão decorado, reluzente candelabros multicolores, gente conhecida e desconhecida algumas morrida muitos anos atrás, carne fresca, muita festa e muita comida num sonho esquisito que lhe arrepiava os cabelos.
O filho não se coibiu. Não acreditava nessas coisas. Pediu a bênção, despediu-se da família, saiu na graça de Deus para procurar o pão de cada dia.
De Tarrafal chegavam cada vez mais criaturas interessadas em colher o quanto podiam desse líquen, que se escasseava nas zonas baixas de fácil acesso. O preço subia em disparada, um arrátel de urzela já andava pelos 18$000 réis e alguns vinténs.
Não era a primeira vez que escalara os rochedos escarpados da cinta larga á procura de palha e lenha, na companhia do amigo Chiquinho. Não aconteceu das outras vezes, não era desta que lhes iria suceder fosse o que fosse.
Pela trilha de Dotor, esmorecido Chiquinho tentou sem êxito tirar conversa do amigo que caminhava pasmado.
Antes de cambar na Degolada, pararam por instantes. Germano perscrutou contrito, cada recanto da verde ribeira que acordava de mais uma noite mal dormida, cãimbrada do frio; As encostas outrora verdejantes, de batatais, lantuna, purgueiras, jaziam inertes, escorraçadas, inundadas por negras areias de lava recente. Monte Gordo eterno sentinela dos cavoucos circundantes, estático, nada podia fazer para debelar a seca implacável que se abateu sobre as criaturas.
Uma coluna de fumo de lenha, saía do fogão de Bia-Tánha no recanto de Mané Lice. Nas casinhas juntas de Ribeira de Duque, a essa hora, certamente as mães se debatiam com a azáfama de meninos esfomeados, a pleitearem por algo com que cortar o jejum de vários dias. A mãe em pé na soleira da porta observou as duas silhuetas paradas. Uma delas era de seu filho. Algo perturbava seu instinto de mãe.
Girou lentamente a cabeça num ângulo de 180º, com os olhos prenhes de lágrimas. Do lado oposto, qual soberbo gigante tirano, Topo de Matinho, intransponível guardava avarento, quantidades de lenha, palha, urzela, que a muita gente, a fome podia matar. No seu cimo, imponentes Dragoeiros, Marmulanos, Tortolhos conseguiram escapar à saga da fome.
Veríssimo, Terra Chã, Covoadinha, terras áridas, esturradas pela seca, ressequidas pelo vento seco de Este, o harmatão, conhecido por lestada; Estéreis, incapazes de nada mais produzirem, além de tufos de mané-gatinho, e abrolhos. Língua-de-vaca, Lantuna, Soca que outrora cobriam extensos logradouros, há muito deram lugar a um desterro poeirento de solo lunar, onde se formavam redemoinhos, que os nativos atribuíam àquele-homem-pelo-sinal-da-Santa-Cruz. Paisagem fantasma de fim do mundo, onde não se vislumbrava vivalma, a não ser um ou outro pardal solitário.
A andar lentamente chegaram á borda do desfiladeiro que dá para Praia Branca. Sentaram-se por alguns instantes a contemplar as casinhas juntas da aldeia, por entre as quais podiam vislumbrar vacas escanzeladas vindas da aguada, conduzidas por rapazinhos montados em burros em pelo.
Chiquinho puxou a carteira, enrolou em coco de milho, dois cigarros de tabaco picado. Várias tentativas lá conseguiu acender o "fuzil".
Absorto, Germano não se apercebia da oferta do amigo. Não aceitou. No olhar distante, lia-se-lhe a apreensão, ante as revelações da mãe, manifesto durante todo o trajecto, por mais que se tenha esforçado, em disfarçar.
Chiquinho atirou para longe a beata de cigarro, adivinhando a renitência do companheiro, levantou-se em jeito de incentivo: P'ra frente é que está o caminho.
Germano benzeu em voz baixa, fez o sinal da cruz, convencido de que se tinha esconjurado a si mesmo dos maus agoiros, seguiu as pisadas do companheiro.
Por uma estreita vereda, chegaram ao ponto, onde começava propriamente a escalada por um paredão a pique até ao patamar superior, cerca de 5 metros acima, antes de contornar um penhasco oblongo, que tapava o acesso á cinta que procuravam.
Nesse dia não se notava em Germano o entusiasmo decidido de quem não teme desafiar o perigo. Os maus pensamentos ofuscavam-lhe a valentia.
Chiquinho, alheio ás suas perturbações guindou primeiro, com a barriga colada á rocha, servindo-se de saliências e depressões, por onde enfiava os dedos ásperos das mãos e pés, se agarrava com força, evoluía na perigosa escalada do paredão a pique. Agachado mais abaixo Germano, aguardava sua vez de iniciar a escalada.
Pastando pachorrentas vacas da família, do campo de Praia Branca, Eugênio, um moço na casa dos 16 anos, há muito vinha seguindo a aventura desses destemidos que desafiavam o destino, na escalada desse lugar tenebroso onde morriam cabras que ninguém ousava tirar de "poio".
Chiquinho já no cimo do paredão, procurou pontos firmes de apoio. Encontrou, uma raiz de marmulano que descia por uma fissura da escarpa. Segurou-a com a mão esquerda. Com a direita agarrou firme uma saliência de rocha que lhe parecia segura, preparou a impulsão que o levaria ao outro extremo do parapeito, antes de contornar a saliência, e alcançar a cinta. Acto contínuo viu-se suspenso pelos braços. Cedeu a base de apoio que sustinha seu pé esquerdo. A mão direita começou a deslizar-se, também cedeu. Segurou firme com as duas mãos á raiz, por hora, sua única hipótese de salvação. Olhou para baixo, pela primeira vez sentiu vertigens. Cerrou os olhos, para afugentar a miragem de seu corpo desapegando.Germano agachou-se quando a pedra desprendida passou a roçar-lhe a cabeça. Pressentiu o perigo, agachou-se trémulo.
Chiquinho debatia-se com as forças que restavam. O pé direito não lhe sustinha o peso do corpo, levemente apoiado na horizontal, com as pernas abertas num ângulo de quase 90 graus. Pediu socorro ao companheiro que se esforçava para controlar o nervosismo. Na tentativa de colocar o pé suspenso numa depressão pouco mais acima, fez um último impulso, esforçou a raiz. Desprendeu-se.
Como um fardo, bateu na borda do patamar em que Germano se encontrava, antes de se projectar rocha abaixo.
Germano escutou seus gritos. "Ah Nhâ mãe !" , Ah Nhâ mãe !", Ah Nhâ mãe !", cada vez mais distantes. Cessaram, e já só se ouvia o som opaco, abafado de um fardo, chocando contra os rochedos.
Um terror descontrolado apoderou-se dele, tentou conter-se, não pode resistir ao impulso descontrolado, correu pela trilha. Tropeçou, tentou se equilibrar, procurou em vão se suster. Pronunciou suas ultimas palavras antes de mergulhar no abismo.
"Ah nhâ mãeeeeeee " ecoou no topo de moca, quando seu corpo magro iniciou a queda fatal.
Eugênio presenciava horrorizado a cena assustadora. Apressou-se a anunciar. Foi directamente á casa do Cabo Chefe.
Nhô João d'Nhâ Tuda mandou chamar o chefe de tambor.
- "Bond", a esta hora ?
Na pacata aldeia de Praia Branca não ficou vivalma. Foram encontrar seus corpos desfeitos, espatifados no fundo das Pombas. Um não tinha cabeça. Ambos estavam desfigurados, irreconhecíveis. Faltavam membros. O corpo que tinha cabeça, trazia um olho vazado. O ventre aberto deixava á vista órgãos dilacerados.
O Cabo Chefe mandou um emissário dar conta na Ribeira dos Calhaus.
Já passava do meio dia quando a voz do moço vindo pelo caminho de Covoadinha se fez ouvir do alto de Degolada:
- Morte de Rotchaaaaaaaaaaaaa !
A notícia chegou clara aos ouvidos das gentes da parte baixa do lugarejo. Mais acima entretanto chegou um ruído indistinto, imperceptível, destoado pelo eco das rochas. Foi todavia o suficiente para a pobre mãe sobressaltada, confirmar o sentido das pancadas que sentira no coração momentos atrás. Coincidiam com o momento em que seu filho se debatia com o medo do fim inglório que lhe esperava muitos metros abaixo.
A população do lugarejo acorreu a dar fé. Só Nhâ Ninha, não se incomodou;
- Levantamento de Môrte d' roctha, só com autoridades. Disse ela.
Calmamente terminou de esfarelar o milho, pranteando em surdina, numa guizinha monótona, saudosista. Armou a cachupa sobre as três pedras do fogão, acendeu com lenha de tortolho. Não tinha nada para lhe colocar além de água e sal. Verdadeira cachupa de fome. Deixou Chapeleira a espiar, e acrescentar água quando se mostrasse necessário. Se tardassem em regressar, podia fazer seu prato, um apenas para não faltar para as restantes bocas que retornariam mais esfomeados do que nunca.
Abalou-se para Praia Branca carregando uma lata. Reinava o silêncio na nascente de olho d'agua. A bica vazava para o tanque quando lá chegou no final da tarde. Seguiu para o local do acidente, com a lata de água á cabeça, para matar a sede de gente esbaforida, sentados impotentes á espera de autoridades, sob um calor abrasador, ante a cena macabra que assistiam.
Canhotas sedentas sobrevoavam, aguardando o momento de se abaterem sobre os restos que ficaram pelo caminho, na queda que vitimou de uma só vez dois jovens, cujas vidas perderam na tentativa de se salvarem da fome que se abateu sobre a ilha.
No lusco-fusco chegaram da vila as autoridades para removerem os dois cadáveres. Seus corpos envoltos em panos de calabedotche, foram a enterrar no cemitério da Purgueirinha, decapitados de membros, miolos, espatifados, á luz de lampiões de azeite de purga.
Os que viveram continuariam a apanhar urzela e a morrer, porque não se lhes apresentava outra alternativa de sobrevivência.
De todo modo, quem não morresse de rocha morreria de inanição. Era mais fácil sentar e esperar a morte chegar, mas dignidade teria a morte ? O Santíssimo haveria de ter misericórdia de cada filho de parida.

PST.
Os nomes são fictícios, mesmo assim homenageiam gente humilde de S.Nicolau, mortos de qualquer jeito, anónimos. Todavia gente honrada que preferia morrer a procurar a vida do que a mendigar.

José J. Cabral - Cabo Verde
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