F.F.F.

No tempo de Salazar dizia-se que Portugal era o país dos 3 F - Fado, Futebol e Fátima. Actualmente de Fado temos pouco, de Fátima idem aspas mas quanto a Futebol não nos podemos queixar e não será pela ausência dos dois primeiros que deixámos de ser o país dos 3 F. Basta olharmos para quem nos "informa" - jornais e televisões - abrem com grande parangonas sobre futebol, no meio mais futebol e no fecho ainda desporto, leia-se futebol. É mau? Claro que não! Quer dizer que todo o país vai bem, não há miséria, a saúde está óptima e a educação também. Não existe corrupção, a economia recomenda-se e é bonito de ver o bem estar geral. Num ambiente de felicidade suprema é natural que só se fale de lazer!

 

 

  Fernando Cruz Gomes

O Futebol é que... "induca"!

Já uma vez, há muitos anos, falei de futebol. E tanto falei... que até fiz um relato. Estávamos ali para as bandas de uma coisa a que chamávamos Estádio... dos Coqueiros, na capital de uma então província, que já tinha sido colónia... e hoje é País (honra lhe seja feita). Éramos então (quase) principiantes dessa coisa de fazer Rádio... e ainda tínhamos, por essa altura, a mania de que para fazer Rádio - ou Televisão ou Jornais... - era preciso aprender.

E então vá de aproveitar a ida a Luanda de uma equipa chamada Sporting Clube de Portugal e de uma outra que se chamava Ferroviária de Araraquara (Brasil). Este clube trazia até consigo um relator. Era o Énio Rodrigues - que nem sei onde anda e nem sequer se faz relatos para lá do "assento etéreo" onde todos havemos de subir. Pois, como queria aprender, lá me atrelei ao bom do Élio. E não é que... lá fui fazendo o relato! Claro que enquanto o Énio relatava... 5 jogadas, eu não passava de meia! Isto é... a velocidade do Énio era assim uma coisa a modos que um avião a jacto, enquanto a minha não passava de burro a correr...

E tão burro me senti... que nunca mais quis pegar num microfone para fazer um relato de futebol! Acho que isso se chama vergonha... mas adiante. Vergonha? - Não, porque eu haveria de voltar à "cena do crime" - muitos anos depois... - num tal Lamport Stadium que vive paredes meias comigo em Toronto das mil frustrações. E de facto ainda fiz ums relatozitos... mas sem nunca ter aprendido. O que é normal por estas paragens onde o Português se vai finando. Fiz relatos... até aparecer o Amadeu José de Freitas. Que a esse... nunca eu disse que sabia fazer relatos. Era mesmo o que faltava!

Pois... mas hoje, um pouco por todo o mundo... o Português é doente pelo Futebol. E eu que não queria falar no tema... tenho de avançar. São ordens! Ainda um dia hei-de tentar saber de que clube é o António J. Ribeiro. Sim, porque o meu compadre, aqui ao lado... sei eu bem de qual ele é. A viver junto a Sua Excelência o Excelentíssimo Pinto da Costa! Só pode ser... isso mesmo.

Eu não. Não sou de nenhum clube. Acho que é um desperdício de tempo ficar por aí agarrado ao televisor ou ao rádio... para imaginar uns quantos "pêssegos" a dar meia dúzia de pontapés na bola. Era mesmo o que faltava! Portugal, porém, só pensa em futebol. E às vezes há autênticas guerras. Com cadeirada e tudo. Eu... fujo disso. Adepto de um clube?! Era mesmo o que faltava! E no entanto até me dizem que o prof. Marcello Rebelo de Sousa está agora... a meter futebol nos seus inteligentes comentários. Pobre professor! Ao que ele chegou?!

No tempo de Salazar dizia-se que Portugal era o país dos 3 F - Fado, Futebol e Fátima. Pois, mas de Fado, hoje, temos pouco. De Fátima assim-assim. Quanto a Futebol, aí não nos podemos queixar e não será pela ausência dos dois primeiros que deixámos de ser o país dos 3 F. Agora é Futebol... Futebol... Futebol. Basta olharmos para quem nos "informa" - jornais e televisões. Abrem com grande parangonas sobre futebol. No meio, há mais futebol. No fecho, mais uma fatia do dito.

Irra! Até parece que temos a melhor Saúde do Mundo. Que a nossa Educação está nos píncaros da Fama e que o Trabalho, enquanto instituição... vai indo de vento em popa. E como não temos nenhum desses problemas... aí temos nós de tomar banho, resfastelados, em ondas de futebol. Temos de fazer da bola o símbolo nacional. Com muitos Figos e alguns... Baías, sem esquecer os Costas das nossas angústias e os Quaresmas e Vianas de quanto baste.

Somos, de facto, um país... fantástico. Somos, por cá, uma comunidade do melhor. O Futebol é, de facto, quinduca. E quando assim é...

Esta crónica vai hoje mais pequenina. Não levem a mal... tenho de ir ali a um certo sítio ver o meu Sporting... que vai jogar nem sei com quem. Os meus filhos mais novos - a quem eu, pelos vistos, transmiti as minhas virtudes... - vieram chamar-me. Tenho de ir ver o jogo com eles. E como a minha mulher também me acompanha é certo e sabido... que vai ser uma tarde de sofrimento. É que todos, mas todos - passando pela minha mulher, pela minha filha, pelo meu filho e creio que até já pela minha neta - vão gritar, barafustar, cirandar em torno dos jogadores, a quem pedem para cruzarem, possa... para correrem, para meterem golo.

E eu - pobre de mim! - lá vou gritando também. Tive o azar de querer um dia que os meus filhos ficassem do Sporting... porque eu também era do Sporting. Pois! Ficaram doentes... doentes... doentes. E a minha filha até diz que se isso é doença... não quer ser curada...

Fernando Cruz Gomes

 

  Orlando Castro

Figo, Ferro e Forças (Armadas)

Parafraseando um dos ídolos (para alguns) do Futebol (e cá está, ou continua, o primeiro F do nosso (des)contentamento), um tal Luís Figo, são poucos os políticos capazes de dizer que, para perder prestígio, preferem não ir à selecção... política. O tacho é demasiado importante e, é claro, cada vez mais ser político é uma profissão.

Se, em matéria de futebol, Portugal tem o que merece, na política também não anda longe. O importante, ao que parece, não é o país real (doente, vilipendiado, maltratado, prostituído) mas, isso sim, tudo o que é marginal e que serve às mil maravilhas para enganar o povo. Discutir o essencial? Para quê? Sim, para quê se, mais coisa menos coisa, todo ficamos saciados com a discussão do acessório?

É claro, digo eu e mais meia dúzia de cépticos, que os "nossos" políticos deveriam analisar, por exemplo, o défice da balança de transacções correntes que revela que damos cabo de 8% a 10% do Produto Interno Bruto. É claro, dizemos os mesmos, que os tais políticos deveriam analisar as razões porque o défice das contas públicas é de 3% ou 4% do PIB.

Então porque carga de água não o fazem? A minha teoria continua a ser a mesma: Enquanto este país não instituir o primado da competência em vez do da subserviência, não vamos lá. É por isso que os "nossos" políticos se limitam a ver para que lado vai o fumo dos eléctricos. Ou, como diz o povo, a andar calçados para não se ver que têm as meias rotas.

Mas há mais. Muito mais. E chegamos a mais um dos F da era moderna desta democracia que, quer se queira quer não, está a ser um problema para a solução e não, como nos prometeram, uma solução para o problema.

«Não tenho medo nenhum desses palermas que pensam que me intimidam com mentiras». Nem mais. Embora seja ele próprio um paradigma de quem confunde a obra prima do Mestre com a prima do mestre de obras, não lhe falta nem lata nem vergonha. Quem assim fala não é gago, é Ferro Rodrigues.

Ferro Rodrigues que, eventualmente num regresso às origens, considera palermas os que, na circunstância do PSD e CDS-PP, defendem a constituição de uma comissão de inquérito à actuação do último Governo no acidente na estação de metro do Terreiro do Paço. Este F é de facto um exemplo (e por isso merece um obrigado) de como quem, por ser ignorante diplomado, confunde o violino comprado na Feira da Ladra com um Stradivarius.

Estaríamos, se calhar, à espera de ver este Ferro alertar para a nossa perda de credibilidade nos mercados financeiros internacionais, o que resultará - com ou sem palermas - em claros aumentos do prémio de risco e das taxas de juro e, ainda, na certeza de ver os investimentos estrangeiros a passar ao lado (ou por cima) do nosso país.

Chegados a esta fase não poderia faltar o terceiro F e que respeita aos que, embora perdendo todas as recentes guerras em que estiveram envolvidos (Guiné, Angola e Moçambique), continuam a ter (dizem eles, pelo menos) um papel importante na sociedade portuguesa: as Forças Armadas. Não sei se, de facto, perderam essas guerras. Sei, contudo, que de jure assim consta.

«Este ministro tem tido algumas dificuldades que não têm nada a ver com as Forças Armadas. Paulo Portas está paralisado com o caso da Universidade Moderna». Assim falou o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas Portuguesas, General Alvarenga Sousa Santos.

Se cada macaco deve estar no seu galho, o Chefe das Forças Armadas exorbitou a sua agilidade e mudou de galho. Eventualmente porque, talvez por defeito congénito de fabrico, os portugueses só estão bem onde não estão.
O General Alvarenga não tinha, na minha opinião, que meter a foice (salvo seja!) em seara alheia. Fê-lo à revelia da Lei de Defesa Nacional (Artigo 31) e, mais do que isso, violando o dever de solidariedade para com o seu Ministro da Defesa.

É claro que o aumento de 2% no Orçamento de Estado para as Forças Armadas é pouco, sobretudo porque o anterior Governo socialista se esqueceu de fazer, nesta como em quase todas as outras matérias, o que lhe competia. Mesmo assim, pergunta-se: quantos serão os portugueses que vão ter 2% de aumento?

Acrescente-se que, segundo o FMI, a economia portuguesa vai crescer 0,4% em 2002 e 1,5% em 2003, o desemprego será de 4,7% em 2002 e 5,1% em 2003 e os preços vão subir 3,7% em 2002 e 2,7% em 2003.

E é assim. São outros os efes mas o mexilhão continua a ser o mesmo. O zé povinho continua a pagar as facturas. As facturas do futebol, dos políticos palermas e dos militares que perderam as guerras e não conseguem assinar a paz.

Orlando Castro

 


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