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"Graffiti" a quanto obrigas...


A propósito da proposta de criminalização dos autores de "graffiti" feita pelo Partido Popular recentemente, veio-me à ideia o que os estrangeiros do centro da Europa diziam quando após a revolução de Abril, passeavam em férias pelo nosso pais. Num misto de espanto e repulsa, ao verem as paredes das nossas cidades repletas de desenhos e pinturas de índole politica, desabafavam que aquilo era impossível nos seus países civilizados onde qualquer pessoa que os fizesse era imediatamente presa como delinquente grave.
Hoje basta ir de visita a qualquer cidade da Alemanha ou a Londres, por exemplo, para depararmos com as paredes, placas de sinalização, bancos de estações, comboios inteiros, etc, completamente repletos de "graffiti" num espectáculo deveras embaraçoso.
Onde estão então as polícias para prender tanta gente jovem que deambula pelas ruas e jardins das cidades do centro dessa Europa abastada, alguns vestidos de preto, ornados de correntes e acompanhados por enormes cães raivosos ? Onde está essa cultura democrática, esse índice elevado de civilização ? Apetece perguntar : e as cidades portuguesas como estão comparadas com elas? Uma delicia, diria eu, com um sorriso nos lábios lembrando-me das frases que ouvia há 25 anos.
Pois é mudam-se os tempos mudam-se as vontades e invertem-se muitas vezes os cenários!... Os "graffiti" são sinais indirectos importantes da saúde de uma sociedade. Uma espécie de electrocardiograma citadino onde se pode sentir os apertos das coronárias económicas e a exclusão de largos territórios populacionais à irrigação dos bens de conforto e de consumo. Onde também se pode ler o "ferver" de uma esperança como em 1974... O problema está em saber enfrentar as causas desses gritos de alerta ou de exaltação. Agora ter a veleidade de os tornar crime é o mesmo que um médico, perante a suspeita de um enfarte do miocárdio, prescindir do electrocardiograma, atrasando o diagnóstico, negando a necessidade de tratamento da doença e colaborando assim na provável morte do doente.

José Dias Egipto
escreve nesta coluna todas as semanas.


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Portugal em Linha - O Ponto de Encontro da Lusofonia